Descrição de chapéu Coronavírus

Dez capitais do país têm UTIs com mais de 90% de ocupação

Em Porto Alegre e Porto Velho não há leitos livres para casos graves da Covid-19; em Curitiba, 265 pessoas aguardavam por vagas em UTIs

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Curitiba , Manaus , Belo Horizonte, Rio de Janeiro , Fortaleza , Ribeirão Preto, São Paulo e Brasília

Em um mês, aumentou a ocupação das UTIs para casos graves da Covid-19 no país. Se no começo de fevereiro havia oito capitais com mais de 80% de ocupação, hoje dez delas estão com 90% ou mais das suas UTIs com pacientes.

Após receberem pacientes de outros estados, como Amazonas e Rondônia, em janeiro e fevereiro, os três estados do Sul enfrentam agora escassez de vagas em UTI para Covid-19.

A situação mais crítica é a do Rio Grande do Sul, que nesta terça-feira (2) estava com mais de 100% dos leitos ocupados. Pacientes estão sendo atendidos em UTIs improvisadas que foram instaladas nos hospitais. Só em Porto Alegre, há 24 pessoas nessa situação.

“A situação é realmente dramática nesses últimos dias e o grau de contaminação assusta porque, há 15 dias, a situação estava praticamente sob controle, tanto que o governador trouxe pacientes de Manaus”, disse Antonio Kalil, diretor da Santa Casa de Porto Alegre.

Apesar do colapso no sistema, a secretaria estadual de Saúde afirma que ainda não há previsão de transferência de pacientes para outros locais.

“Leito de UTI não é cura, 60% das pessoas que vão para UTIs morrem. Mesmo que tivéssemos capacidade infinita de expansão dos leitos, e não temos, não significaria salvar todas as vidas. Não adianta só aumentar as UTIs, precisamos reduzir o contágio”, afirmou o governador Eduardo Leite (PSDB) em vídeo divulgado nas redes sociais nesta segunda-feira (1º).

Já o governo de Santa Catarina deve encaminhar ao Espírito Santo até 16 internados com Covid-19 ainda nesta terça-feira. O sistema estadual de saúde entrou em colapso, principalmente na região oeste, onde não há mais leitos sobrando.

Hospital Florianópolis que é referência da COVID-19 na cidade de Florianópolis, Santa Catarina tem todos seus leitos ocupados nesta segunda-feira, 1 de março; há outros leitos improvisados em outras salas - Eduardo Valente/iShoot/Agência O Globo

A taxa de ocupação de UTIs saltou de 73% para 94% em um mês, mesmo com a ampliação de leitos pelo governo catarinense. Em Florianópolis, só há oito vagas disponíveis nos oito hospitais que atendem pacientes com Covid-19 na cidade.

Em pouco mais de uma semana, ao menos 16 pessoas morreram no estado à espera de vagas em leitos especializados para tratamento da doença. A fila de espera era de 228 pacientes nesta segunda.

O Hospital Regional São Paulo, de Xanxerê, no oeste, não consegue mais atender pacientes que necessitem de ventilação mecânica ou suporte de oxigênio. A emergência está com 35 pessoas internadas, 20 delas intubadas, aguardando transferência para leitos de UTI.

“Não iremos viver uma catástrofe, já estamos nela. [...] Estamos com pacientes graves, acomodados em poltronas ou em espaços improvisados, pois já se esgotou toda a estrutura física para atendimento”, diz um comunicado emitido pela unidade nesta terça-feira.

Na nota, o hospital afirma ainda que vive uma situação “de guerra”, sem condições de contabilizar a quantidade de pacientes atendidos diariamente pelas equipes, e que um colapso está em curso. Ainda segundo a instituição, mesmo com os equipamentos recebidos recentemente, os funcionários estão esgotados e há falta de insumos e materiais.

“Estamos em um momento tão crítico que será melhor para o paciente ficar aguardando atendimento dentro de uma ambulância do que dentro dos espaços da unidade hospitalar. [...] É o caos. É o limite. [...] Alcançamos o máximo das nossas possibilidades. Vamos começar a perder vidas de muitos pacientes”, finaliza o comunicado.

Nesta terça, o governador Carlos Moisés (PSL) anunciou a abertura de 20 novas UTIs no Hospital Regional do Oeste, além dos 26 já pactuados na semana anterior. Foram confirmados ainda novos leitos clínicos para a unidade, chegando ao total de 50. Moisés afirmou também que publicará um edital para cotação de diárias de leitos de UTI na rede privada de hospitais.

