Por que só a vacina não vai acabar com a pandemia de Covid-19

Estudo da Universidade Columbia mostra que, sem outras medidas, milhões ainda serão infectadas e adoecerão até mesmo depois de agosto

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Matthew Conlen Denise Lu James Glanz
The New York Times

A pandemia do coronavírus nos EUA ataca de modo tão descontrolado há tanto tempo que mesmo que milhões de pessoas sejam vacinadas outros milhões ainda serão infectadas e adoecerão, a menos que as pessoas continuem usando máscaras e mantenham as medidas de distanciamento social até a metade do verão (julho-agosto) ou mais tarde, segundo um novo modelo feito por cientistas da Universidade Columbia.

A chegada de vacinas altamente eficazes em dezembro aumentou a esperança de que elas acabem retardando ou contendo a disseminação da doença pelo resto da população. Mas só as vacinas não são suficientes, como mostra o modelo. E se precauções como trabalhar remotamente, limitar as viagens e usar máscara forem relaxadas muito cedo milhões de infecções e mais milhares de mortes poderão ocorrer.

Não há dúvida de que ser vacinado protege o receptor. Ainda assim, vários pesquisadores de doenças infecciosas contatados por The New York Times opinaram que levaria meses até que um número suficiente de pessoas nos EUA tenha sido imunizadas para permitir a retomada da vida normal.

Só então o número de pessoas imunizadas –as que tiveram a doença e se recuperaram, mais as que foram vacinadas– será grande o bastante para reduzir a força da pandemia, disse Jeffrey Shaman, epidemiologista em Columbia que compartilhou os cálculos de modelagem de sua equipe.

Shaman avalia que mais de 105 milhões de pessoas já foram infectadas nos EUA, muito acima do número de casos divulgados. E suas projeções mostram que milhões de infecções ainda vão ocorrer enquanto a vacina é aplicada.

Homem recebe a vacina de Covid-19 em drive-thru em Ridgefield, no estado de Washington (EUA) - Jason Redmond - 26.jan/France Presse

O distanciamento social, o uso de máscaras e outras medidas devem continuar em vigor até o final de julho, "e isso talvez seja otimismo", disse Shaman. De outro modo, é possível uma nova ressurgência do vírus.

"Algumas pessoas vão querer relaxar os controles que implementamos", disse o pesquisador. "Se começarmos a pensar 'Temos uma vacina, há uma luz no fim do túnel, poderemos parar daqui a alguns meses' –é cedo demais."

Os próximos meses serão críticos na corrida para reduzir as novas infecções e mortes, já que haverá menos pessoas para o vírus infectar enquanto a pandemia se prolongar.

Levantar as restrições no início de fevereiro, depois que a maioria dos profissionais de saúde e auxiliares em lares para idosos deverão estar imunizados, ainda significaria muito mais infecções em longo prazo do que manter as restrições até meados de março, por exemplo.

Mesmo com as atuais precauções, algumas áreas dos EUA deixaram a pandemia se alastrar de modo tão descontrolado que é tarde demais para que uma vacina tenha um grande impacto, disse Shaman. Seu grupo avalia que 60% da população de Dakota do Norte já foram infectados. As vacinas vão ajudar, mas a pandemia principalmente acabará por si só, com o menor número de pessoas disponíveis para infectar, disse ele.

Por outro lado, em Vermont, com uma taxa de infecções de aproximadamente 10%, a vacina poderia proteger quase toda a população se for aplicada rapidamente. A Califórnia está oscilando em algum ponto intermediário, com o surgimento de novos surtos.

O modelo leva em conta fatores como a velocidade e a ordem de distribuição da vacina, a eficácia do imunizante depois de uma e duas doses, as atuais medidas de distanciamento social e a transmissibilidade do vírus. Ele supõe que grupos como trabalhadores de saúde e pessoas idosas terão prioridade segundo as diretrizes do CDC, e a vacinação continuará em ritmo acelerado até atingir 5 milhões de doses por semana.

O grupo considerou cenários em que as atuais medidas de distanciamento foram atenuadas mais cedo ou mais tarde em relação à distribuição da vacina, e o que poderia acontecer se elas fossem reforçadas. A pesquisa foi financiada pela Pfizer, um dos fabricantes de vacinas, assim como pela Fundação Nacional de Ciência e a Fundação Morris-Singer.

Dos cenários examinados, aqueles em que as restrições foram reforçadas e estão mantidas até que a maior parte da população receba a vacina apresentaram os menores números totais de infecções.

