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Fase de transição pode desacelerar melhora em índices e é difícil de controlar, dizem especialistas

Governo de SP justificou flexibilização ao dizer que evita que algumas regiões avancem para a fase laranja

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São Paulo

A flexibilização da fase vermelha criada pela gestão João Doria (PSDB) pode colocar afetar o ritmo da melhora nos índices de coronavírus e é mais difícil de controlar, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

O governo afirma que, ao criar mais um tom nas fases, entre o vermelho e o laranja, evita que algumas regiões já avancem de vez para a fase laranja. No entanto, a permissão para realização de cultos e academias é vista como injustificada.

Com a criação da fase de transição, os comércios podem ser reabertos a partir de domingo (18), das 11h às 19h, e os cultos poderão voltar a ser realizados. A partir do dia 24, é a vez de todo o setor de serviços, incluindo restaurantes, salões de beleza e academias.

Para justificar as medidas, o governo apresentou dados mostrando melhora nos índices. A taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid está em 85%, enquanto os internados caíram 10% desde 1º de abril.

"Poderia dar essas duas semanas com um plano mais rígido, até para a gente ter uma tranquilidade maior de leitos de terapia intensiva para o estado todo, uma média para o estado todo abaixo de 80% daria mais tranquilidade numa descida mais gradual", disse o infectologista Julio Croda, da Fiocruz.

Ele admite, porém, que algumas regiões, como a Grande São Paulo, ficariam abaixo de 80% de ocupação. "É um meio termo que não seria o ideal, que seria manter pelo menos uma semana de fase vermelha, e intermediária em relação à fase laranja", diz.

Em janeiro, o governo emitiu nota técnica que a fase laranja deveria ser adotada quando as UTIs ficassem abaixo de 75%, em vez de 80%.

Entre as diferenças da fase de transição para a laranja estão o toque de recolher entre 20h e 5h, teletrabalho para atividades administrativas não essenciais, escalonamento de horários de entrada e a ocupação dos estabelecimentos em apenas 25% (em vez de 40%). Além disso, por enquanto, não há regionalização das medidas, que permanecem valendo para todo o estado.

Croda afirma considerar, porém, que duas das flexibilizações poderiam ser evitadas. "A abertura de igrejas está prevista. Não tem necessidade nenhuma, igreja é um local que está muito associado com surto de Covid-19. Academia também não tem sentido, não é serviço essencial ou que impacte muito na economia da cidade como comércio. É desnecessária abrir num momento que você ainda não tem ainda uma tranquilidade em termos de terapia intensiva."

Para ele, ao haver a reabertura, há um risco de não se ter uma queda da dimensão que se espera para uma futura retomada no futuro.

"É um risco de não ter uma queda tão abrupta como a gente gostaria, porque quanto mais atividades são retomadas mais rapidamente maior a chance dessa queda que estava se iniciando de uma forma bastante expressiva nos últimos dias no termo de ocupação [de UTIs] seja amenizada, o ritmo da queda seja menor. E isso preocupa, pois a gente precisa de uma queda muito rápida para que a gente possa programar com mais tranquilidade a volta das atividades", disse.

Marcio Bittencourt, médico do centro de pesquisas clínicas e epidemiológicas do hospital universitário da USP, diz não ver problema na criação de novas fases que não estavam previstas no Plano São Paulo. "Ajustar características de fases que façam sentido para otimizar o benefício epidemiológica e eventualmente ajustar a fase econômica não vejo problema nenhum. A pergunta é se a gente está num nível suficientemente seguro para reabrir", diz Bittencourt.

Segundo ele, a resposta depende do controle na reabertura em ambientes como bares, restaurantes e comércio. "O problema é a implementação. A gente ainda está numa fase de transmissão muito intensa, de uma quantidade de casos muito grande, com número de pessoas internadas muito grande. Se a gente consegue flexibilizar alguma coisa mantendo o controle, depende de como se implementar. Tenho dúvidas se é possível implementar de forma adequada", diz.

O epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP Eliseu Alves Waldman vê dificuldade na adesão às medidas de restrição devido à falta de uma política única no país.

"Nos últimos dias a mortalidade e a identificação de casos está em patamares bem altos, mas estáveis mais ou menos nos últimos dez dias. E as internações caíram. Agora, em termos ideais, na minha opinião não seria o momento de flexibilizar, mas por outro lado, como estamos há mais de um ano enfrentando a pandemia, com um impacto muito grande na pandemia, no emprego, como não temos no país uma política única, tem vários discursos, é muito difícil você conseguir uma razoável adesão a medidas mais drásticas", diz.

Segundo ele, é possível tentar cuidadosamente equilibrar a situação. "Não é o ideal, talvez seja o politicamente possível", diz.

Para Waldman, fica aberta a brecha para o estado viver outro pico. "Se continuar nessa toada, a gente vai diminuir um pouco, como aparentemente está diminuindo, mas vai ficar em patamares muito elevados, e em maio ou junho, no inverno, que tuda indica que esse vírus adquiriu uma sazonalidade, mostra isso no hemisfério norte, vai ter outro pico."

A secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, sustentou nesta sexta que a transição ainda tem muitos pontos da fase vermelha. O principal delas, diz, é o toque de recolher.

João Gabbardo, também do centro de contingência, afirmou que algumas regiões poderiam evoluir para a fase laranja se o período emergencial não fosse adotado. "O governo entendeu que essa passagem para a fase laranja tinha um risco maior. Optou-se por fazer essa fase de transição e que todo o estado continua com uma uniformidade de recomendações, o que facilita o controle, facilita para que as pessoas não saiam de uma região para buscar um serviço que está aberto em outra região."

Para membros do comitê, a decisão foi uma forma de tentar adequar às exigências do "mundo real", incluindo a questão econômica, mas com segurança.

O secretário da Saúde, Jean Gorinchteyn, citou a redução de internados. "Nossa taxa de ocupação no estado de São Paulo em 85,3% e na Grande São Paulo 83,3%. Esses números eram de quase 93% há poucos dias, mostrando que tanto a fase vermelha quanto a fase emergencial foram fundamentais para que nós pudéssemos garantir a assistência e proteção à vida", disse.

Desde o dia 1º de abril, a quantidade de pessoas internadas caiu 10% de 13.074 pessoas para 11.756.

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