Após morte e autorização, iranianas veem jogo de futebol em estádio

Apesar da liberação, houve limitações à presença de torcedoras nas arquibancadas

Tariq Panja
Nova York | The New York Times

Uma mulher disse que queria abraçar seu ingresso e chorar. Outra levou as duas mãos à boca, atônita ao ver pela primeira vez o luxuriante verde do gramado do estádio. Outras pintaram bandeiras em seus rostos e usaram seus celulares para documentar o momento.

Quando a seleção nacional de futebol do Irã entrou em campo no estádio Azadi, de Teerã, na quinta-feira, para uma partida que em geral seria vista como corriqueira nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o maior interesse quanto ao jogo não estava na ação em campo, mas sim em quem estava presente nas arquibancadas.

Pela primeira vez em quase quatro décadas, mulheres foram autorizadas a comprar ingressos e a assistir a um jogo no Irã.

"Finalmente", disse uma torcedora, "os portões se abriram para nós".

As mulheres começaram a chegar ao estádio diversas horas antes do jogo, e muitas já estavam acomodadas em seus lugares duas horas antes do pontapé inicial. Outras chegaram sem ingressos —diversos avisos foram transmitidos pelos alto-falantes alertando as torcedoras que estavam do lado de fora de que não seriam autorizadas a entrar—, já que as autoridades limitaram a alguns poucos milhares o número de ingressos disponíveis para as mulheres.

Isso criou uma cena estranha no interior do estádio, com o canto reservado às mulheres completamente lotado enquanto a maioria absoluta dos demais lugares na arena para 78 mil espectadores continuava vazios. A experiência foi uma novidade tão grande para muitas das mulheres que um pequeno grupo de suas colegas foi encarregado de demonstrar às torcedoras —uma mistura de mulheres usando camisas da seleção iraniana e "chadors" tradicionais— os gritos de guerra da torcida iraniana.

O jogo entre Irã e Camboja usualmente atrairia pouco interesse, por opor um peso pesado do futebol regional a um país com pouca chance de classificação, em uma das primeiras partidas das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. O Irã precisou de apenas cinco minutos para abrir o placar —comemorando o gol a poucos metros de distância de milhares de torcedoras entusiasmadas— e pelo final do primeiro tempo o placar já era de 7 a 0. O jogo terminou com vitória iraniana por 14 a 0.

Mas a despeito do resultado elástico, o jogo esteve entre os eventos esportivos mais importantes dos últimos anos, por servir como marco do final de uma proibição que sempre foi amargamente combatida. A decisão de permitir que mulheres assistissem só veio um mês depois que uma torcedora se imolou e morreu, em protesto por ter recebido uma sentença de seis meses de prisão por ter assistido a um jogo entre clubes este ano.

A proibição data de 1981 e foi adotada pelos conservadores de linha dura como uma regra não escrita que nega o acesso de mulheres aos estádios desde então. Nos últimos anos, ela foi estendida ao vôlei e ao basquete, com o avanço da popularidade desses dois esportes no país.

As mulheres e meninas iranianas há muito vinham tentando derrubar —ou contornar a proibição—, por meio de protestos semanais ou se disfarçando de homens para entrar nos estádios.

Embora as autoridades do governo e dirigentes do futebol não tenham se deixado influenciar por isso, o ativismo aos poucos atraiu a atenção do público do Irã e de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos. Também foi o tema de um filme, "Impedimento", em 2006, dirigido pelo famoso cineasta iraniano Jafar Panahi.

Mas foi a morte da mulher que se imolou em setembro que causou o maior impacto. A notícia de sua morte, aos 29 anos, se espalhou rapidamente online sob o hashtag #bluegirl —uma referência à cor do clube de Teerã pelo qual ela torcia, o Esteghlal.

Os protestos se expandiram rapidamente, com a adesão de jogadores iranianos e internacionais. Muitos iranianos —entre os quais um antigo capitão da seleção do Irã— pediram por um boicote a todos os jogos de futebol até que a proibição à presença de mulheres fosse revogada.

Em poucas semanas, Gianni Infantino, o presidente da Fifa, a organização que comanda o futebol mundial, disse que as autoridades iranianas lhe haviam garantido que mulheres seriam autorizadas a comparecer aos jogos, começando pela partida de eliminatória contra o Camboja.

