Descrição de chapéu The New York Times

John Havlicek, dínamo em duas eras gloriosas do Boston Celtics, morre aos 79

Lenda do clube, ex-jogador eternizou a camisa 17, aposentada pela franquia

Harvey Araton
Nova York | The New York Times

John Havlicek, uma força incansável em suas duas décadas de trabalho para o Boston Celtics, em duas eras distintas de grandeza do time, e um dos jogadores mais decisivos na história da NBA, morreu na quinta-feira aos 79 anos. Sua morte foi anunciada pelo Celtics. A causa não foi informada.

Havlicek jogou com grande consistência e nenhum exibicionismo por 16 anos, uma carreira que o levou ao Hall da Fama. Era conhecido pelo apelido "Hondo", que lhe foi dado por um amigo de infância que tinha dificuldade para pronunciar seu sobrenome; o jeito forte mas silencioso de Havlicek certamente lembrava o do personagem de John Wayne no filme homônimo (no Brasil, "Caminhos Ásperos).

O ex-jogador John Havlicek é homenageado no intervalo do jogo do Boston Celtics contra o Miami Heats em 2016
O ex-jogador John Havlicek é homenageado no intervalo do jogo do Boston Celtics contra o Miami Heats em 2016 - Mike Lawrie - 12.abr.16/AFP

Uma jogada exemplifica a reputação de Havlicek como o jogador mais batalhador de sua era, e talvez, como muitos torcedores mais velhos do Celtics argumentariam, de todos os tempos.

Em 15 de abril de 1965, o Celtics estava lutando para manter a liderança por 110 a 109 pontos no sétimo e decisivo jogo dos playoffs da conferência leste. A cinco segundos do final da partida, um passe do pivô Bill Russell, debaixo da cesta do Philadelphia 76ers, foi desviado ao colidir com uma linha guia; a bola ficou com o 76ers, dando ao time a chance de vencer a série.

Marcando Chet Walker, ala e astro do time de Filadélfia, perto da marca de lance livre, Havlicek começou a contar mentalmente os cinco segundos de tempo que o armador Hal Greer do 76ers tinha para colocar a bola em jogo. Quando a contagem chegou a quatro, Havlicek desviou o olhar para Greer, que havia acabado de fazer o passe na direção de Walker.

Havlicek se estendeu e desviou o passe na direção do armador Sam Jones, do Celtics, que manteve a posse de bola até o final do jogo e garantiu a vitória do Celtics; o ginásio Boston Gardens explodiu em comemoração. Havlicek foi abraçado por Russell e cercado pelos torcedores, que tiraram sua camisa número 17.

A jogada foi imortalizada por Johnny Most, por muito tempo o locutor dos jogos do Celtics no rádio, cujo grito "Havlicek roubou a bola!" se tornou parte de todos os vídeos de grandes momentos sobre a gloriosa história do time de Boston.

"Red Auerbach sempre dizia que precisávamos procurar por uma vantagem", recordou Havlicek em um vídeo gravado em 2015 para celebrar o 50º aniversário da roubada de bola, falando sobre o patriarca da organização do Celtics e treinador do time em nove dos títulos que a equipe conquistou. "Eu fiz o que deveria fazer. Jamais imaginei que o lance ficaria marcado por tanto tempo, mas ele terminou sendo eterno".

Havlicek jogou em duas eras vitoriosas do Celtics, em times liderados por Bill Russell e mais tarde pelo pivô Dave Cowens, astro na década de 1970, e fez parte de times que conquistaram oito títulos da NBA. Ele jamais saiu derrotado de um playoff final da NBA.

Antes, havia sido destaque na Universidade Estadual do Ohio, conquistando um título da NCAA com o Buckeyes em 1960 e participando de decisões em duas temporadas posteriores; lá, ele dividia o quarto com Jerry Lucas, outro futuro integrante do Hall da Fama do basquete. Eles venceram 78 das 84 partidas que disputaram com a camisa do Buckeyes. (Outro membro do elenco era Bob Knight, que se tornou um treinador vitorioso, ainda que controverso, de basquete universitário.)

Foi no Celtics que Havlicek desenvolveu seu jogo como um atleta que se alternava entre duas posições - ala e armador. No começo da carreira, ele transformou a ideia do "sexto homem", ou seja, o primeiro reserva de um time, em algo mais visível e mais valorizado, antes de se tornar titular quando Russell, que treinava o time enquanto ainda era jogador, se aposentou, ao final da temporada 1968-1969, e Tom Heinsohn, outro antigo colega de Havlicek, assumiu o comando do time.

Havlicek foi escolhido quatro vezes como membro da seleção da NBA, e por sete vezes ficou no segundo time da liga; ele foi parte da lista de cinco melhores jogadores de defesa da NBA por cinco temporadas.

Russell, considerado como o jogador mais indispensável da história do Celtics, definiu Havlicek como "o melhor jogador de basquete, em termos de combinação de defesa e ataque, que já vi jogar".

​​Havlicek, que encerrou a carreira com média de 20,8 pontos por jogo, jogou mais jogos pelo Celtics (1.270) do que Russell, marcou mais pontos (26.395) do que um astro posterior, Larry Bird, e fez mais assistências (6.114) do que qualquer outro jogador do Celtics exceto Bob Cousy.

Mas ao ser contratado pelo Celtics em 1962, como sétima escolha no draft universitário daquele ano, Havlicek era conhecido principalmente como defensor tenaz e trabalhador incansável. Alguns colegas de time, entre os quais Cousy, duvidavam que ele viesse a se tornar um grande jogador.

