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Covid-19 atingiu menos de 0,1% das escolas inglesas após reabertura parcial, diz artigo

Em comentário ao estudo, cientistas ponderam que dados foram coletados quando país tinha baixa taxa de transmissão

São Paulo

A reabertura parcial das escolas na Inglaterra nos meses de junho e julho não se converteu em crescimento significativo nos números de casos e surtos de Covid-19 entre funcionários e estudantes, segundo dados de um artigo publicado nesta terça-feira (8) na revista científica The Lancet Infectious Diseases.

De acordo com o artigo, foram registrados 113 casos únicos e 55 surtos, que envolveram 210 casos da doença entre os dias 1º de junho e 17 de julho nas mais de 57 mil instituições de ensino monitoradas pela agência de saúde pública da Inglaterra (PHE) —38 mil creches, 15,6 mil escolas primárias e 4.000 escolas secundárias. Os mais de 900 mil alunos que participaram do estudo tinham idades entre 4 e 17 anos.

Segundo dados do estudo, os surtos atingiram cerca de 0,09% das escolas incluídas na pesquisa. Os pesquisadores definiram como surto um evento com ao menos dois casos ligados entre si.

Para os autores do estudo, os resultados mostram que o aparecimento da doença em espaços escolares é raro e indicam que um retorno seguro às aulas presenciais deve contar com a redução da transmissão comunitária na região da instituição e com a ampliação de medidas de segurança entre funcionários.

Na Inglaterra, as escolas fecharam na primeira quarentena nacional, imposta no fim de março. Com a reabertura em junho, 1,6 milhão dos quase 9 milhões de estudantes ingleses voltaram a frequentar as aulas presencialmente.

Além da redução no número de alunos presentes nas escolas diariamente, o sistema educacional adotou uma metodologia de bolhas, juntando pequenos grupos de alunos e funcionários que só interagiam entre si.

O artigo mostra que os funcionários adultos, como professores e outros profissionais que trabalham nas escolas, são os que estão mais suscetíveis à doença. Dos 210 casos provenientes dos surtos, 154 (73%) aconteceram em funcionários e 56 (27%) em estudantes.

A transmissão é mais comum entre funcionários e mais rara entre estudantes ou entre estudantes e professores, apontam os dados. Os surtos envolveram, em média, um caso secundário.

"Enquanto a equipe de funcionários teve as maiores taxas de infecção, é importante notar que o número total de casos foi muito pequeno, e a maioria dos trabalhadores se manteve bem e capaz de se proteger e cuidar dos estudantes", afirmou em comunicado o médico Sharif Ismail, especialista em saúde pública da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e principal autor do artigo.

"Os professores foram cautelosos com o distanciamento social e as práticas de controle de infecção quando estiveram com os estudantes, mas isso foi mais difícil de ser mantido fora da sala de aula."

O estudo é assinado por cinco cientistas de instituições de pesquisa da Inglaterra.

No comunicado, Ismail acrescenta que os professores têm mais chances de desenvolver sintomas da doença, que atingem muito pouco as crianças.

Assim, os adultos infectados foram mais facilmente localizados, o que pode ter se traduzido em altos índices de infecção entre os funcionários e em uma possível subnotificação dos casos nos mais jovens, geralmente assintomáticos.

Os casos foram registrados com maior frequência em escolas de regiões onde a transmissão comunitária era mais alta. Para os autores, isso reforça a necessidade de controlar as taxas de contágio para dar mais segurança para as escolas.

Em um comentário sobre o artigo também publicado na The Lancet Infectious Diseases, Stefan Flasche e John Edwards, pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres que não participaram do estudo, escrevem que durante o período em que os dados foram coletados a taxa de transmissão era baixa no país, o que teria contribuido para o resultado apresentado no artigo.

Para eles, a abertura que houve depois das férias de verão no hemisfério Norte, que incluiu mais alunos, pode ter números maiores do que os mostrados no estudo publicado.

Para Fausto Flor Carvalho, pediatra e chefe do Departamento de Saúde Escolar da SPSP, os resultados confirmam o que as comunidades médica e científica têm sustentado nos últimos meses, que as escolas são lugares seguros para reabertura durante a pandemia, uma vez que as crianças são pouco afetadas pelo Sars-CoV-2.

Algumas estimativas de cientistas indicam que as mortes de crianças representam menos de 1% do total de óbitos causados pela doença. As infecções registradas nessa faixa etária no mundo todo equivalem a cerca de 2% do total, segundo a Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) —crianças e adolescentes formam aproximadamente 25% da população mundial.

“Ainda não podemos voltar totalmente, mas podemos fazer um retorno parcial, com menos alunos nas salas e sem funcionários dos grupos de risco. Também seria necessário ampliar a testagem para mais alunos e professores para podermos ficar mais tranquilos”, afirmou Carvalho.

Segundo a infectologista pediátrica Luciana Becker Mau, os resultados do artigo reforçam a necessidade de uma maior articulação entre instituições de ensino e saúde para responder rapidamente ao surgimento dos casos. “Podemos passar dias escrevendo um protocolo para a escola lidar com a Covid-19, mas ele não vai contemplar tudo. É preciso ter por perto alguém da saúde para a escola poder recorrer quando os casos suspeitos ou confirmados surgirem”, afirma.

A médica, que faz parte do Ciência pela Escola, um movimento de pediatras que reúne informação científica para o debate sobre a reabertura das escolas, acrescenta que o comportamento fora das escolas reflete do lado de dentro. “Quando o resto da comunidade decide se prefere abrir bares e restaurantes antes da escola, está definindo a segurança para o retorno das aulas”, disse.

Especialistas de diversas áreas criticam o período que o Brasil deixou as escolas fechadas, mais longo do que a maior parte dos países. Os prejuízos para os jovens podem levar anos até que sejam reparados, dizem os defensores da reabertura das escolas.

A maior resistência à volta das aulas presenciais está entre os professores, que são os que têm mais risco de desenvolver formas mais graves da Covid-19.

Uma enquete realizada com escolas particulares de São Paulo divulgada no fim de novembro identificou que 13% das instituições registraram pelo menos um caso de Covid-19 entre os alunos. O levantamento mostrou ainda que 27% das unidades registraram casos de contaminção entre os professores.

No estado de São Paulo, mesmo com o recente aumento nos números da doença que levou todo o estado à regressão para a fase amarela do Plano SP de retomada econômica, impondo mais limitações ao comércio, as escolas continuaram com a permissão para reabrir parcialmente. A decisão sobre as aulas presenciais, porém, cabe a cada prefeitura.

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