Descrição de chapéu The New York Times

Viciado em pipoca, Curry faz ranking das melhores servidas na NBA

Petisco ajuda armador do Golden State Warriors em seus arremessos precisos

Marc Stein
Nova York | The New York Times

As vistosas sess√Ķes de aquecimento de Stephen Curry antes dos jogos da NBA se tornaram uma marca ao longo da meia d√©cada de dom√≠nio que o Golden State Warriors vem exercendo nas quadras. Driblar com duas bolas ao mesmo tempo. Uma s√©rie de arremessos convertidos a um passo do meio da quadra. Cestas marcadas da sa√≠da do t√ļnel que conduz aos vesti√°rios da Oracle Arena. Enquanto os Warriors correm atr√°s de seu quarto t√≠tulo em cinco temporadas, os truques e arremessos complicados que Curry faz em seu aquecimento, e a aten√ß√£o da torcida que eles atraem, servem como equivalente, no basquete, a assistir a uma sess√£o de treinamento de rebatidas de beisebol por Barry Bonds.

Menos conhecida √© a rotina que Curry mant√©m antes da rotina de aquecimento, e que ele pretende seguir em cada partida dos playoffs da NBA ‚ÄĒ especialmente quando o Warriors estiver jogando fora de casa : ‚ÄúDescer do √īnibus, caminhar para o vesti√°rio, deixar minha sacola por l√° e ir direto √† mesa da pipoca‚ÄĚ.

Wardell Stephen Curry 2¬ļ, voc√™ deveria saber, descreve-se como ‚Äúviciado em pipoca‚ÄĚ.

Stephen Curry saboreia as pipocas de Nova Orleans antes de um jogo contra os Pelicans - Emily Kask - 9.abr.19/The New York Times

Ele √© o primeiro a admitir que essa revela√ß√£o conflita com as tend√™ncias da NBA, cujos atletas jamais haviam se preocupado tanto com a sa√ļde. Mas √© um v√≠cio a que o atleta que regula o pulso ofensivo do Warriors sucumbe com frequ√™ncia, e considera como parte essencial de sua rotina em dias de jogo. ‚ÄúSe a pipoca for mesmo boa, como antes do jogo, no intervalo e depois‚ÄĚ, disse Curry.

Ele recentemente come√ßou a usar lentes de contato, depois de anos do que descreve como ‚Äúvis√£o tr√™mula‚ÄĚ, e isso o ajudou a converter 47,3% de seus arremessos de tr√™s pontos nas 13 partidas finais da temporada regular deste ano - quase 5% a mais de acerto do que nas 56 partidas anteriores que ele disputou na temporada.

Mas, quando questionado se a pipoca ou as lentes de contato seriam mais importantes para seu desempenho nos playoffs, Curry hesitou na resposta. ‚ÄúOlha, √© algo como 1A e 1B‚ÄĚ, respondeu.

O amor de Curry por um petisco usualmente associado a sess√Ķes de cinema vem ‚Äúde muito, muito longe‚ÄĚ, de sua inf√Ęncia. O pai dele, Dell Curry, que jogou por 16 temporadas como um dos arremessadores mais precisos da NBA e depois se tornou comentarista no canal de TV do Charlotte Hornets, √© outro devoto da pipoca e suspeita que seu filho mais velho talvez tenha herdado esse v√≠cio, bem como um pouco da pontaria paterna.

Dell Curry frequentemente corre para casa depois das transmiss√Ķes dos jogos dos Hornets para assistir aos jogos de Stephen e de seu outro filho, Seth Curry, que joga pelo Portland Trail Blazers, na costa oeste dos Estados Unidos. ‚ÄúContinua a ser meu petisco favorito para assistir a um jogo. Quando assisto aos jogos dos meus filhos, sempre como pipoca.‚ÄĚ

A diferen√ßa, disse ele, √© que jamais teria pensado em comer pipoca com manteiga e sal antes de jogar uma partida na NBA. O mesmo vale para Steve Kerr, treinador dos Warriors e mais um arremessador de alta precis√£o que jogou na mesma √©poca que Dell Curry. Nos dez √ļltimos anos, a comida que √© usualmente vendida nos gin√°sios da NBA se tornou tabu no abastecimento pr√©-jogo dos atletas. Hoje, as escolhas aceit√°veis s√£o barras de cereais, frios e sandu√≠ches de manteiga de amendoim e geleia, sempre presentes nas mesas de comida dos vesti√°rios.

