Descrição de chapéu The New York Times

Medo de racismo interrompe liga de basquete para sudaneses na Austrália

Ginásios se recusaram a receber jogos em meio a pânico por supostas 'gangues africanas'

Livia Albert Ripka
Melbourne

​Uma associação australiana de basquete que organiza torneios para adolescentes da comunidade do Sudão do Sul radicada no país informou que atitudes xenófobas a forçaram a cancelar um torneio semestral que aconteceria em dezembro.

A South Sudanese Australian National Basketball Association serve como formadora de atletas, alguns dos quais posteriormente jogam por universidades nos Estados Unidos, e em alguns casos chegaram à NBA. A organização anunciou em comunicado postado terça-feira (27) no Facebook que a cobertura noticiosa exagerada sobre a violência entre gangues havia causado dificuldade para que ela obtivesse ginásios dispostos a receber o torneio deste ano.

"Os administradores dos ginásios estão com medo de sediar o nosso evento por causa das histórias sobre gangues africanas que veem nos noticiários", o comunicado afirma.

Nos últimos anos, incidentes isolados de violência entre jovens oriundos do Sudão do Sul, em Melbourne, vêm recebendo forte atenção da mídia, o que alguns críticos dizem ter alimentado um pânico quanto a supostas gangues africanas. Embora tenham acontecido incidentes criminais envolvendo jovens com origens no Sudão do Sul, a maioria dos crimes no Estado de Victoria são cometidos por pessoas nascidas na Austrália, de acordo com dados do governo.

Time Savannah Pride, formado por jovens do Sudão do Sul, treina na Austrália
Time Savannah Pride, formado por jovens do Sudão do Sul, treina na Austrália - David Maurice Smith - 31.mar.17/The New York Times

Mas para a associação de basquete –e a comunidade do Sudão do Sul– o estrago está feito. A associação disse que a cobertura noticiosa extensa e negativa sobre os jovens sudaneses havia dificultado a obtenção de ginásios dispostos a sediar seu torneio de verão. E aqueles que haviam considerado receber o evento impuseram "barreiras pouco realistas", entre as quais restrições quanto ao horário das partidas e limitações ao número de espectadores, e isso torna inviável realizar o torneio.

Requisitos como esses raramente são impostos a outros eventos esportivos, disse Karen Pearce, gerente de estratégia e inclusão da Basketball Victoria, a principal organização de basquete no estado.

Pearce afirmou que embora existisse a possibilidade de que as restrições não tenham base em atitudes racistas, o contrário também poderia ser o caso, "infelizmente".

"Eu odiaria imaginar que é esse o motivo", ela acrescentou, "porque o que estamos realizando é um torneio de basquete para um grupo de pessoas que adoram o esporte".

A South Sudanese Australian National Basketball Association realiza torneios duas vezes por ano –o National Classic em julho e o Summer Slam em dezembro–, e segundo ela os eventos atraem até 500 atletas e mil espectadores.

Nos últimos anos, os torneios vinham sendo realizados no Eagle Stadium, em Wyndham, um subúrbio a sudoeste de Melbourne. Mas este ano o ginásio se recusou a recebê-los.

"Eles disseram que este ano não poderiam realizar o torneio, porque o ginásio tinha preocupações", disse Manny Berberi, o diretor da associação de basquete. Berberi afirmou que o ginásio tinha aceitado receber o torneio, inicialmente, mas que a decisão posteriormente foi bloqueada pelo legislativo local. 

Em declaração, o conselho de Wyndham, que supervisiona o ginásio, disse que havia decidido não realizar o torneio por "motivos de capacidade".

Os ativistas que trabalham em favor da comunidade do Sudão do Sul dizem que a impossibilidade de encontrar um anfitrião para o torneio era um golpe.

"Não existem muitos eventos voltados à comunidade do Sudão do Sul na Austrália", disse Nyadol Nyuon, advogada e ativista comunitária nascida no Sudão do Sul. "Isso equivale a negar a toda a comunidade uma oportunidade de celebrar", ela disse.

Berberi afirmou que não queria "invocar racismo cedo demais, porque por enquanto ainda estamos averiguando a situação". Mas ele acrescentou que "existe a possibilidade de que seja uma questão de medo".

Ele e Pearce disseram ter a esperança de encontrar um ginásio que aceite receber o torneio para que este possa ser retomado no ano que vem.

Berberi afirmou que embora alguns jovens do Sudão do Sul possam ser problemáticos, o basquete tinha o potencial de ser "parte importante da solução". 

Ele acrescentou que "em última análise, a garotada só quer jogar basquete".
 
 

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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