No Paraná, mesmo com o acréscimo de 142 leitos no último mês, a taxa de ocupação saltou de 80% para 91%. Em Curitiba, só 5% das UTIs estão disponíveis, o que representa 19 vagas. Há filas de espera por leitos em todas as regiões do estado. Nesta terça, 265 pessoas aguardavam por vagas em UTIs e 434 por leitos clínicos.

Em Porto Velho, não há nenhum leito disponível. Há um mês a ocupação é de 100% de ocupação. No último domingo, 56 pessoas aguardavam vagas em UTIs exclusivas para Covid-19 nos hospitais de Rondônia.

Nem mesmo o incremento de 33 leitos nos últimos 30 dias aliviou a pressão no sistema de saúde da cidade. O governo tem contratado leitos em unidades privadas, mas também não há mais vagas.

"Recado para você que está fazendo aglomeração, festinha, bebedeira: nós não temos leito de UTI pra sua mãe, para o seu pai, para o seu filho, sua namorada. Não temos leito de UTI para você. Essas cepas novas são mais contagiosas e pessoas mais jovens estão morrendo", disse o secretário de Saúde de Rondônia, Fernando Máximo, por meio de redes sociais no fim da semana passada.

Em Rio Branco, mesmo com a abertura de 25 leitos em um mês, a situação é crítica: 92,5% das UTIs para Covid-19 estão ocupadas. Em todo o estado, a porcentagem é de 91,5%.

Na segunda-feira, o governo proibiu o funcionamento do comércio, incluindo restaurantes e bares, aos finais de semana e feriados. ​No mesmo dia, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), recebeu diagnóstico positivo para Covid-19.

No Nordeste, é crítica a situação em Teresina, com 95% das UTIs lotadas. O governador Wellington Dias (PT) foi a Brasília nesta terça visitar a farmacêutica que pretende produzir a vacina russa Sputinik V. "Estamos pedindo à Anvisa o pedido de registro definitivo, para que tenhamos essa liberação."

Na região metropolitana de Natal, a taxa de ocupação é de 92,8%. No fim de semana, entrou em vigor o decreto estadual determinando toque de recolher entre as 22h e as 5h, proibindo a circulação de pessoas nas ruas.

O Rio Grande do Norte fez remoções de pacientes da região metropolitana para leitos no interior, mas o secretário diz que a capacidade já foi esgotada.

Em Pernambuco, cuja capital têm 92% de leitos ocupados, o governo tem transformado alas de UTI clínicas de hospitais em alas para pacientes com Covid para tentar evitar o colapso.

No Centro-Oeste, Goiânia teve aumento na ocupação de UTI, hoje em 92%. O estado deve abrir nas próximas semanas um hospital na região norte, com 200 leitos.

No Distrito Federal, a taxa de ocupação de leitos é de 93%. Dos disponibilizados, somente 27 estão vagos.

Além disso, sete estão bloqueados —isso ocorre por fatores como manutenção, desinfecção por troca de pacientes ou ausência do paciente momentaneamente para realização de exames.

Por conta da alta taxa de ocupação de leitos, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), ​decretou medidas restritivas na sexta (26). Até o dia 15 de março, todas as atividades comerciais estão suspensas, exceto os serviços essenciais.

Outras 11 capitais preocupam, com taxas de ocupação entre 80% e 90%. São os casos de Rio de Janeiro, Manaus, Campo Grande, Palmas, Fortaleza, João Pessoa, Belém, Cuiabá, Belo Horizonte, Salvador e Boa Vista.

No Rio, embora o estado não esteja em situação de colapso, a capital atingiu taxa de 89% nesta segunda, mesmo com as promessas do prefeito Eduardo Paes (DEM) de reabrir leitos.

Ainda assim, na contramão de outras capitais e estados, o Rio não fez proibições nem restringiu horários de atividades não essenciais. O último decreto do governador em exercício, Cláudio Castro (PSC), permite shows, festivais, casamentos e outras festas.

No estado de São Paulo, dos cerca de 9.200 leitos para UTI destinada a pacientes com Covid-19, 73,2% permaneciam ocupados até 1º de março. O índice é 5,2% superior em relação à mesma data de fevereiro, quando registrou 68% de ocupação.

Na capital paulista, 1.748 pacientes estavam internados em UTIs, com taxa de ocupação também em 68%.

Wallace Casaca, coordenador da plataforma SP Covid-19 Info Tracker, criada por pesquisadores da USP e da Unesp com apoio da Fapesp para acompanhar a evolução da pandemia, considera que a situação é crítica e caminha para uma tragédia.

“O crescimento da curva de internações está em ritmo acelerado. Em questão de 11 dias o sistema de saúde paulista pode colapsar se não for implementada nenhuma restrição mais rigorosa e contundente em nível estadual. Pode não haver leitos e pessoal especializado na linha de frente do combate à Covid-19”, afirma Casaca.

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