Mas a luz verde que Kerr d√° a Curry para arremessar de onde quiser na quadra tamb√©m se estende √† sua dieta. ‚ÄúO que quer que ele esteja fazendo, deveria continuar fazendo‚ÄĚ, disse Kerr. ‚Äú√Č o meu conselho.‚ÄĚ

O ginásio é como um lar
Bruce Fraser √© treinador assistente dos Warriors e ajuda Curry em seus preparativos pr√©-jogo desde que Kerr come√ßou como treinador da equipe, na temporada de 2014/15. A teoria de Fraser, talvez o mais atento observador de Curry na equipe, √© que o apego do jogador √† pipoca surgiu por conta de suas numerosas visitas a gin√°sios da NBA para assistir aos jogos do pai, na inf√Ęncia.

‚ÄúEu imagino que isso deve ajud√°-lo a sentir que est√° em um gin√°sio, e gin√°sios s√£o um lar para Stephen‚ÄĚ, disse Fraser.

A devo√ß√£o de Curry √† pipoca cresceu tanto nos √ļltimos 12 meses que ele revelou em diversas entrevistas que tinha um ranking da pipoca nos 29 gin√°sios da NBA. Convidado pelo The New York Times no come√ßo da temporada a revelar esse ranking para publica√ß√£o, Curry n√£o s√≥ aceitou como sugeriu que as pipocas deveriam ser classificadas em escala de um a cinco por cinco fatores, para embasar o ranking: frescor, sal, croc√Ęncia, manteiga e apresenta√ß√£o.

Para manter a pureza de seu passatempo, disse Curry, ele n√£o acrescenta qualquer coisa que mude a apar√™ncia, sabor ou temperatura da pipoca. Tamb√©m se declarou capaz de ‚Äúvisualizar a posi√ß√£o da pipoca‚ÄĚ em qualquer gin√°sio do mapa da NBA.

‚ÄúE a experi√™ncia volta imediatamente √† minha mem√≥ria‚ÄĚ, disse Curry. ‚Äú√Č complicado, cara. √Č um problema.‚ÄĚ

Ela fala com reverência do pacote de pipoca feita na hora que o Dallas Mavericks tinha à sua espera logo à esquerda da entrada do vestiário dos visitantes do American Airlines Center, em 13 de janeiro. Curry marcou 48 pontos naquela noite.

Tamb√©m conta com orgulho a hist√≥ria dos gandulas do Miami Heat, no aquecimento matinal para a partida de 27 de fevereiro; os meninos garantiram que ele ficaria ‚Äúimpressionado com nossos esfor√ßos na frente da pipoca‚ÄĚ ‚ÄĒ e mais tarde, naquela noite, ele encontrou uma mesa com sacos de pipocas alinhados sobre pranchas de madeira e sob l√Ęmpadas de aquecimento.

A visita anual dos Warriors a Brooklyn tem lugar especial na agenda, disse Curry, porque Matthew Horton, o sujeito de 2,08 metros de altura que cuida do vesti√°rio dos visitantes no Barclays Center (e √© conhecido como ‚ÄúTiny‚ÄĚ, min√ļsculo), sempre tem dois sacos de pipoca fresca √† espera de Curry em seu arm√°rio. A pipoca do Barclays ficou em segundo lugar no ranking de Curry, entre a de Dallas, a primeira colocada, e a de Miami.

Ainda que a pipoca do Smoothie King Center, do New Orleans Pelicans, n√£o tenha ficado na lista de dez mais de Curry (est√° em 12¬ļ lugar no ranking), o pessoal dos Warriors ainda fala de uma visita do time √† cidade na segunda temporada de Curry na NBA. Ao descobrir um grande saco de pipoca na sala de exerc√≠cio, Curry transferiu as pipocas para o seu arm√°rio e as escondeu sob seu agasalho. Mais tarde, ele foi fotografado abra√ßado ao saco de pipoca, sentado no ch√£o do vesti√°rio.

‚ÄúEu realmente sou louco por pipoca. N√£o √© brincadeira‚ÄĚ, disse Curry.

Ethan Gold e Adam Mendelson, funcion√°rios dos Pelicans, fazem entrega no vesti√°rio dos Warriors - Emily Kask - 9.abr.19/The New York Times

‚ÄčKlay Thompson, o armador que faz dupla com Curry no fundo de quadra dos Warriors (o par √© conhecido pelo apelido ‚ÄúSplash Brothers‚ÄĚ), viu o colega preenchendo as notas na planilha da pipoca, em um recente voo do Warriors - e considerou a cena completamente normal. ‚ÄúEle √© um esnobe da pipoca‚ÄĚ, disse Thompson.

Kerr dá tanta liberdade a Curry que diz que só descobriu sobre os hábitos de seu armador com relação à pipoca quanto um repórter fez perguntas a respeito. Mas o petisco é fonte de algum atrito entre Curry e o departamento de preparação física do Warriors, porque a pipoca não está na lista de alimentos aprovados ou oferecidos aos jogadores pelo time antes dos jogos em casa.