"Ele não arremessava muito de fora e nem driblava", disse Heinsohn, que jogou com Havlicek por diversas temporadas em Boston. "Mas ele era como um recebedor de futebol americano, e corria muito, apanhando passes longos de Cousy e fazendo bandejas".

No primeiro treino do time, Havlicek ficou encarregado de marcar Jim Loscutoff, um ala corpulento e conhecido pelo jogo muito físico. Depois de algum tempo, Loscutoff, fatigado, gritou: "Ei, você é maluco. Ninguém corre tanto assim. Desacelera, cara". Havlicek respondeu: "Pare de empurrar tanto que eu paro de correr".

Havlicek jamais parou de se movimentar, até 9 de abril de 1978, quando marcou 29 pontos em uma vitória sobre o Buffalo Braves. Foi a última vez que um jogador do Celtics usou a camisa 17.

John Joseph Havlicek nasceu em Martins Ferry, Ohio, em 8 de abril de 1940, como segundo filho de Frank Havlicek, que emigrou da Tchecoslováquia para os Estados Unidos aos 12 anos de idade, e de Mandy (Turkalj) Havlicek, que tinha origens croatas mas nasceu nos Estados Unidos.

Os pais dele eram donos de uma mercearia; a família vivia no andar de cima da loja, que ficava na rodovia US 40, perto de Lansing, uma cidade de algumas centenas de habitantes no vale do rio Ohio, perto de Wheeling, na Virgínia Ocidental.

De acordo com Lucas, Havlicek trabalhava esforçadamente em tudo, o que inclui os estudos. Ele se incomodava com a confiança do colega em decorar respostas, temendo que os resultados dele nos exames universitários fossem insuficientes, o que poderia "arruinar o time".

Como profissional, Havlicek se preocupava tanto com evitar a gordura que chegava à pré-temporada magro demais, e precisava "comer até ganhar seu peso normal de jogo", disse Heinsohn.

"Ele conseguia fazer essas coisas porque era imensamente disciplinado", acrescentou o ex-treinador.

Em entrevista, Bob Ryan, jornalista que coescreveu um livro de memórias com Havlicek e cobria o Celtics para o jornal Boston Globe, o definiu como "o padrão histórico do vigor físico, a essência da ideia de se movimentar sem bola e o melhor sexto homem da história do basquete".

Ele acrescentou que era comum que Havlicek fosse ignorado nas avaliações históricas, diante de colegas de geração como Oscar Robertson e Jerry West.

Em Boston, depois de seu primeiro ano no time Havlicek jamais voltou a ser desconsiderado, disse Heinsohn. Mais que tudo, os Celtics podiam contar com ele para jogar seu máximo, mesmo que lesionado, como ele fez em outro sétimo jogo de playoffs, na final da conferência leste contra o Knicks em 1973, quando Heinsohn era o treinador do Boston.

Em um dos primeiros jogos da série, Havlicek trombou com Dave DeBusschere, o parrudo ala de força do Knicks, e deslocou o ombro direito. Depois de ficar de fora de um jogo, Havlicek voltou para as três partidas finais da série, reduzido a usar sua mão esquerda, mais fraca.

"O braço direito dele estava pendente —a maioria dos jogadores não teria entrado em quadra", disse Heinsohn.

A lesão por fim forçou Havlicek a um jogo muito fraco na sétima partida, com um arremesso e apenas quatro pontos. Foi a primeira vez que o Celtics perdeu um sétimo jogo em casa em uma pós-temporada. O New York Knicks, com Lucas entre os titulares, venceu o título da NBA naquele ano.

Na temporada seguinte, o Celtics retomou o título, enfrentando o Milwaukee Bucks, liderado por Kareem Abdul-Jabbar (então ainda conhecido como Lew Alcindor), em sete jogos. O time de Boston havia sido renovado, e tinha astros como Dave Cowens, Paul Silas e Jo-Jo White (que morreu no ano passado aos 71 anos), mas Havlicek foi escolhido como melhor jogador das finais.

Nos anos que se seguiram à sua aposentadoria pelo Celtics, ele se afastou um pouco do basquete, dividindo seu tempo entre a Nova Inglaterra e a Flórida, com a mulher Beth (Evans) Havlicek, a quem ele havia conhecido na Universidade Estadual do Ohio e com quem se casou em 1967.

Golfista ávido, Havlicek continuou o trabalho que já realizava entre as temporadas de basquete, como vice-presidente da International Manufacturing & Marketing Corp., em Columbus, Ohio.

Também abriu uma empresa, a John Havlicek All Sports Products, e era dono de franquias dos restaurantes Wendy's.

Havlicek deixa a mulher; um filho, Chris, que jogou basquete pela Universidade da Virgínia; e uma filha, Jill Havlicek, que jogou basquete e lacrosse no segundo grau e se causou com Brian Buchanan, antigo jogador profissional de beisebol.

Embora à primeira vista Havlicek não fosse um espécime impressionante em quadra, ele tinha o físico esguio e musculoso da longa linhagem de mineradores no lado materno de sua família. Em entrevista ao The New York Times em 2009, ele desdenhou a ideia de que os melhores jogadores de sua era teriam dificuldades atléticas para enfrentar os jogadores modernos, mais bem condicionados.

O jogo, ele disse, continua a depender da execução dos fundamentos e da força de vontade necessária para subjugar um oponente.

"Eu tenho certeza de que seríamos capazes de concorrer, e, tendo as mesmas liberdades" dos jogadores modernos "para driblar passando a bola por trás das costas e carregá-la por três ou quatro passos até o aro, seríamos ainda melhores", ele disse. "Para cada enterrada que eles conseguissem contra nós, provavelmente conseguiríamos duas bandejas no contra-ataque contra eles".

Tradução de Paulo Migliacci

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