Descrição de chapéu Futebol americano

Fracasso como dirigente esportivo empurrou Trump para a política

Jogadores de equipe do presidente dos EUA relembram como ele era como cartola

Donald Trump cumprimenta o atleta Herschel Walker após contratá-lo para o New Jersey Generals
Donald Trump cumprimenta o atleta Herschel Walker após contratá-lo para o New Jersey Generals - Dave Pickoff/Associated Press
São Paulo

Era uma reunião técnica, mas o dono do time estava presente. O principal assunto era a contratação de um quarterback (lançador) para a temporada de 1985.

O treinador Walt Michaels queria Randall Cunningham, 22. Argumentou que era jogador alto, atlético e preciso nos passes. 

O patrão defendeu Doug Flutie, 22. Era um jogador baixo para os padrões do esporte, mas tinha carisma. Possuía imagem mais vendável no marketing.

Michaels continuou na defesa das qualidades de Cunningham. Até que o dirigente perdeu a paciência.

“Walter, sou eu quem decide. Eu sou o dono.”

Por pouco mais de dois anos, de 1984 a 1986, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, foi proprietário do New Jersey Generals, franquia de futebol americano que competiu na extinta USFL (United States Football League).

Outros integrantes do elenco se divertem ao lembrar a relação de Walker com Trump. Ele foi o único jogador que se tornou amigo do proprietário. Guiava o filho do patrão com os amigos da escola para visitas ao vestiário e brincava com eles. 

O running back se tornou apoiador de Trump quando este resolveu concorrer à presidência e o defendeu em público. Disse que ele estava certo por criticar o quarterback Colin Kaepernick. O jogador começou a se ajoelhar durante a execução do hino nacional americano antes dos jogos. Walker foi escolhido para ocupar uma vaga em conselho presidencial para o esporte após a eleição de Trump, em 2016.

O empresário chegou ao Generals com o discurso de tornar a equipe vencedora. Isso não aconteceu. Nas duas temporadas sob seu comando, a franquia caiu na primeira rodada dos playoffs, apesar dos investimentos. Não tinha o menor pudor em oferecer mais dinheiro que a concorrência para ter os melhores jogadores. Isso fazia com que a folha salarial da liga também subisse. Os outros donos não tinham como acompanhar o ritmo.

“A gente sabia que em outros lugares os nossos colegas tinham problema para receber, mas a gente não. Não poderíamos ficar reclamando porque o nosso dinheiro estava sempre em dia na conta”, afirma Gilbert.

O hoje presidente dos Estados Unidos gostava de vencer, mas viu no Generals uma chance maior: se tornar um nome nacional. Ele já era conhecido em Nova York, onde aparecia com frequência em colunas de fofocas e notícias de celebridades. Mas no resto do país, não.

Nos dois anos como dono de equipe, Trump tentou grandes negociações que o colocariam como gênio dos negócios no esporte. 

Ao saber que o linebacker Lawrence Taylor vivia impasse contratual com o New York Giants, o chamou para uma conversa na Trump Tower. Ofereceu US$ 1 milhão (R$ 3,7 milhões) de luvas se o astro da defesa da NFL assinasse naquela hora com o Generals. Taylor topou. Seria aquisição histórica. Um dos maiores jogadores da história deixaria uma das franquias mais tradicionais dos Estados Unidos para atuar na USFL.

Quando soube do encontro, a família Mara, dona dos Giants, chamou Taylor, fechou a renovação de contrato e ainda fez acordo com Trump. Devolveu-lhe o milhão dado ao atleta e ainda pagou US$ 750 mil (R$ 3 milhões) pela quebra do acordo com o Generals. O empresário não ficou com o jogador, mas lucrou.

A criação da USFL, em 1983, pareceu boa ideia. O torneio aconteceria entre fevereiro e julho, meses em que a NFL estava de férias. O raciocínio era lógico. O fã de futebol americano gostaria de ver o esporte o ano inteiro.

Segundo o documentário “Small Potatoes: who killed the USFL?” (Batatas pequenas: quem matou a USFL?) a empreitada durou apenas três temporadas graças a apenas uma pessoa: Donald Trump.
Ele fez pesado lobby para que a liga mudasse o calendário para bater de frente com a NFL, a levando depois à Justiça com a acusação de monopólio.

“Se Deus quisesse futebol na primavera, Ele não teria criado o beisebol”, disse Trump, inventando frase de impacto para a imprensa. Citava o período de abril a outubro, quando acontece a temporada da Major League Baseball.

A USFL não estava estabelecida, apesar de ter contratos de TV, audiência e média de público nos estádios em ascensão. A liga entrou com processo contra a NFL pedindo US$ 1,3 bilhão (R$ 4,8 bilhões) em danos. A ação se arrastou e, no fim, Trump e os demais donos de franquias ganharam. Mas a causa foi estipulada em US$ 1 (R$ 3,7). Multiplicada por três por causa de agravantes, a multa chegou a US$ 3 (R$ 11,1). Com juros, receberam US$ 3,76 (R$ 13,9). O cheque hoje está na gaveta de Steve Ehrhart, que era um dos diretores da USFL. Ele o guardou como souvenir. Nunca o depositou.

Jornalistas americanos como Stephen A. Smith, da ESPN, acreditam que Trump se lançou na política porque não conseguiu entrar no mundo da NFL. Antes do Generals, ele tentou comprar o Baltimore Colts (hoje em Indianapolis), mas foi vetado pelo comissário da National Football League, Pete Rozelle. 

“Eu poderia ter comprado uma franquia da NFL se quisesse”, desmentiu ele na época, com a mesma característica que mantém como político mais poderoso do mundo.

Jogadores que estiveram no Generals acreditam que a teoria tem lógica.

“Você crê que se ele tivesse conseguido uma franquia da NFL teria se aventurado na política? Acho bem duvidoso”, diz Brian Sipe.

Uma questão que jamais foi colocada diante de Trump para ser respondida foi se a real intenção do processo contra a NFL era forçar a união das duas ligas. Os outros donos da USFL poderiam desistir e levar uma bolada em compensação. Ele seguiria com o Generals que hoje valeria bilhões de dólares. O Carolina Panthers foi vendido neste ano para um fundo hedge por US$ 2,2 bilhões (R$ 8,1 bilhões). 

O que todos concordam é que o Trump dirigente era igual ao Trump empresário ou ao Trump político: antes de tudo, midiático. Quando queria passar informações para jornalistas, ligava para eles e se identificava como John Barron, personagem fictício que seria alto funcionário do New Jersey Generals. Nem disfarçava a voz. Quando algum repórter dizia que a voz de Barron era idêntica a de Trump, este não perdia jamais o rebolado:

“Nós somos amigos há muitos anos e frequentamos a mesma escola. Temos a mesma entonação de voz.”

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