“Tem coisa boa aí?"
Por isso, Curry tem de tomar medidas especiais quando chega √† Oracle Arena em noites de jogo. Sua primeira provid√™ncia √© consultar o seguran√ßa Norm Davis, que cuida da porta do vesti√°rio dos Warriors, e perguntar se ‚Äútem coisa boa a√≠‚ÄĚ. Davis, ent√£o, envia outro seguran√ßa, Dwight Pruitt, ao camarote do propriet√°rio do time, ali perto, para apanhar um saco de pipocas estouradas na hora.

J√° os times contra os quais os Warriors jogam fora de casa nunca criam dificuldades. ‚ÄúGostam de nos engordar um pouco antes dos jogos‚ÄĚ, disse Curry.

O jogador sabe que n√£o deveria comer tanta pipoca, o que explica por que ele busca restringir seu consumo em casa. Descreve assistir a um filme comendo pipoca como ‚ÄúGOAT‚ÄĚ (‚Äúa melhor coisa de todos os tempos‚ÄĚ, na sigla em ingl√™s), mas s√≥ vai ao cinema ‚Äúmais ou menos quatro vezes por ano‚ÄĚ.

√Č claro que, quando voc√™ ajudou seu time a conquistar tr√™s t√≠tulos em quatro temporadas e ganhou duas vezes o pr√™mio de melhor jogador, tornando-se um dos atletas mais populares do planeta ‚ÄĒ o que Curry fez -, fica mais f√°cil conseguir algumas regalias que os jogadores comuns n√£o t√™m. Em julho de 2017, Curry teve seu contrato estendido por quatro temporadas, nas quais vai ganhar US$ 201 milh√Ķes (R$ 788 milh√Ķes, o valor m√°ximo permitido para os Warriors), sem restri√ß√Ķes √† pipoca.

‚ÄúEu nem come√ßaria a negociar se isso fosse uma cl√°usula. Eles sabem que n√£o vale a pena come√ßar essa discuss√£o‚ÄĚ, disse Curry.

‚ÄúEu como pipoca acompanhada por √°gua - muita, muita √°gua‚ÄĚ, acrescentou, fazendo uma cara que lembra a de suas filhas quando elas pedem para ir dormir mais tarde do que o hor√°rio habitual. ‚ÄúN√£o causa problema algum. Tenho alta toler√Ęncia a pipoca.‚ÄĚ

Stephen Curry saboreia sua pipoca após uma vitória sobre o Los Angeles Clippers - Jason Henry - 7.abr.19/The New York Times

Curry nem sempre consegue o que quer quando o assunto √© sua comida favorita. No All-Star Game de 2018, no Staples Center, em Los Angeles ‚ÄĒ que, ali√°s, serve a pipoca menos apetitosa da NBA, de acordo com ranking do jogador ‚ÄĒ, ele foi flagrado por uma c√Ęmera no banco comendo pipoca. ‚ÄúAs autoridades vieram e tiraram a pipoca da minha m√£o‚ÄĚ, disse Curry, referindo-se a dois dirigentes da NBA que lhe disseram que n√£o era bonito comer pipoca durante um jogo ‚ÄĒ mesmo que a partida fosse um amistoso.

Mas a resist√™ncia a imagens como essa parece estar se abrandando. Andy Barr, m√©dico que fundou a Innovate Performance, uma cl√≠nica de condicionamento f√≠sico na Calif√≥rnia, depois de participar das equipes de prepara√ß√£o f√≠sica do New York Knicks e do New York City FC, da Major League Soccer, apontou para os muitos benef√≠cios psicol√≥gicos que Curry extrai do petisco de que gosta tanto, dizendo que isso pode mais que compensar quaisquer preocupa√ß√Ķes fisiol√≥gicas.

‚ÄúSe a rotina dele √© essa, e n√£o se pode questionar seu desempenho, mal n√£o faz. A pipoca √© um alimento leve. Teor de sal alto, mas n√£o √© uma subst√Ęncia pesada. A diferen√ßa estaria na quantidade, e ele se hidrata bem‚ÄĚ, disse Barr.

‚ÄúSe houvesse quest√Ķes de desempenho ou dieta, com rela√ß√£o √† composi√ß√£o do corpo, ou um problema de energia, talvez houvesse motivo para questionar. Mas ningu√©m vive s√≥ de alimentos bons para o desempenho. Dado o desgaste de uma temporada da NBA, √†s vezes √© preciso ser leniente com algumas coisas‚ÄĚ, acrescentou o m√©dico.

Para Curry, o h√°bito √© um fator para que os jogos fora de casa sejam mais apreciados. Ou menos. ‚ÄúSe a pipoca √© ruim, isso afeta meu humor.‚ÄĚ

Quando questionado se a pipoca talvez devesse ser classificada como sua comida favorita, Curry respondeu: ‚ÄúSei que n√£o posso viver s√≥ dela, mas... sim‚ÄĚ.

Tradução de Paulo Migliacci

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