Outros pesquisadores disseram concordar com as conclusões gerais de Shaman, apesar de o modelo envolver diversas aproximações e ainda não ter sido publicado ou submetido a revisão formal.

A descoberta "passa no teste", disse Trevor Bedford, geneticista no Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson e na Universidade de Washington. Ele disse que o ritmo da vacinação é uma incógnita que pode modificar as conclusões. O governo Biden disse que pretende acelerar a distribuição, mas essas afirmações ainda não foram testadas.

Bedford também advertiu que uma nova variante do vírus que surgiu recentemente no Reino Unido e que seria mais transmissível que outras que circulam nos EUA "poderia causar uma onda de primavera maior do que foi modelado aqui".

Lauren Ancel Meyers, professora de biologia e estatística na Universidade do Texas em Austin, disse que o raciocínio de Shaman "faz todo sentido intuitivo". Meyers disse concordar que os surtos descontrolados em muitos lugares em 2020 reduziram os benefícios da vacinação.

"Infelizmente, deixamos o vírus se espalhar extensamente e estamos lançando a campanha de vacinação no auge da ameaça", disse ela. "Quanto mais o vírus se espalhar antes que a vacina chegue às pessoas, menos mortes poderemos evitar com a vacina."

Ela acrescentou, entretanto, que os números de mortes poderão baixar antes que os de infecções, com a estratégia certa de vacinação, talvez permitindo que algumas partes do país deixem as restrições mais rapidamente do que se espera. Isso depende de os trabalhadores altamente expostos na linha de frente e os que correm maior risco de morte serem vacinados rapidamente, disse Meyers.

"Poderemos chegar ao ponto em que, mesmo que o vírus continue se disseminando, seja menos mortal no nível da população, e os políticos se sintam à vontade para relaxar algumas medidas que implementamos para proteger nossos sistemas de saúde e salvar vidas", afirmou.

De modo geral, as conclusões são provavelmente uma notícia negativa para milhões de pessoas que gostariam de voltar à vida normal, de frequentar bares e restaurantes assim que possível.

Os políticos que terão de estabelecer e às vezes implementar essas restrições em 2021 já estão cientes do longo trajeto que têm pela frente, disse a prefeita de Seattle, Jenny A. Durkan.

"Acho que a modelagem é absolutamente crível", disse Durkan. A prefeita disse que está preparando Seattle para continuar no distanciamento social "pelo menos durante o verão e provavelmente até o outono".

"É da natureza humana ter esperança", afirmou. "Acho que as pessoas pensaram que se houvesse a vacinação seria mais seguro voltar a se reunirem, e não é."

Vacinar as pessoas oferece proteção coletiva porque o vírus se dissemina de pessoa para pessoa. Se o vírus encontrar alguém que não pode pegar a doença, isso elimina um caminho para infectar outra pessoa.

Para simplificar, em seus modelos, Shaman supôs que nem os que se recuperaram da doença nem os que receberam a vacina podem desenvolvê-la ou retransmiti-la. Ele assumiu que a eficácia da vacina seja de 95% depois das duas doses disponíveis hoje.

Todos os modelos incluem certas aproximações, e Bruce Lee, professor de políticas de saúde e administração na Universidade City de Nova York, disse que os cientistas serão cautelosos ao usar os novos cálculos para determinar exatamente quando a doença deverá ceder. Lee disse que seu próprio modelo determinou que o vírus poderá cair a níveis muito mais baixos em julho.

Essa condição, às vezes chamada de "imunidade de rebanho", não significa que a doença foi erradicada, explicou Lee. "Atingir o limite da imunidade de rebanho significa que há efeitos protetores adicionais de as pessoas ao seu redor estarem imunes a uma coisa."

Pessoas suscetíveis ainda poderão contrair a doença depois que a imunidade de rebanho for alcançada, disse David Engelthaler, chefe da filial de doenças infecciosas no Instituto de Pesquisa Genômica Translacional, no Arizona. Os números de casos, porém, não estão mais crescendo exponencialmente, e poderão se manter relativamente constantes, disse ele.

"Você não vai eliminar essa coisa ao alcançar a imunidade de rebanho; núcleos e picos continuam ocorrendo", disse Engelthaler.

Mas, segundo ele, o crescimento inevitavelmente vai diminuir e parar –na sua opinião, um pouco antes do que alguns outros pesquisadores preveem. Ele disse que a combinação de imunização pelas vacinas e pela infecção poderá começar a conter a pandemia no final da primavera ou início do verão.

"Então poderemos começar a pensar na civilização normal de novo", disse.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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