VAR no Brasil tem desigualdade de câmeras e problemas técnicos

Árbitros relatam incômodo com diferença na quantidade de equipamentos

Carlos Petrocilo Toni Assis
São Paulo

A menos de três horas do início de um clássico pelo Campeonato Brasileiro, a equipe de arbitragem chegou ao estádio e soube que teria sete câmeras à disposição para operar o sistema do VAR (árbitro assistente de vídeo, na sigla em inglês).

Esse é o número mínimo utilizado no torneio, embora a própria CBF reconheça que o ideal seria ter ao menos oito câmeras à disposição. A partida em questão foi transmitida pelo Premiere, canal de pay-per-view do Grupo Globo.

Árbitro consulta o VAR
Árbitro consulta o VAR em duelo do São Paulo, no Morumbi. - Rubens Chiri/saopaulofc/net

Duas semanas depois, em uma partida entre equipes que estavam nas últimas colocações e foi exibida no SporTV, canal por assinatura que também pertence ao grupo, o VAR operou com 15 equipamentos.
Essa disparidade tem incomodado a arbitragem brasileira, segundo relatos de três juízes que foram ouvidos pela reportagem. Os nomes desses profissionais, que trabalham tanto no campo quanto no vídeo, e os confrontos em que atuaram foram omitidos a pedido deles.

O Grupo Globo tem um acordo com a CBF para fornecer as imagens utilizadas pelo VAR inclusive nos duelos que não serão exibidos ao vivo por algum dos seus canais. Nesses casos, também são usadas sete câmeras. A Folha teve acesso ao plano de exibições elaborado pelo grupo.

Nele consta que os jogos do Premiere contam com sete aparelhos de transmissão. Já os do SporTV e da TV aberta variam de 15 a 24. Na Copa do Mundo de 2018, por exemplo, o VAR operou cada um dos jogos com 33 câmeras.

Quando escalados para as partidas do Brasileiro, os árbitros não recebem informações sobre quantos equipamentos terão à disposição. Eles só tomam conhecimento sobre isso no estádio. Um deles disse à Folha que vive à expectativa da grade de programação dos canais.

Na 20ª rodada do Campeonato Brasileiro, que termina nesta segunda (23), o modelo do Premiere foi adotado em cinco jogos, enquanto a outra metade seguiu o padrão do SporTV e da TV aberta.

Além de ter um número inferior, o Premiere não conta com a chamada oitava câmera, conhecida também como invertida por ser a única instalada no lado oposto ao da cabine do VAR. Um árbitro a definiu como anjo. Para outro, é o equipamento dos 360 graus.

Segundo Leonardo Gaciba, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, a entidade contrata esse equipamento em algumas partidas em que ele não estaria disponível a um custo de até R$ 8.000.

"Deveria [fazer parte de todas as partidas], mas a Globo não está ali apenas para o VAR. Muita vezes a invertida, durante o lance, está focando nas reações dos treinadores e nos torcedores na arquibancada", afirmou Gaciba. "Às vezes pagamos uma câmera a mais para ter oito. Sete é o mínimo, mas, quanto mais tiver, melhor para o trabalho. A partir de 12 passa a ter dois operadores [responsáveis por ampliar as imagens para o juiz na cabine], o que deixa o trabalho de revisão ainda mais ágil", completou.

As reclamações ouvidas pela Folha vão além da disparidade das condições de equipamento. Para eles, a demora na definição de um lance também passa pela falta de entrosamento dos operadores. Um juiz disse que, em uma partida no Allianz Parque em que ele era o responsável pelo vídeo, um técnico forneceu por duas vezes um ângulo errado. Alheio ao que ocorria na cabine, o árbitro de campo, pressionado pelos jogadores e vaiado pela torcida, ficou irritado com a demora do VAR. O clima piorou no segundo tempo, após uma divergência sobre a cor do cartão que deveria ser aplicado, e a discussão descambou para ofensas.

Outro juiz narrou que, por causa de erros antes do início do jogo para configurar o software que indica a linha de impedimento, ele teve acesso a esse recurso somente depois da metade do primeiro tempo.
Gaciba defende os operadores de replay das críticas sobre falta de entrosamento.

"Tem toda a atmosfera do jogo", disse o presidente da comissão. "Estamos nos esforçando de todas as maneiras, a tendência é melhorar."

O tempo médio para análise de lances era de 1 minuto e 54 segundos até a 14ª rodada do campeonato, segundo balanço da CBF divulgado em agosto. Com base nos resultados da Copa de 2018, a Fifa sugere que a média das pausas seja de 1 minuto e 15 segundos.

Pesquisa feita pelo Datafolha no fim de agosto mostrou que, para 58% dos brasileiros, o VAR mais ajuda do que atrapalha. Após uma série de críticas feitas por torcedores e clubes, a CBF lançou uma campanha publicitária em defesa dos árbitros do país.

Procurada, a assessoria de imprensa da Globo disse apenas que "cede as imagens para a CBF, que é responsável pela operação do VAR".

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