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Nas praias de São Paulo, máscara vira raridade entre turistas

Relaxamento nas medidas de prevenção à Covid-19 ajuda a explicar repique de casos

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Praia de Picinguaba, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo

Praia de Picinguaba, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo Emilio Sant'Anna/Folhapress

Ubatuba, São Paulo e Guarujá

Três ônibus de turismo estacionam em Picinguaba, vila de pescadores de Ubatuba, numa manhã de domingo do final de novembro. Dele, descem algumas dezenas de turistas vindos da Baixada Santista e da Grande São Paulo. Vê-los é como olhar para o passado, para uma época em que usar máscaras em qualquer lugar poderia ser considerado uma excentricidade.

Animados, eles enchem a rua principal da vila, no litoral norte de São Paulo, e se postam ao lado dos barcos que partem em sequência para a Ilha das Couves, onde passarão o dia. Restam os moradores e veranistas que alugam casas de temporada. Alguns destes ainda usam o item de segurança. Entre os moradores, apenas aqueles que trabalham com turistas.

Em uma das duas vendas da vila, um rapaz despreocupado no caixa diz que houve casos de Covid-19 por ali, que há poucos dias um morador havia morrido e que no início da pandemia eles chegaram a montar uma barricada na saída para a Rio-Santos, impedindo que turistas entrassem no local. Na época, até briga teve quando um carro vindo de São Paulo insistiu em furar o bloqueio.

Aparentemente essa preocupação ficou para trás. Assim como ele, um grupo sentado em frente da venda conversa tranquilamente. Ninguém está de máscara.

Nas areias da praia, uma família vinda de Santo André chega de máscara. Eles sentam, abrem um cooler de bebidas, montam uma piscininha de plástico para uma bebê e, finalmente, retiram o item de proteção. Segundo a avó da menina, elas haviam passado por Paraty, a cerca de 20 minutos dali, onde a situação era ainda pior.

Meia hora depois, um grupo sem máscara chega, monta um guarda-sol bem ao lado da família e “toma posse” de um pedaço da areia numa das partes mais estreitas da praia. Os dois núcleos veranistas não se conhecem. Em menos de meia hora, estão sentados juntos, confraternizando e compartilhando o fato de terem em comum a mesma origem. Máscaras, é claro, não fazem parte do encontro.

Do meio da manhã até o meio da tarde, o movimento fica mais tranquilo na vila. Então, quando os turistas retornam da ilha, a rua volta a se encher. Mais uma vez, um desfile de desmascarados se dá por Picinguaba. Aqueles que insistem em usar são quase raridade.

Àquela altura, os casos de Covid-19 já estavam em alta novamente no país e no estado. O comportamento dos turistas pode não ser a única causa, mas ajuda a explicar o relaxamento que levou a essa situação.

No mesmo dia, na quase vizinha praia da Almada, por onde se chega cruzando condomínios de alto padrão e bares e restaurantes na beira da praia, a situação é parecida. Guardadores de carro, garçons e ambulantes se protegem. Turistas, não.

Nas cadeiras postadas na areia, lado a lado, uma sucessão de pessoas sem máscaras. Estão na praia, de frente para o vento que vem do mar, mas não são poucos. Um domingo de novembro ali neste ano não difere em nada de um domingo de novembro de 2019.

E se ainda há dúvidas se há necessidade de usar máscara na praia, o infectologista da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo João Prats explica. "O ideal é usar, mas não deixar molhar. Então leve mais de uma e troque", diz.

Caso você molhe o item de segurança ou esteja sem, o ideal é se manter a dois metros de distância de outras pessoas na areia.

Do lado de lá da divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, andar pelas ruas de pedra do centro histórico de Paraty durante aquela noite era como estar em uma “ilha de segurança” contra o novo coronavírus. Imaginária, claro.

