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Nove países europeus suspendem uso de vacina de Oxford

Autoridades de saúde dizem que medida é preventiva, para checar efeito colateral; agência ressalta que taxa de problemas não supera a da população em geral

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Bruxelas

Nove países europeus —Itália, Dinamarca, Noruega, Islândia, Áustria, Estônia, Lituânia, Letônia e Luxemburgo— suspenderam temporariamente a aplicação de vacinas contra Covid-19 fabricadas pela AstraZeneca para se certificarem de que elas não têm ligação com efeitos colaterais mais graves.

No caso da Dinamarca, a suspensão por duas semanas vale para imunizantes da AstraZeneca em geral e foi determinada depois que coágulos sanguíneos provocaram a morte de uma pessoa vacinada. Nos outros países, foi interrompido o uso de um lote específico, também após óbito por trombose de uma mulher imunizada na Áustria e de dois homens na Sicília.

Segundo a autoridade de saúde dinamarquesa, não se pode concluir ainda se existe ligação entre a vacina e os coágulos. Mas, por causa do alerta do sistema de saúde, o órgão e a agência regulatória de medicamentos farão uma reavaliação do imunizante, ao lado da agência regulatória da UE (EMA).

A agência europeia afirmou que, desde o início da vacinação, foram registrados 22 casos de trombose em mais de 3 milhões de pessoas vacinadas nos 30 países do Espaço Econômico Europeu (que compreende a UE, a Noruega, a Islândia e Lichtenstein). O número de "eventos tromboembólicos em pessoas vacinadas não é superior ao observado na população em geral", acrescentou.

Enfermeira segura seringa e ampola de vacina da AstraZeneca
Enfermeira segura seringa e ampola de vacina da AstraZeneca, cujo uso foi suspenso temporariamente pela Dinamarca - Miguel Medina - 9.mar.2021/AFP


A AstraZeneca afirmou que segurança é prioridade da empresa e que os ensaios clínicos não revelaram efeitos colaterais graves: "Os reguladores têm padrões claros e rigorosos de eficácia e segurança para a aprovação de qualquer novo medicamento, e isso inclui a vacina contra Covid-19”.

Peter English, presidente do comitê de medicina de saúde pública da Associação Britânica de Medicina, afirmou que não é incomum que a introdução de uma nova vacina seja interrompida por relatos de eventos adversos.

"É um sinal de que os sistemas de monitoramento de reações adversas estão funcionando; mas, em geral, não indica que as reações estejam sendo causadas pelas vacinas", afirmou. Segundo ele, além de estudos que tentem entender uma relação causal, um dos aspectos mais importantes é comparar a incidência de casos com a que ocorre na população em geral.

Embora os especialistas e os próprios governos afirmem não ter evidência de que as mortes tenham sido causadas pelo imunizante, as suspensões são mais um obstáculo na campanha de vacinação europeia, afetada por quebra no fornecimento dos três produtos já aprovados até agora —AstraZeneca, Pfizer/BioNtech e Moderna— e pela decisão inicial de mais de dez membros da UE de não recomendar o imunizante da AstraZeneca para idosos.

Parte deles já reverteu essa restrição, mas a insegurança criada também reduziu a velocidade da imunização em vários países.

A Dinamarca era um dos países mais avançados da UE na vacinação, com cerca de 15 doses aplicadas por 100 habitantes. A vacina da AstraZeneca responde por 18% das 768.890 doses recebidas pelo país até esta quinta e, das 139 mil doses desse fabricante, 132 mil (95%) já haviam sido aplicadas.

A suspensão desta quinta deve atrasar o calendário: segundo cálculos iniciais, no pior dos cenários, a população adulta deve estar imunizada em meados de agosto e não mais no começo de julho. Quem tinha vacinação marcada com o produto da AstraZeneca, para primeira ou segunda dose, terá que aguardar ao menos duas semanas.

Na Áustria, a interrupção atingiu o lote específico do qual foram extraídas doses aplicadas em duas pessoas que desenvolveram coágulos. Uma enfermeira de 49 anos morreu dez dias após tomar a primeira dose —de acordo com o governo austríaco, não é possível afirmar que o imunizante tenha causado a morte.

Outra pessoa de 35 anos, que recebeu uma injeção do mesmo lote, foi hospitalizada com um coágulo sanguíneo no pulmão, mas estava se recuperando, segundo o Escritório Federal Austríaco para Segurança em Saúde.

Com um total de 1 milhão de doses, o lote foi distribuído a 17 membros da UE, entre eles Itália, Estônia, Lituânia, Letônia e Luxemburgo, que também interromperam seu uso.

A EMA está avaliando o lote em questão, mas afirmou que uma investigação preliminar não encontrou ligação entre a vacina AstraZeneca e a morte na Áustria e que tromboses não estão listadas entre os efeitos colaterais do produto.

Segundo o professor de farmacoepidemiologia da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres Stephen Evans, problemas em um lote de imunizantes são muito raros e quase sempre estão relacionados à contaminação por bactérias ou partículas físicas (por exemplo, vidro) detectadas pelo fabricante.

"Como afirma a EMA, uma visão preliminar não sugere nenhum problema específico com o lote usado na Áustria e na Itália. Não se sabe se existem razões não científicas para as ações tomadas por alguns países", afirmou ele.

Nesta quinta, após a decisão da Dinamarca, a Noruega e a Islândia também interromperam a aplicação de vacinas da AstraZeneca por duas semanas.

Segundo Jon Gibbins, diretor do Instituto de Pesquisa Cardiovascular e Metabólica da Universidade de Reading (Reino Unido), "é importante ressaltar que a própria infecção grave por Covid-19 pode causar coágulos sanguíneos prejudiciais e, portanto, pode ser que as pessoas corram mais risco de terem uma trombose por não serem imunizadas".

"Precisamos ver os dados detalhados para avaliar isso adequadamente, mas neste ponto também precisamos ter cuidado para não causar pânico injustificado ou resistência à vacinação”, afirmou.

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