Descrição de chapéu Copa do Mundo

Conflito com Rússia deixa Ucrânia perto de 'apagão' para transmissão da Copa

Exibição de jogos no país foi confirmada em cima da hora, após recusa de estatal

Homem armado com roupa de exército brinca com bola
Soldados ucranianos jogam futebol em estrada da cidade de Svitlodarsk, perto de Donbass, região onde há conflito com os russos  - Volodymyr Shuvayev - 15.fev.15/AFP
Fábio Aleixo
Moscou

​Vizinha da Rússia, mas em crise diplomática com o país desde 2014 por causa da disputa da Crimeia e do conflito de Donbass, a Ucrânia quase ficou sem transmissão da Copa do Mundo pela TV.

Somente a duas semanas do início do torneio houve a confirmação de que as 64 partidas serão mostradas. A Ucrânia não se classificou para o Mundial deste ano.

O time acabou em terceiro em seu grupo das eliminatórias europeias, que tinha Islândia e Croácia, duas seleções que disputarão a Copa.

De última hora, o canal Inter, cuja linha editorial é favorável ao governo de Vladimir Putin, acertou a compra dos direitos da competição. Exibirá os jogos junto com o NTN, canal que controla.

Originalmente, os direitos na Ucrânia para televisão, rádio e internet pertenciam à emissora estatal Companhia Pública Nacional de Transmissão da Ucrânia. Haviam sido adquiridos em 2013, antes da crise entre os países.

Em fevereiro deste ano, porém, o presidente do canal, Zurab Alasania, disse que não faria sentido transmitir jogos sem a presença da seleção local e sediados em um país que hoje é considerado inimigo.

Investimos muito dinheiro para a compra dos direitos. É uma decisão difícil, mas não exibiremos o torneio, afirmou à agência russa Tass.

Em dezembro, o sorteio dos grupos para a Copa também não foi exibido pela emissora.

A partir daí, a EBU (União das Emissoras Europeias), responsável por licenciar os direitos de mídia na Ucrânia para a Copa, precisou procurar uma nova parceira. Encontrou no canal Inter.

A bronca de muitos ucranianos com a Rússia é tamanha que o deputado Oleg Liashko, do Partido Radical, propôs uma lei para impedir a transmissão do Mundial em qualquer mídia. Até agora, o projeto não obteve o número suficiente de assinaturas para ser colocado em votação. Uma nova tentativa deve ser feita nesta semana.

A transmissão da Copa do Mundo viola os direitos legítimos e os interesses dos cidadãos ucranianos, diz trecho da proposta de Liashko.

Procurada, a Fifa informou à reportagem que existem jornalistas ucranianos credenciados para a cobertura do torneio e outros em fase final de credenciamento. Alguns jornalistas ucranianos nos contataram e receberam seus logins para credenciamento. Mas não podemos ser mais específicos, disse a entidade.

Em março, em entrevista à Folha, o diretor-executivo do COL (Comitê Organizador Local), Alexei Sorokin, afirmou que não haveria nenhum impedimento para o trabalho de jornalistas ucranianos e que eles não correm riscos ao visitar a Rússia. 

Por que eles teriam problemas aqui? A Rússia garantirá a segurança de jornalistas ucranianos, assim como de repórteres de todos os países. Não há como fazer segurança discriminando por raça ou etnias, disse o dirigente.

Homem com roupa de exército chuta bola em estrada de terra
Soldado ucraniano chuta bola em estrada próxima a cidade em conflito com os russos - Volodymyr Shuvayev - 15.fev.15/AFP


Em maio, o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia recomendou que cidadãos do país não viajem à Rússia para a Copa. Entretanto 5.000 ingressos foram adquiridos por ucranianos, segundo a Fifa.

Se torcedores usarem símbolos nacionalistas ucranianos, talvez tenham que se preocupar com algo. Caso contrário, será tranquilo. Imagino que pessoas que são totalmente contra a Rússia não vão viajar para a Copa, disse o jornalista ucraniano Igor Boiko, do site Sportarena.

Para ele, a aquisição dos direitos pelo Inter reforça polêmicas em que o canal esteve envolvido nos últimos anos.

Não existe canal mais a favor da Rússia do que este em nosso país. Muitos acreditam que ele já deveria ter sido fechado, afirmou.

Cobrindo 99,7% do território ucraniano, o Inter transmite muitos seriados e programas de origem russa. Em 2015, foi duramente criticado por exibir um especial de Ano Novo com diversos astros russos que aprovaram a anexação da Crimeia.

Em setembro de 2016, a emissora foi atacada e bloqueada por três dias por voluntários de uma força especial da polícia ucraniana. Eles criticavam o canal pela suas posições e exigiam seu fechamento, o que não aconteceu.

Europa proíbe jogos entre times e seleções de Rússia e Ucrânia

O futebol sente há meses os efeitos da crise diplomática entre Rússia e Ucrânia.

Nas competições europeias, as equipes dos países e suas seleções nacionais estão proibidas de se enfrentar.

Para garantir isso, a Uefa tem dirigido os sorteios de confrontos, e não há data para o fim do bloqueio. O mesmo acontece, por exemplo, com as equipes de Armênia e Azerbaijão, países que travaram guerra nos anos 1980 e 1990.

A Federação Ucraniana negou ingressos a que teria direito para a Copa, mesmo sem disputá-la, e não mandará representantes para o Congresso da Fifa, em 13 de junho, que definirá a sede do Mundial de 2026.

Em outras modalidades, desde março, atletas ucraniano não contam com o apoio do governo para participar de competições na Rússia.

A reportagem tentou entrar em contato com pessoas responsáveis pelo canal Inter, mas não obteve resposta. São 219 os países e territórios que verão ao vivo a Copa da Rússia, número que ainda pode crescer até 14 de junho.

Relação de Rússia e Ucrânia está abalada desde 2014

Em 2014, conflitos violentos em Kiev resultaram na derrubada do presidente da Ucrânia Viktor Yanukovitch (pró-Kremlin).

Em seguida, os russos anexaram a Crimeia, seu antigo território que fora cedido à Ucrânia em 1954.

A reabsorção, aprovada em plebiscito, levou a sanções ocidentais contra a Rússia, mas se tornou fato consumado.

Já a guerra em Donbass, em curso, envolve forças ucranianas e separatistas pró-Rússia, que Kiev acusa de serem financiadas por Moscou

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