NBA chega aos playoffs com novo recorde de cestas de três

Arremessos de longe se multiplicam na liga norte-americana de basquete

Marcos Guedes
São Paulo

A extensa fase de classificação da NBA, concluída na quarta-feira (10), confirmou a tendência da liga norte-americana de basquete nos últimos anos. Pela sétima temporada seguida, foram quebrados os recordes de arremessos de três pontos e de cestas nesse tipo de jogada.

Nas 1.230 partidas realizadas desde o início da competição, foram registradas 78.742 tentativas de longa distância, com 27.955 acertos. O aproveitamento de 35,5% é consistente com a média apresentada em todo o século, porém a frequência dos tiros cresceu 10,4% em relação à temporada 2017/18.

Na comparação com os anos anteriores, a diferença é ainda mais gritante. Em 2011/12, no último campeonato antes da sequência de recordes quebrados, a NBA teve apenas 36.395 lançamentos de três, 12.693 deles convertidos. Isso significa que tentativas e acertos mais do que dobraram em sete anos.

James Harden tenta um de seus mais de mil arremessos de três da temporada - Troy Taormina - 17.mar.19/USA Today Sports

Em resumo, os treinadores perceberam que era possível aumentar a frequência das finalizações de três sem que o índice de conversões fosse prejudicado. Por isso, os números vêm subindo e as marcas têm sido superadas temporada a temporada.

Os números oficiais da liga, compilados pelo site Basketball Reference, mostram que uma partida tem em média 64 bolas jogadas por atletas atrás da linha dos três. Ou seja, há um arremesso de longe a cada 45 segundos.

“Hoje, há tanta ênfase nos três pontos porque isso se provou analiticamente correto”, disse o técnico do San Antonio Spurs, Gregg Popovich, pentacampeão da NBA.

“Você pega as estatísticas depois de um jogo, e a primeira coisa que olha são as cestas de três. Se você fez e o outro time não fez, você ganhou. Você nem olha os rebotes, os desperdícios de bola ou o trabalho de transição para a defesa. Você nem se importa. É esse o tamanho do impacto do arremesso de três”, acrescentou.

Popovich, um estrategista que enfileirou taças aproveitando o talento de pivôs como David Robinson e Tim Duncan, não gosta da mudança. Ele se ajustou a ela, mas não sem se mostrar contrariado.

“Eu odeio, sempre odiei. Odeio o arremesso de três faz uns 20 anos. É por isso que sempre brinco: se é para ter um jogo diferente, vamos fazer uma jogada de quatro pontos. Não tem mais basquete, não há beleza. É bem chato. Mas é o que temos, e precisamos trabalhar com isso”, afirmou o técnico de 70 anos.

Parte da bronca do experiente comandante é ligada às mudanças nas regras instituídas desde os anos 90. Passou a haver uma proteção bem maior aos atletas de ataque, o que acabou prejudicando os pivôs, habituados a um jogo mais físico. Para sobreviver, os grandalhões tiveram de aprender a existir fora do garrafão e, também, a arremessar de fora.

Pela precisão, Stephen Curry e Klay Thompson são conhecidos como "Splash Brothers" - Kyle Terada - 5.apr.19/USA Today Sports

O reinado dos três pontos tem no atual Golden State Warriors seu grande retrato. Com dois dos melhores arremessadores da história, Stephen Curry e Klay Thompson, a equipe californiana ganhou três dos últimos quatro campeonatos e é favorita de novo.

Mesmo quem não tem armas de alcance tão grande é obrigado a arriscar de longe. O Los Angeles Lakers, por exemplo, teve o segundo pior aproveitamento entre os 30 times, com 33,3% nas tentativas de três. Mesmo assim, apostou nessas bolas 31 vezes por jogo.

A inabilidade, em uma liga como a de hoje, custou caro. Mesmo tendo no elenco o craque LeBron James, que esteve na decisão nas últimas oito temporadas, os Lakers ficaram apenas em décimo lugar na Conferência Oeste e nem se classificaram ao mata-mata.

É verdade que múltiplas lesões tenham atrapalhado a equipe. Mas também fracassou o plano de cercar LeBron com mais criadores de jogadas e menos especialistas em arremesso. Sem ameaças no perímetro, ficou mais fácil para os adversários congestionarem o garrafão e fecharem o caminho do ala.

LeBron James, sem espaço, perde bola decisiva em jogo contra o New York Knicks - Wendell Cruz - 17.mar.19/USA Today Sports

Maior foi a dificuldade para frear o Houston Rockets, de James Harden, um dos candidatos a melhor jogador do ano. Dirigido por Mike D’Antoni, grande entusiasta do jogo baseado em velocidade e tentativas de longe, o time teve média impressionante de 45,4 arremessos de três por partida, com 16,1 acertos.

A formação texana tenta mais bolas de três do que de dois. Harden quebrou o recorde de um atleta em uma temporada, com 1.028 tentativas (13,2 por jogo, com 36,8% de aproveitamento), e promete manter o estilo no mata-mata, que começa neste sábado (13).

O armador segue o parâmetro ditado pelos analistas de desempenho, que ganharam espaço enorme na liga, com departamentos extensos e profissionais altamente especializados. A ordem é bater para dentro ou arremessar de longe, motivo pelo qual as bolas de meia distância caíram em desuso.

Quando a mão não está calibrada, o preço é alto. No jogo decisivo da Conferência Oeste do ano passado, com a série empatada por 3 a 3, o Houston jogou em casa com a possibilidade de destronar o Golden State, mas chegou a errar 27 tentativas de três seguidas e sucumbiu.

Neste ano, parece haver mais desafiantes qualificados. No Oeste, além do próprio Houston, times como o Denver Nuggets e o Oklahoma City Thunder se mostram dispostos a surpreender. No Leste, finalmente sem LeBron no caminho, Milwaukee Bucks, Toronto Raptors, Philadelphia 76ers e Boston Celtics brigam pela coroa.

Sejam quais forem os resultados, espere ver muitos arremessos de três.

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