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Com baixo estoque de oxigênio, Manaus tem nova madrugada com mortes em hospitais

Capital do Amazonas vive colapso do sistema de saúde; pacientes são transferidos para outros estados

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Rosiene Carvalho Monica Prestes
Manaus

Os hospitais da rede pública de Manaus tiveram uma nova madrugada com mortes de pacientes devido ao baixo estoque de oxigênio para atender os pacientes internados com Covid-19.

A Folha ouviu relatos de médicos e outros profissionais da saúde que atuam no tratamento de pacientes com Covid-19, que informam que as dificuldades para conseguir leitos e ter oxigênio se mantiveram na noite de quinta-feira (14) e na madrugada desta-sexta-feira (15).

Chorando, a médica do Samu Patrícia Sicchar disse que a dificuldade para conseguir leitos em hospitais de porta aberta em Manaus piorou na noite de quinta-feira.

Depois de circular por unidades de saúde da cidade, conseguiu que dois pacientes fossem aceitos no Platão Araújo, zona Leste de Manaus, mas eles teriam de enfrentar o mesmo drama: a falta de oxigênio.

“Em meia hora, eu vi falecerem dois. Não tem bico de oxigênio, infelizmente. São cenas de horror, o colega médico não tem mais o que fazer. Teve falta de oxigênio hoje em vários SPAs. É dramática a situação das famílias amazonenses”, disse.

Capital do Amazonas vive colapso do sistema de saúde em razão da pandemia - REUTERS/Bruno Kelly

No HUGV (Hospital Universitário Getúlio Vargas), onde pacientes morreram sem oxigênio na madrugada de quinta-feira (14) , os profissionais de saúde relatam que as doações de cilindros de oxigênio e as transferências de pacientes devem garantir que a situação fique sob controle para atender aos pacientes já internados pelo menos até o fim de semana.

Mas, em algumas unidades da rede estadual de saúde, o estoque já chegava perto do nível crítico na manhã desta sexta (15), principalmente nas unidades que são referência para Covid-19 e que possuem pronto socorro, como o Hospital 28 de Agosto, os Serviços e Pronto Atendimento (SPAs) e maternidades, que recebem novos pacientes diariamente.

“O HUGV não tem emergência. Nos hospitais de porta aberta, principalmente os SPAs e pronto-socorros, a situação está muito pior, porque você tem muitos pacientes em macas em corredores com uma assistência muito mais precária”, alertou o médico, que pediu anonimato.

A enfermeira e presidente do Sindicato dos Profissionais da Saúde, Graciete Mouzinho, 54 anos, estava no plantão para uma inspeção na manhã de quinta-feira (14) dentro do Plantão Araújo quando disse ter percebido corre-corre e desespero dos profissionais por causa da falta de oxigênio para os pacientes.

“No corredor lotado, as pessoas estavam tentando respirar e não conseguiram. Foi uma coisa horrível de se ver. Aqueles idosos pedindo socorro, levantando a mão, a família abanando e a gente não ter como ajudar. Sou enfermeira há 18 anos e nunca tinha sentido tanto medo na minha vida”, afirmou, por telefone.

Ela disse que a cena se repetiu em outras unidades em Manaus e no interior do Amazonas. “Recebi muitos áudios aqui de técnicos em enfermagem. Estão muito abalados. Tem gente que não quer mais voltar [para o plantão nos hospitais] para não ter que ver essas pessoas morrerem."

O médico cardiologista Anfremon D’Amazonas, que esteve no HUGV (Hospital Universitário Getúlio Vargas) no momento do caos da falta de oxigênio, publicou um vídeo em suas redes sociais no final do plantão .

Ele disse que não fazia parte equipe da manhã, mas se juntou aos colegas no hospital quando soube da urgência. Os profissionais tiveram que racionar o oxigênio para que não faltasse para ninguém.

O médico relata que, dos 27 pacientes da ala em que ele atendia, dois morreram: “Foi um momento desesperador. Muito desesperador. Muita gente chorando. Os pacientes morriam e a gente não tinha o que fazer”, afirmou.

A capital do Amazonas vive um cenário de recorde de hospitalizações por Covid-19 e escassez de oxigênio nos hospitais. O insumo faltou em diversos hospitais da rede pública nesta quinta-feira (14), resultando na morte de pacientes por falta de oxigenação, segundo relato de médicos.

A explosão de novos casos da Covid-19 fez com que a demanda por oxigênio chegasse a 76 mil metros cúbicos diários.

Por outro lado, a produção diária de White Martins, Carbox e Nitron, que são as três fornecedoras do insumo para o governo do Amazonas, é 28,2 mil metros cúbicos por dia. A White Martins tenta importar o produto da Venezuela.

Na madrugada dessa sexta-feira, a Força Aérea Brasileira desembarcou em Manaus uma carga de 6.000 litros de oxigênio líquido da empresa White Martins, fornecedora do governo estadual.

A carga, que veio de São Paulo, transportada em seis isotanques de mil litros e vai ser distribuída nos hospitais da rede estadual.

A previsão é que um total de 22 mil metros cúbicos de oxigênio seja encaminhado ao longo da semana para Manaus, em operação a partir de Guarulhos, cidade da Grande São Paulo.

Com o apoio da FAB, o governo do Amazonas iniciou nesta sexta-feira a transferência de pacientes com Covid-19 para hospitais de outros estados.

Em uma mudança do plano previsto inicialmente, apenas nove pacientes que estavam internados na rede pública estadual foram transferidos para Teresina, no Piauí. A expectativa era que fossem enviados 30.

De acordo com o governo do Amazonas, quatro pacientes apresentaram instabilidade e, por isso, não puderam ser embarcados. Outro paciente desistiu.

Estes foram os primeiros pacientes 235 que serão enviados para cinco estados brasileiros. Um segundo grupo de 15 pacientes deve ser encaminhado para São Luís, no Maranhão, também nesta sexta-feira.

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