De olho na Copa, Arábia Saudita compra vagas em times da Espanha

País fecha acordo e coloca nove jogadores da seleção em times da elite espanhola

Jogador da Arábia Saudita Salem Al-Dawsari em primeiro treino na equipe do Villareal, que disputa o Espanhol
Primeiro treino do jogador da Arábia Saudita Salem Al-Dawsari na equipe do Villareal, que disputa o Espanhol - Maria Jose Segovia/NurPhoto/AFP
James Montague
New York Times

Depois que o site travou, mas antes que o falcão chegasse, Salem Al-Dawsari foi apresentado por seu novo time.

Dentro do Estádio de la Cerámica, a casa amarela do time espanhol Villareal, algumas dezenas de jornalistas tinham chegado para ver Dawsari, um meio-campo que se tornou uma espécie de curiosidade na mídia espanhola. Ele é um dos primeiros jogadores da Arábia Saudita contratados por um clube da Liga, a primeira divisão da Espanha.

Mas isso era só uma parte da história. O acerto que trouxe Dawsari, 26, a esta cidade de 50 mil habitantes, perto da costa leste da Espanha, era apenas uma parte de outro maior e mais polêmico. Nove jogadores sauditas foram emprestados a times espanhóis durante a janela de transferência em janeiro como parte de um acordo de marketing e licenciamento de vários anos entre a federação saudita de futebol e a Liga.

O objetivo em longo prazo, segundo as partes, é desenvolver e promover o futebol; o mais urgente é melhorar o padrão da seleção nacional saudita antes da Copa do Mundo da Rússia.

Pouco se sabia na Espanha sobre Dawsari quando sua transferência foi anunciada, mas seu novo clube logo descobriu que ele é uma espécie de astro em seu antigo time, o Al Hilal, atual campeão saudita. Centenas de milhares de sauditas loucos por futebol acessaram o site do Villareal para assistir à transmissão ao vivo da entrevista coletiva de apresentação de Dawsari, o que causou a queda do servidor do site.

"Eu sonhava em jogar na Espanha num clube grande como o Villareal", disse Dawsari quando o site foi reparado e o tráfego foi desviado para o YouTube.

Pouco depois, Dawsari tirou fotos com o falcão do clube, dada a popularidade da falcoaria na sociedade saudita.

O tratador da ave, porém, ficou um pouco confuso. Ele e o falcão tinham vindo ao estádio para caçar ratos. Mas ele não contou nada. Ninguém queria estragar o momento.

Em outubro, a Autoridade Geral de Esportes, órgão do governo que dirige os esportes na Arábia Saudita, e a federação local de futebol anunciaram uma novidade. Mandariam para o exterior seus atletas, já que quase todos jogam no país. Um acordo fortemente subsidiado foi assinado com a Liga, que organiza o campeonato nacional, abrindo caminho para que os melhores jogadores sauditas fossem emprestados a times espanhóis antes da Copa.

Não será a primeira participação da Arábia Saudita no Mundial. Em 1994, se tornou o primeiro país do Oriente Médio a chegar às oitavas.

Na Rússia, o time estreia em junho, na partida inicial contra a anfitriã, no Estádio Luzhniki em Moscou. E quer evitar a todo custo uma repetição da estreia do time na Copa de 2002, com uma derrota de 8 a 0 para a Alemanha.

Para decidir quais jogadores sauditas seriam enviados à Espanha, a Liga convidou olheiros das duas ligas principais da Espanha para assistir a dois amistosos internacionais com jogadores sauditas em outubro em Portugal. Dezesseis dos 20 clubes da Liga mandaram olheiros, mas não os dois maiores times, Barcelona e Real Madrid, os mais seguidos no Golfo. Mais tarde, outra equipe de olheiros espanhóis viajou a Riad para ver a liga profissional saudita em ação.

Os clubes espanhóis receberiam os jogadores de graça, e só lhes pagariam o salário mínimo obrigatório da Liga. A Arábia Saudita ficaria com a conta do resto de seus salários, assim como a dos treinadores espanhóis que mais tarde viajariam a Jedá para ajudar a montar uma escola de futebol. Também haveria uma taxa comercial, não divulgada, mas que ficaria na casa dos milhões de dólares --e não as dezenas de milhões que foram comentadas--, mas sem a exigência de que os clubes espanhóis pusessem os jogadores em ação.

Mais importante, segundo Fernando Sanz, um ex-jogador do Real Madrid e do Málaga que supervisiona o Oriente Médio e a África do Norte para a Liga, foi uma oportunidade para alguns clubes menores espanhóis ganharem nome.

"Para clubes como Leganés e Levante, que não são muito conhecidos no mundo, eles têm uma grande oportunidade de entrar em um grande mercado como o saudita", disse ele. Poderão surgir acordos comerciais com patrocinadores sauditas, sugeriu Sanz.

Nem todo mundo está tão feliz quanto Sanz. O jornal "Marca", com sede em Madri, anunciou o acordo saudita na capa, com o título "Petrodólares e La Liga". O sindicato dos jogadores espanhóis divulgou um comunicado criticando o acerto por colocar os lucros antes do talento.

"Esses acordos podem se tornar globais e os lugares nos times ser leiloados em troca de patrocínios", afirmou o sindicato. "O que deveríamos perguntar é: 'Esses jogadores teriam vindo à Espanha se não tivessem patrocínio? Os clubes os teriam contratado?'".

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

The New York Times
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