Quase invencível, maior astro do judô se poupa por Olimpíada em casa

Invicto desde 2010, francês Teddy Riner mira despedida nos Jogos de Paris-2024

Lucas Neves
Paris

Teddy Riner, 29, tem fome. Maior campeão mundial da história do judô, com dez títulos, o francês, porém, resolveu deixar seus 2,05 m e 140 kg fora do tatame da edição deste ano da principal competição internacional da modalidade, atualmente em disputa em Baku, no Azerbaijão.

A categoria dele, dos pesos-pesados (acima de 100 kg), é disputada nesta quarta (26). Riner por enquanto prefere aguçar o apetite de medalhas para a Olimpíada de 2020, em Tóquio, onde tentará conquistar o terceiro ouro nos Jogos.

"Faz anos que estou no circuito [ganhou o primeiro Mundial profissional em 2007, no Brasil, aos 18 anos]. Quero continuar sendo guloso. Para isso, preciso ser inteligente", diz à Folha por telefone, direto da maternidade onde sua mulher acaba de dar à luz a primeira filha do casal, que já tem um menino.

"E ser inteligente é abstrair desse Mundial para me preparar melhor para o Japão, me fazer esquecer um pouco", afirma o judoca.

Teddy Riner celebra a medalha de ouro conquistada na Olimpíada do Rio, em 2016, seu segundo ouro olímpico
Teddy Riner celebra a medalha de ouro conquistada na Olimpíada do Rio, em 2016, seu segundo ouro olímpico - Murad Sezer/Reuters

Fora dos tatames desde novembro de 2017, quando obteve o seu décimo título em campeonatos mundiais (dois deles são na categoria absoluto, que não está no programa olímpico), ele mantém hoje rotina mais suave de treinos.

O foco é cuidar das suas lesões e dores (tem artrose nos ombros e nos joelhos) e recuperar o condicionamento físico antes de voltar a pensar em lutas, a partir de janeiro de 2019, quando estará "faminto, ainda mais do que estou".

O judoca francês faz mistério sobre disputar ou não o Mundial do ano que vem, no Japão, mas não é segredo que mira uma despedida dos combates em casa, nos braços da torcida, nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

"Para isso, preciso me economizar, me poupar. O corpo se desgasta muito mais rápido quando se luta em alto nível, e estou há muito tempo nisso", reconhece.

Disparado o maior detentor de títulos mundiais de seu esporte, ele ainda não alcançou o japonês Tadahiro Nomura em ouros olímpicos (três) ou a invencibilidade do também japonês Yasuhiro Yamashita (203 lutas consecutivas sem perder). São duas marcas que ele não ignora e que turbinam sua gulodice, mas não a ponto de obcecá-lo.

O judoca tampouco dá muita trela para comparações com fenômenos de outras modalidades ou para a sugestão de que sua presença elevou o judô --ou, na pior das hipóteses, sua categoria, reduto de atletas fortes, mas pouco ágeis, ao contrário dele --a patamares inéditos.

"Não presto atenção nisso. Mudei algumas coisas [no judô], mas ao meu jeito", afirma, sem falsa modéstia.

"O que me interessa mesmo é ir a fundo. Não calculo, não meço. Quero ganhar medalha, ser campeão", diz aquele que quase calçou chuteiras profissionalmente em vez de vestir quimono.

Riner chegou a integrar as categorias de base de times franceses, mas preferiu o voo solo do judô para não depender da fome alheia.

"No futebol, eu era o artilheiro da equipe. No judô, ganhava todas as minhas lutas", diz. "Quando você está em um esporte individual, só depende de você. Em grupo, mesmo que sue a camisa, se alguém no time não está a fim de jogar, você perde. Foi a partir dessa constatação que fiz a minha escolha."

Apesar da despedida precoce dos gramados, ele manteve o interesse pela bola. Assistiu in loco à consagração da seleção francesa em Moscou, em julho deste ano. E tem em Ronaldinho um ídolo.

"Não há ninguém que chegue aos pés dele. É um mágico, um deus do futebol, o 'pai' de Messi e de todos os jogadores atuais", exagera, soltando uma risada.

"Basta olhar o que ele fez em campo. Já ouviu o Messi, que todo mundo acha genial, falando dele?"

Deixando para trás a divagação sobre os gênios da bola, o judoca aponta o georgiano Levani Matiashvili (atual número 1 do ranking) como favorito ao título no Azerbaijão. Mas diz que os brasileiros David Moura (derrotado por Riner na final de 2017) e Rafael Silva também têm chances de medalha na competição.

São eles seus maiores adversários rumo ao tricampeonato olímpico em Tóquio, quiçá ao tetra em Paris-2024?

"Não, todos são [grandes rivais]. Não me concentro nunca em um adversário específico. Todo mundo pode ganhar, o esporte é aleatório."

Os dez títulos mundiais em 11 anos teimam em dizer o contrário.

Teddy Riner, 29
O francês de 2,05 m de altura e cerca de 140 kg é considerado o judoca mais vencedor da história. Ele está invicto desde 2010 (144 lutas)

- Mundiais:
Oito títulos no peso acima de 100 kg (2007, 2009, 2010, 2011, 2013, 2014, 2015 e 2017) e dois em campeonatos abertos a todas as categorias (2008 e 2017)

- Jogos Olímpicos:
Duas medalhas de ouro (2012 e 2016) e uma de bronze (2008)

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