Descrição de chapéu Campeonato Paulista

Abertura do Estadual tem bom público e dúvidas sobre regulamento em São Paulo

Jogos de Corinthians e São Paulo contaram com 31 mil e 21 mil torcedores, respectivamente

João Gabriel
São Paulo

Dizem que torcer é um ato de paixão incondicional.

Talvez por isso muitos torcedores vão ao estádio para assistir ao time do coração no Campeonato Paulista mesmo sem saber exatamente como funciona o torneio. É o caso, por exemplo, de José Carlos, 44.

“Por enquanto, não peguei a tabela ainda. Só vim no jogo para acompanhar o Corinthians. Venho em todos os campeonatos, todos são importantes para o Corinthians e para mim”, diz ele na entrada da Arena, antes da estreia de seu time contra o São Caetano, no último domingo (20).

O zagueiro Henrique, do Corinthians, comemora gol marcado contra o São Caetano em Itaquera
O zagueiro Henrique, do Corinthians, comemora gol marcado contra o São Caetano em Itaquera - Rodrigo Coca/Agência Corinthians/Divulgação

José confessou não saber os adversários que estão no grupo do seu time. O fato não é raridade.

Antes da estreia do São Paulo, a vitória por 4 a 1 sobre o Mirassol, diversos torcedores que chegavam ao Pacaembu achavam que o adversário daquele sábado era um dos integrantes do grupo do time tricolor.

Pelas regras do Paulista, na primeira fase da competição as equipes enfrentam apenas clubes dos outros agrupamentos.

“Esse ano eu não sei [quem são os outros times do grupo do São Paulo], são os times que ele não vai enfrentar, mas ainda não olhei a tabela”, revela Rafael Teodoro, 29.

“Começo de campeonato a gente não lembra nada”, comenta rindo Raoni Bento, 34, torcedor do Corinthians.

Após os 12 primeiros jogos, os dois primeiros colocados dos grupos A, B, C e D se classificam para a segunda etapa da competição. Nas quartas de final, primeiro e segundo lugar de cada grupo se enfrentam em jogos de ida e volta.

No entanto, é comum encontrar torcedores que acreditam que o chaveamento do mata-mata é definido pelo desempenho, colocando frente à frente a melhor campanha contra a pior, a segunda melhor contra a segunda pior, e assim por diante.

Outra confusão feita é achar que os confrontos da fase eliminatória são definidos pelos grupos, ou seja, que os time do grupo A enfrentariam os do B e os do C, o do D, por exemplo.

O fato de existirem jogos de ida e volta desde as quartas também era desconhecido por alguns, que acreditavam que tal formato valia apenas para a final ou a partir das semifinais.

A partir das semifinais, então o desempenho acumulado na primeira fase e nas quartas define os confrontos, com o segundo jogo no estádio de quem tiver mais pontos até então —o mesmo vale para a decisão.

Na entrada dos estádios, a Federação Paulista de Futebol (FPF) posicionou grandes banners que explicam o regulamento da competição.

Nos últimos anos, os campeonatos estaduais têm sido criticados pelo nível técnico dos jogos e por inflar o calendário. Em 2018, a fase de mata-mata do Paulista —com enfrentamentos entre São Paulo e Corinthians e Santos e Palmeiras— rendeu recordes de audiência para a televisão aberta.

O último jogo da final entre Corinthians e Palmeiras teve 43 pontos de média na medição do Ibope, com 69% das televisões ligadas no jogo. Cada ponto no Ibope equivalia a 201.601 pessoas (71.855 residências).

"Os números comprovam que o interesse do torcedor no campeonato tem crescido", afirma a FPF em nota enviada à Folha, lembrando que a semifinal entre Corinthians e São Paulo e a final do torneio tiveram as duas maiores audiências do futebol no Brasil em 2018 (excluindo jogos da Copa do Mundo).

A entidade lembra ainda que o público médio do campeonato cresceu de 76,3% de 2014 a 2018, indo de 5.724 para 10.093 pagantes por jogo.

