Descrição de chapéu Coronavírus

Governador de São Paulo já vacinou presidente da República

Lula e Serra, em 2008, posaram para foto ; 12 anos depois, Bolsonaro cancelou acordo com governo paulista

São Paulo

A animosidade política não impediu, no passado, que um governador de São Paulo "vacinasse" um presidente da República. À época, em 2008, José Serra (PSDB) posou para fotos enquanto simulava dar uma injeção em Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tratava-se, então, do início da campanha de vacinação contra a gripe.

Doze anos depois, e em meio à pandemia do novo coronavírus, nada parece mais distante da realidade. Ninguém hoje imagina que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aceitaria ser imunizado pelas mãos do governador de São Paulo João Doria (SDB). Não após a série de rusgas entre os dois e menos ainda após o imbróglio da última semana.

Em 2008, o momento foi registrado em uma foto. Na realidade, Lula foi vacinado por uma enfermeira, mas a imagem registrou o momento de união dos dois políticos, que haviam disputado a eleição para presidente seis anos antes, em 2002.

Observado por Marisa Letícia Lula da Silva, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), finge aplicar injeção no presidente Luiz Inácio Lula da Silva em posto de saúde em São Bernardo do Campo, na abertura da campanha contra a gripe.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe uma aplicação de brincadeira de vacina do então governador de São Paulo José Serra (PSDB), enquanto é observado por Marisa Letícia Lula da Silva, em posto de saúde em São Bernardo do Campo, na abertura da campanha contra a gripe. - 26.abr.2008 - Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

Na última quarta-feira (22), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) travou uma guerra contra o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e o Instituto Butantan, entidade de pesquisa pública ligada ao governo estadual e que irá produzir a vacina contra o novo coronavíus da empresa chinesa Sinovac no país. Segundo o presidente, a vacina desenvolvida na China não transmite segurança “pela sua origem”.

O governo de SP e o Instituto Butantan tinham fechado acordo na véspera (21) com o Ministério da Saúde para compra de 46 milhões de doses da Coronavac, a vacina da Sinovac.

A vacina é uma das dez em fase final de testes antes da aprovação para uso contra o novo coronavírus. No país, o imunizante já foi testado em 9.000 voluntários, coordenado pelo Instituto Butantan.

O evento da vacinação contra a gripe, em 2008, foi um marco na introdução daquela vacina no calendário do Programa Nacional de Imunização (PNI), e contou com 3 milhões de doses naquele ano, voltadas especialmente para os idosos. A vacina da gripe hoje é recomendada para crianças, grávidas e puérperas, idosos acima de 60 anos, trabalhadores de saúde, professores, agentes de segurança e pessoas com doenças crônicas.

“Faz três anos que tomo vacina e três anos que não tenho gripe”, disse Lula na ocasião. “Todos nós que estamos chegando na terceira idade precisamos nos cuidar.”

Desde 2014, a vacina da gripe foi incorporada ao SUS após um processo longo de transferência de tecnologia. A vacina da gripe hoje é produzida no Butantan, que conta com escala para produção de 70 milhões de doses por ano do imunizante.

Além da gripe, o instituto fabrica também outras vacinas importantes para a proteção de crianças e adultos no país. Junto com a Fiocruz, no Rio de Janeiro, o instituto centenário paulista fornece 75% das vacinas inseridas no PNI, programa elogiado e referência de saúde pública em todo o mundo.

No Brasil, a vacinação é obrigatória em recém-nascidos e crianças até seis meses de idade. Nos últimos anos, porém, a baixa adesão fez com que a cobertura vacinal tivesse redução de até 27% para algumas vacinas.

Por serem dados relativamente novos, ainda não estão claros os motivos para a queda na vacinação. Especialistas argumentam que os fatores no Brasil para a redução na taxa de vacinação são múltiplos, desde problemas na organização da rede, desabastecimento nos postos, falta de tempo dos pais para levarem as crianças —principalmente aqueles que trabalham integralmente e não podem faltar ao trabalho— até mesmo a falsa sensação de segurança —a ideia de que se todo mundo vacinar, você não precisa vacinar seu filho.

Embora não sejam inexistentes, os movimentos antivacina no país possuem menos força e talvez até menos impacto na cobertura vacinal do que em outros países, como os Estados Unidos.

Especialistas, no entanto, alertam para a disputa política em torno da vacina contra a Covid-19 e como isso pode aumentar as fake news e alimentar o movimento antivacina.

Elize Massard da Fonseca, pesquisadora da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas que analisa transferências de tecnologia no país, acredita ser melhor para o Brasil e para o SUS ter mais de uma vacina disponível. “A disputa entre os laboratórios, algo inédito no passado, dá fôlego para os movimentos antivacina. As pessoas só têm a perder com isso.”

Para Luciana Leite, diretora do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas do Instituto Butantan, o medo de que as vacinas vão causar doença ou que a população é “cobaia” é infundado. “As vacinas não causam doenças. Cada vez que alguém diz que um imunizante é tóxico, as pessoas precisam buscar informações em fontes confiáveis, como a OMS, os órgãos regulatórios, e especialistas. O processo de produção de vacina, mesmo acelerado, está baseado em muitos anos de estudo, e nunca mostraram toxicidade ao longo de todos esses anos.”

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.