Bronca de avô molda Bruno Henrique decisivo nos títulos do Flamengo

Melhor da Libertadores, vice-artilheiro do Brasileiro preocupava por indisciplina

Santos

Bruno Henrique, 28, já aparentava viver seu grande momento no Flamengo em março deste ano. Nos 11 primeiros jogos pelo novo clube, ele marcou 6 gols, 4 deles diante dos rivais Botafogo e Fluminense.

Com pouco menos de dois meses no Rio de Janeiro, o atacante superava um 2018 para ser esquecido no Santos. O comportamento, porém, ainda preocupava familiares e pessoas próximas ao atleta: seis cartões amarelos e dois vermelhos no mesmo período.

“O nosso avô ligou para o Bruno. Falou que estava agressivo dentro de campo, que não respeitava os adversários. Queria que ele fosse a mesma pessoa [de antes]”, conta o irmão do jogador, Wander Nunes Pinto Júnior, conhecido como Juninho.

A bronca do avô Genésio Marcelino Pinto, aliada à intervenção do empresário Dênis Ricardo, que o acompanha desde o início da carreira, no Uberlândia-MG, foram fundamentais para moldar a fase do jogador, eleito o melhor da Copa Libertadores de 2019 após o título diante do River Plate, no sábado (23).

Como prêmio, ganhou da patrocinadora do torneio um anel com 128 diamantes.

“Fizemos um trabalho de equilíbrio emocional com ele, conversamos muito. Pelo temperamento e pela vontade de sempre ajudar, tomava cartões desnecessários. Hoje ele continua sendo competitivo, mas equilibrado”, diz Ricardo.

Genésio é a principal referência do jogador e do irmão mais velho. Eles cresceram na casa do avô no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. “Ele sempre foi um alicerce para nós. Bem ao lado de onde morávamos existia uma boca de fumo e tráfico de drogas, mas o meu avô sempre nos ensinou o caminho certo”, afirma Juninho.

A preocupação com o emocional de Bruno Henrique se dá pela rota improvável vivida pelo jogador no futebol. Até 2011, ele trabalhava em uma escola, como telefonista, além de realizar serviços de banco.

A participação em um conhecido torneio de várzea de Belo Horizonte, a Copa Itatiaia, mudou a sua história. Destaque da competição, chamou a atenção de olheiros do Cruzeiro, aos 21 anos, com três gols na final pelo Inconfidência, time de seu bairro.

Até 2015, o jogador nem sequer havia atuado em uma grande equipe ou numa competição de elite do país. Foi destaque no Itumbiara-GO, em 2014, e indicado ao Goiás pelo ex-goleiro e então diretor Harlei Menezes como uma aposta desconhecida.

“Não tínhamos recurso, ele chegou ao clube sob muita desconfiança, mas havia assistido a um jogo entre Itumbiara e Morrinhos e vi um atleta maravilhoso. Ele fez uma temporada incrível no Goiás”, relembra Harlei.

Em 2017, pelo Santos, Bruno Henrique reagiu a uma discussão com jogadores do Barcelona de Guayaquil cuspindo no rosto do meia Damián Díaz. Precisou se retratar publicamente sobre o erro.

“Tive que ter cuidados para não expô-lo perante todos e dar um tiro no pé, mas conversamos muito sobre o que houve”, afirma Levir Culpi, técnico do Santos no período.

O camisa 27 ainda precisou superar um baque no último ano. Em uma jogada aparentemente comum, sofreu cinco lesões diferentes no olho direito diante do Linense, em 17 de janeiro, na estreia do Santos no Campeonato Paulista.

Foram necessários vários tratamentos e cuidados médicos para retornar. O ano ainda foi atrapalhado por um trauma na bacia e um edema na fíbula direita, osso da parte inferior da perna.

Bruno Henrique, atacante do Flamengo, durante partida pela Libertadores
Bruno Henrique, atacante do Flamengo, durante partida pela Libertadores - AFP

“Senti ele em um momento muito delicado não só da carreira, mas da vida. Ficou muito mal, preocupado em ver tudo sendo interrompido por uma fatalidade. A parte emocional dele foi muito afetada. Ficamos muito próximos nesse momento”, diz o técnico Jair Ventura, que trabalhou no Santos de janeiro a julho de 2018.

No Flamengo campeão da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, Bruno Henrique atingiu o ápice sob o comando de Jorge Jesus. Neste ano, foi convocado por Tite pela primeira vez para a seleção brasileira. Maduro taticamente, recebeu elogios públicos do treinador português.

“É um jogador completo. Tem muito talento e uma coisa importante: é muito humilde, trabalha para o time. A maior parte dos atacantes só gosta de jogar com a bola. O Bruno não é assim", disse Jesus após a vitória por 4 a 1 sobre o Corinthians, no Maracanã, no último dia 3.

A equipe enfrenta o Ceará às 21h30 desta quarta-feira (27), no Maracanã, pela 35ª rodada do Brasileiro, em jogo que marcará a celebração das conquistas do fim de semana.

Ao todo, já são 31 gols de Bruno Henrique em 57 jogos no ano, 18 deles só no Brasileiro. Em sua melhor temporada pelo Santos, em 2017, ele alcançou 18 gols no total.

Também ganhou na equipe carioca maturidade e a fama de rei dos clássicos –foram 11 gols em 13 jogos contra rivais cariocas. A principal vítima foi o Vasco, com cinco gols sofridos.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.