Em volta da praça central, local que reúne bares e restaurantes, centenas de pessoas aglomeradas em mesas no meio da rua. Comemorações de aniversário, música ao vivo, grupo itinerante de samba, de tudo um pouco. Mais uma vez, as máscaras estão longe de ser uma unanimidade. Acompanhar as notícias sobre a pandemia e sentar em alguma daquelas mesas é exercício de autocontrole quase impossível de se levar à frente.

Em Guarujá, em meados de dezembro, as máscaras também se mantinham parcialmente longe da orla da praia. Nas areias, eram ainda mais raras. “No calçadão, uns 50% apenas usam. Na areia, uns 95% não usam”, diz o engenheiro Thiago Botani, 37, que, ao lado da mulher Erica Botani, 31, também engenheira, faz parte dos 5% que insistem em usar mesmo na areia.

“Uso o tempo todo, qualquer pessoa pode passar ao seu lado, espirrar e você vai estar contaminado”, diz. “Não dá para brincar.”

Nas festas de fim de ano, o governo de São Paulo decidiu mover todas as regiões do estado para a fase vermelha do plano de contenção da pandemia nos feriados de Natal e do Ano-Novo.

Com isso, comércio não essencial, serviços, restaurantes, bares, salões de beleza e eventos, entre outras atividades econômicas, deveriam permanecer fechados nos dias 25, 26 e 27 de dezembro e de 1 a 3 de janeiro. Mas não foi o que ocorreu.

No litoral de São Paulo, prefeituras resolveram não seguir a decisão do governo João Doria (PSDB) sobre o retrocesso à fase vermelha.

Na Baixada Santista, no feriado de Natal, as praias ficaram lotadas, sem distanciamento entre as pessoas e com uso de máscaras restrito à minoria dos banhistas.

Guarujá e Santos decidiram fechar as praias dias 31 e 1º para desestimular a chegada de turistas e, consequentemente, evitar aglomerações. Elas, porém, decidiram, também juntas, descartar o retorno à fase vermelha do Plano São Paulo, sob a alegação de falta de tempo para as prefeituras adequarem equipes e estruturas para o cumprimento das regras.

Guarujá foi uma delas. Thiago, dono de um apartamento na cidade, não concorda com a negativa do governo municipal. “Deveriam ter fechado tudo já no Natal. Mesmo que eu não pudesse ir à praia”, diz.

Em Caraguatatuba, no litoral norte, um decreto municipal da última quarta-feira (23) limitou o funcionamento de estabelecimentos comerciais por apenas 16 horas: das 20h do dia 31 às 12h do dia 1º de janeiro.

A decisão foi tomada após reunião da administração com associações do comércio, hotéis e pousadas, bares e restaurantes, shoppings e turismo.

Ubatuba também registrou praias lotadas durante o feriado prolongado.

De acordo com a prefeitura de Guarujá, o município , assim com fez nos dias 24 e 25, irá implantar barreiras sanitárias em 31 de dezembro e 1º de janeiro, com aferição de temperatura de todos os ocupantes dos veículos que tentarem entrar na cidade. Se constatada temperatura igual ou superior a 37,5 º C, a entrada não será autorizada.

A fiscalização do uso de máscaras na cidade, afirma a assessoria de comunicação de Guarujá, é feita em estabelecimentos comerciais. Pessoas físicas não são multadas. Lojas, bares e restaurantes, caso reincidam em ter funcionários ou clientes sem o item de segurança, sim.

A prefeitura de Ubatuba, por sua vez, afirma que tem conseguido vistoriar estabelecimentos comerciais e que, desde o decreto estadual, que estipula valor de multa, as normas sanitárias de uso de máscara dentro dos comércios estão sendo cumpridas, bem como horários de funcionamento, e não houve nenhuma atuação.

"Já nas ruas não há equipe suficiente que circule. A prioridade é fiscalizar os comércios e atender denúncias sobre comerciantes que não respeitam as normas. Infelizmente, a Vigilância nota que há muita gente sem máscara, mas não há pernas para fiscalizar, já que uma autuação teria que ser feita a partir de constatação no local e a equipe para isso é insuficiente", informa em nota.

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