Descrição de chapéu Coronavírus

Ministério diz constatar risco maior de variante do coronavírus em gestantes e recomenda adiar gravidez

No entanto, fala de secretário sobre gravidade maior das variantes do coronavírus em gestantes não encontra respaldo científico

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Brasília e São Paulo

O secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Câmara, afirmou nesta sexta (16) que as variantes do coronavírus no Brasil têm se mostrado mais agressivas em grávidas e que a pasta recomenda postergar a gravidez nesse período crítico da pandemia.

Câmara, porém, não especificou a quais variantes se referia nem mostrou pesquisas que comprovem que as novas variantes sejam mais agressivas especialmente nesse público. Ele disse que o ministério já está trabalhando para realizar esses estudos.

“Estudo nacional ou internacional não temos, mas a visão clínica de especialistas mostra que a variante nova tem ação mais agressiva nas grávidas. Antes, [a gravidade] estava ligada ao final da gravidez, mas, agora, vê-se uma evolução mais grave no segundo trimestre e até no primeiro trimestre.”

Reportagem publicada nesta semana pela Folha mostra um salto nas mortes maternas por Covid neste ano, mas aponta como principal fator a falta de assistência adequada, como acesso a UTI e ao procedimento de intubação. Desde o início da pandemia, uma em cada cinco gestantes e puérperas (22,6%) mortas por Covid não teve acesso à UTI e 1 em cada 3 não foi intubada.

Câmara disse que a recomendação é para que as mulheres avaliem postergar a gestação no período de pico pandêmico, como aconteceu no período da epidemia da zika no Brasil. “Caso possível, postergar um pouco a gravidez para um melhor momento para que você possa ter a gravidez mais tranquila. É lógico que a gente não pode falar isso para quem tem 42, 43 anos, mas para uma mulher jovem que pode esperar um pouco, o mais indicado é esperar um pouco.”

A falta de conhecimento sobre uma maior gravidade ou letalidade da Covid-19 confirmados com as novas variantes do vírus, principalmente em grávidas, e a ausência de sequenciamento genético de todos os casos infectados não permitem confirmar a fala de Câmara.

Embora haja um progresso constante para melhorar o sequenciamento genético no Brasil, só cerca de 0,03% das amostras do vírus são sequenciadas.

Além disso, a maior presença das gestantes e puérperas em hospitais com síndrome respiratória, confirmada por Covid ou não, pode estar associada a uma maior incidência geral da doença na população como um todo nesta segunda onda.

Um artigo publicado em fevereiro na revista Jama (Journal of the American Medical Association) cita estudo realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o CDC, no qual foram avaliadas mais de 450 mil mulheres em idade reprodutiva com Covid-19 sintomática. O maior risco de hospitalização e morte por Covid em gestantes foi confirmado.

A pesquisa não fala sobre risco maior das variantes, mas faz um alerta para o fato de que o atraso na vacinação, em um contexto de surgimento de novas cepas, pode ser possivelmente perigoso para as mulheres grávidas.

Embora o conhecimento científico sobre a Covid-19 seja produzido a cada minuto, não há nenhuma evidência já estabelecida de maior letalidade das novas variantes.

Não há dados sobre letalidade para cinco das seis variantes. A única delas com dados descritos de letalidade é a britânica, que foi avaliada em um estudo feito por epidemiologistas britânicos como 64% mais letal. No entanto, uma pesquisa publicada na última segunda-feira (12) na revista The Lancet não encontrou associação dessa variante com maior taxa de hospitalização ou morte por Covid-19.

No Brasil, as variantes P.1 e P.2 predominam na população em diversos estados, onde conseguiram se espalhar de maneira mais rápida que a linhagem ancestral. Após o colapso em Manaus em janeiro, a P.1 foi associada a uma maior transmissibilidade, o que foi confirmado em um estudo recente na Science.

A mesma variante consegue escapar da proteção dada por anticorpos que se formam após a infecção pela forma original do vírus, mas não há ainda uma relação clara da P.1 com maior letalidade. Isso porque, em muitos lugares onde ela se espalhou rapidamente, como a própria cidade de Manaus, e em Araraquara, no interior do estado de São Paulo, o sistema de saúde colapsou com a alta expressiva de novas internações. Com mais pessoas necessitando atendimento médico, houve escassez de oxigênio e, consequentemente, mais mortes.

Assim, não é possível estabelecer que a variante é mais letal ou causa infecção mais grave, mas ela, em conjunto com um sistema de saúde sob estresse e em uma população previamente infectada com a forma ancestral do vírus, que não garantia imunidade natural, gerou um problema de saúde agravado.

Câmara anunciou também nesta sexta (16) uma portaria que destina R$ 247 milhões para apoiar estados e municípios para implementação de medidas para apoiar gestantes.

A quantia pode ser utilizada para hospedagem de gestantes e puérperas que não possuem condições de isolamento domiciliar e para reforçar a atuação das equipes de atenção primária para fazer a identificação precoce e monitorar gestantes com suspeita ou com casos confirmados de Covid-19.

O secretário disse ainda que vacina contra a Covid-19 já é recomendada em grávidas e puérperas com fatores de risco, segundo uma nota técnica divulgada pela pasta. No entanto, a pasta está estudando ampliar para todas as gestantes.

“Especialistas do Brasil pedem com bastante força que todas entrem. Nós estamos em tratativas avançadas, mas é importante lembrar que a gestação é um período trombótico. A gente tem que ter muito cuidado porque algumas vacinas, mesmo de forma muito rara, têm mostrado efeito colateral nesse sentido. Qualquer recomendação tem que ser feita com muito cuidado, muita técnica para não errar.”

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