No sábado, mais de 21 mil torcedores foram ao Pacaembu ver São Paulo e Mirassol. Outros 31 mil estiveram na Arena do Corinthians, no empate de 1 a 1 do time da casa com o São Caetano. Números próximos da média anual dos dois times em 2018, incluindo Copa do Brasil, Brasileiros e competições internacionais -- Libertadores e Sul-Americana. 

“Muita gente defende a morte dos estaduais, mas não tem jeito, é no estadual que geram os craques”, retruca Valdir Duarte, corintiano de 65 anos.

“Hoje eu vim ao estádio para trazer os filhos. Estou meio desligado do futebol, decepcionado com o São Paulo. A molecada que me incentivou [a vir]”, explica Luis Carlos Freire, 49.

A disparidade técnica entre os clubes de maior orçamento e o restante dos adversários é um empecilho para alguns torcedores.

“Paulista a gente ganhou dois anos seguidos, agora Brasileiro queria ganhar de novo”, opina o corintiano Douglas Fernando, 22.

Já Iris Aparecida, 34, pensa diferente: “Acho que é um título importante pro time. Começo de um elenco novo, Carille voltando, é para dar um pontapé inicial no resto do ano”.

“O Paulista perdeu muita graça. Principalmente para quem está na Libertadores. É um preparatório, serve para deixar o time encaixado”, entende o são-paulino William Igidio, 33.

Uma das principais mudanças do torneio para esta temporada é a implementação do VAR (sigla em inglês para o árbitro assistente de vídeo), que será utilizado a partir da segunda fase.

A novidade é comemorada pelos torcedores, que, entre piadas com rivais e confusões sobre o uso do artifício, acreditam que a tecnologia trará maior justiça ao campeonato.

A implementação vem após a FPF ser questionada pela polêmica final do Paulista de 2018, que terminou com muita reclamação do lado palmeirense, que rompeu relações com a entidade, e longas batalhas na justiça.

Apesar disso, o fim do Paulista está longe de ser uma unanimidade. “Querendo ou não, é cheio de clássicos. Quem não dá importância, não dá importância para os clássicos”, opina Marcelo Novaes, 21.

“Você jogar contra Palmeiras, Santos, é difícil, então se você não estiver bem, não ganha”, diz Ramiro Salvatierra, 36.

“Eu só venho pelo São Paulo, pelo campeonato não me interessa mesmo”, reclama Vamberto de Souza, 30.

Em meio a pedidos de mudança no formato do torneio ou exaltações sobre sua tradição, raros são os casos de torcedores que conheçam o regulamento do campeonato a fundo, como os critérios de desempate na fase de grupos (nessa ordem, vitórias, saldo de gols, gols marcados, cartões vermelhos, amarelos e sorteio), ou então que saibam as equipes que dividem grupo com o time do coração.

Um desses poucos é Vitor Hugo Silva, 23, jornalista corintiano. “É muito longo, podiam ter menos times, uns 10 ou 12”, opina ele, que mesmo assim diz gostar do estadual.

O professor de história Guilherme Monteiro, 27, faz parte dos poucos que souberam dizer os três rivais do São Paulo no grupo D. Ele queria ver um campeonato diferente.

“Acho que o estadual é um campeonato antigo. Se não acabar, acho que tem que ser drasticamente reformulado. O Paulista, de todos do Brasil, é o único que é mais competitivo e rentável financeiramente”, finaliza, na entrada do estádio do Pacaembu.

À reportagem, a FPF afirmou que, segundo pesquisa Datafolha realizada com mais de 1.500 torcedores nos estádios, 93% do público aprova o atual formato do Paulista, com 16 clubes.

O São Paulo está no Grupo D, com Botafogo, Oeste e Ituano. O Corinthians integra o Grupo C, com Bragantino, Ferroviária e Mirassol.

O Grupo B tem Palmeiras, São Bento, Novorizontino e Guarani, enquanto o A é composto por Santos, São Caetano, Red Bull Brasil e Ponte Preta.

A fase inicial do torneio vai até o dia 20 de março. As quartas serão disputadas nos dias 24 e 31 deste mesmo mês.

Em abril acontecem as semis (jogos nos dias 3 e 7) e as finais, marcadas nos domingos 14 e 21 do mês.

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