Iraniana chega ao estádio Azadi para jogo da seleção masculina do país
Iraniana chega ao estádio Azadi para jogo da seleção masculina do país - Atta Kenare/AFP

A Fifa evita há anos adotar medidas duras contra a exclusão de mulheres pelo Irã, mas o crescimento da pressão pública fez com que a organização deixasse em aberto a possibilidade de proibir o Irã, uma potência do futebol asiático, de participar das eliminatórias para a copa de 2022.

Em discurso durante uma conferência de futebol feminino em Milão, Infantino disse aos delegados que sua organização não podia mais esperar.

Mas embora as mulheres tenham obtido acesso ao jogo, ativistas apontam que a Fifa não parece ter obtido outras garantias do Irã quanto à futura presença delas em jogos nacionais e internacionais. Também revelaram que as autoridades iranianas haviam imposto um limite arbitrário ao número de mulheres que puderam assistir ao jogo desta quinta-feira.

A capacidade do estádio Azadi é de mais de 78 mil espectadores, mas apenas alguns milhares de ingressos foram reservados para as mulheres. Estes se esgotaram assim que foram colocados à venda.

As poucas e afortunadas torcedoras que conseguiram ingressos expressaram na mídia social sua alegria por enfim poderem compartilhar da paixão pela seleção nacional de futebol. Uma mulher disse que tinha vontade de abraçar seu ingresso e chorar; outra revelou que iria ao estádio com seu pai, idoso.

A despeito da demanda —e do tamanho do estádio, que não deveria receber grande número de torcedores nesta quinta-feira—, as autoridades iranianas não se esforçaram por elevar a cota feminina.

Do lado de dentro do estádio, as mulheres foram segregadas dos homens por áreas de arquibancada vazias e por cercas metálicas erguidas em torno das seções reservadas a elas. As torcedoras descreveram essa segregação como uma "jaula", e as mulheres presentes eram observadas por monitores. Em um vídeo postado online, uma mulher que ergueu um cartaz em homenagem à Blue Girl —a torcedora que se imolou— logo se envolveu em uma briga com outras torcedoras que tentavam forçá-la a abaixar o cartaz.

"Parte de mim está feliz, mas eles basicamente criaram um muro", disse Maryam Shojaei, irmã de Masoud Shojaei, o capitão da seleção de futebol iraniana, e uma das líderes da campanha pela abertura dos estádios. "Não era isso que vínhamos pedindo. Não é como se todos pudessem ir e se acomodar livremente com seus irmãos, pais e maridos."

Minky Worden, diretora de iniciativas mundiais da organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, que por anos fez lobby junto à Fifa para que esta pressionasse o Irã a suspender a proibição, disse que a organização futebolística merecia críticas por não ter aberto o estádio todo às mulheres.

Mulheres iranianas no estádio Azadi durante partida contra o Camboja nesta quinta-feira (10)
Mulheres iranianas no estádio Azadi durante partida contra o Camboja nesta quinta-feira (10) - Atta Kenare/AFP

"As mulheres estão ansiosas pelo final da proibição, e muitas delas irão ao estádio tentar comprar ingressos e protestar", disse Worden em entrevista por telefone antes do jogo. "Isso cria uma situação realmente inaceitável, um risco inaceitável."

Ainda assim, mesmo as concessões limitadas às torcedoras resultaram em contraprotestos pela linha dura iraniana. Uma organização fez comícios nas ruas de Teerã esta semana e marchou com faixas em que denunciava o que define como capitulação diante da pressão ocidental.

Também houve indicações de que para relaxar as restrições será preciso mais do que permitir que mulheres compareçam a um jogo, já que foram negadas credenciais a fotógrafas que queriam documentar a partida histórica.

Algumas ativistas antecipam a presença de grande número de pessoal de segurança e disseram que planejavam não ir ao local do jogo. Mas pelo menos uma delas se declarou disposta a assumir o risco.

A mulher, que dirige a rede Open Stadium e usa o pseudônimo Sara para ocultar sua identidade, havia viajado para a Europa devido a preocupações com sua segurança, mas retornou ao Irã esta semana. Ela disse que planejava levar a mãe ao estádio.

"Depois de tudo por que passamos, não havia como eu não ir."

Tradução de Paulo Migliacci

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