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Velocidade

Obcecado, Niki Lauda foi nerd pioneiro da F-1

Austríaco vivia num mundo sem espaço para brincadeiras, lapsos ou erros

José Henrique Mariante

Niki Lauda era o último remanescente de uma época selvagem da F-1. Tempos em que se morria na pista, sendo piloto, fiscal de pista e até espectador. Tempos em que pilotos bebiam, fumavam e usavam drogas, cercados de mulheres bonitas de minissaia. Pense em todos os estereótipos possíveis, isso era corrida de automóveis nos anos 70.
 
Mas Lauda, austríaco de família rica que se tivesse nascido meio século depois seria considerado um nerd, vivia em outro mundo. Um onde a F-1 não parecia mais a aventura de loucos e endinheirados, mas algo como um esporte profissional, sem espaço para brincadeiras, lapsos ou erros, dentro ou fora das pistas, na gerência da própria da carreira.

Se ao leitor mais jovem a descrição parece encaixar em pilotos, digamos, modernos, como Ayrton Senna e Michael Schumacher, tenha certeza, Lauda veio antes e tanto ou mais obcecado.

Também obteve a façanha de organizar uma Ferrari em torno de si, onde foi bicampeão em 1975 e 1977, quando deveria ser tri. Abdicou de lutar pelo título em 1976 na última corrida da temporada, no Japão, sob um dilúvio, alegando falta de condições de segurança.

Isso tudo, pouco depois de quase perder a vida em um acidente horroroso, receber a extrema-unção, voltar semanas depois às pistas com a pele do rosto e da cabeça em carne viva e com um pulmão comprometido —o mesmo que o abandonou no ano passado.
 
Lauda chocou a todos. Ao escapar vivo ou quase morto de um carro em chamas, ao protagonizar uma volta espetacular ou quase irresponsável para as pistas e ao desistir de toda essa incrível epopeia praticamente na última curva por se sentir simplesmente inseguro.
 
Como desistiu, três anos mais tarde, da própria F-1. Supostamente por conta de uma temporada ruim na Brabham, do então apenas dono de equipe Bernie Ecclestone.

Também para se dedicar a uma empreitada pessoal, uma companhia aérea, a Lauda Air, que o tinha como piloto de quando em quando —assim como refeições em pratos triangulares e aeromoças de calça jeans e bonés vermelhos.
 
Lauda não aguentou a distância das pistas, assim como seu bolso não aguentou o custo do leasing de aviões. Foi chamado pela McLaren, já nas mãos de Ron Dennis, que precisava de um piloto de verdade para fazer decolar o ambicioso projeto MP4.

Na terceira corrida, em 1982, venceu, mas o título, o terceiro da carreira, só viria em 1984, empurrado por um motor TAG Porsche turbo.
 
Lauda, sempre preciso e impecável, transformou outro time em campeão. A partir do seu Mundial, o companheiro Alain Prost e mais tarde Ayrton Senna construiriam corrida a corrida uma das mais hegemônicas eras da F-1.
 
Já uma outra F-1, formada por gente aparentemente divertida, mas obcecada, como Nelson Piquet, e gente simplesmente obcecada como Senna.
 
Sim, Lauda abriu a fila. Escapou da morte e da boa vida para ser competente.

 

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