Novo técnico do Santos foi proibido de jogar bola e ensinou Zidane a correr

Jesualdo Ferreira foi apelidado de 'o professor' e é referência para Jesus e Mourinho

Santos

Escolhido pelo Santos para suceder Jorge Sampaoli em 2020, o português Manuel Jesualdo Ferreira, 73, chega ao Brasil carregando a fama de um estudioso do futebol.

Jesualdo recebeu em Portugal o apelido de “O Professor”. Por alguns, ainda é chamado, também, de “professor dos professores” devido ao histórico de quatro décadas dedicadas intensamente ao esporte. Viver do futebol, porém, foi um caminho difícil.

Criado pelos tios quando foi para Lisboa, Jesualdo recebia apoio apenas com um objetivo, que ele cursasse a faculdade de medicina. Foi proibido de jogar futebol e não o deixaram servir o Exército, mas o sonho de entrar para o mundo do futebol jamais se apagou.

Jesualdo pelo Al-Saad (QUA) durante partida das quartas de final da Champions League da Ásia
Jesualdo pelo Al-Saad (QUA) durante partida das quartas de final da Champions League da Ásia - 7.set.2018 - Karim Jaafar/AFP

Após uma carreira pouco promissora no futebol amador, aos 20 anos, ainda na metade da década de 1960, ele iniciou o curso de educação física pelo Instituto Superior de Educação Física de Lisboa.

Poucos anos depois, entrou para a área acadêmica e foi professor de técnicos ilustres. O primeiro deles foi Carlos Queiroz, auxiliar de Alex Ferguson no Manchester United por longos anos e ex-treinador da seleção portuguesa.

Enquanto lecionava, começou a trabalhar nas categorias de base do Benfica, em 1979. Em 1981, recebeu de um ex-aluno o convite para treinar o Rio Maior, seu primeiro trabalho em um time profissional.

Passou por outros clubes como Torreense e Academica até voltar ao Benfica, desta vez como auxiliar de Antonio José Conceição Oliveira, o Toni, ex-meio-campista do Benfica e da seleção portuguesa.

Jesualdo acompanhou o amigo no Bordeaux, quem, em 1995, recebeu promissor meia chamado Zinédine Zidane, então com 21 anos. A passagem foi inesquecível.

“Quando chegamos, ouvimos do presidente que Zidane só jogava 60 minutos, que não aguentava correr”, conta Toni à Folha. A informação não foi bem aceita. “Rebatemos, falamos que um jogador top não poderia jogar só isso”.

O trabalho com Zidane foi realizado à exaustão para melhorar a resistência física da jovem promessa. No fim da temporada, o atleta foi um dos que mais atuou pela equipe e acabou sendo negociado com a Juventus (ITA).

“Sabíamos que ele seria o melhor do mundo três vezes? Não, só víamos que era um talento. Falamos para ele, você aprenderá três coisas conosco: correr, correr e correr.”

O trabalho no Bordeaux foi o fim da parceria entre os amigos. Mas a carreira de Jesualdo decolou depois disso.

Ele foi o responsável por modernizar e consolidar o Sporting Braga como a quarta força de Portugal. Contratado pelo Porto, foi tricampeão nacional de 2007 a 2009.

O aperfeiçoamento de desempenho de jogadores é um dos principais cartões de visitas do técnico, elogiado por potencializar nomes como o atacante colombiano Radamel Falcao e do meia português Ricardo Quaresma, ambos na passagem pelo Porto.

“Jesualdo me ensinou o que um atacante precisa e deve fazer. Corrigiu o meu futebol”, disse Falcao, em entrevista à revista France Football.

“Ele exigia muito de nós, mas é sempre tranquilo e sereno”, conta o atacante brasileiro Bruno Moraes, ex-Porto e atualmente no Trofense (da terceira divisão portuguesa).

No currículo, porém, tem passagens sem muito brilho por Málaga (ESP), Panathinaikos (GRE) e Sporting (POR).

Orgulha-se pelo fato de ter sido campeão nacional em diferentes continentes. Levantou troféus na África, com o Zamalek (EGI), e na Ásia à frente do Al-Sadd (QAT).

Jesualdo virou referência para uma legião de técnicos portugueses e tem o respeito de Jorge Jesus e José Mourinho.

Ele assina contrato para ser o 16º estrangeiro a comandar o Santos até o fim de 2020 e chega em um momento de alta dos técnico estrangeiros no Brasil, principalmente pelo sucesso de Jesus no Flamengo.

Em julho, porém, Jesualdo disse ao jornal português A Bola que o conterrâneo estava trabalhando “na pior liga do mundo”, em referência à competitividade do futebol brasileiro, que dificulta o sucesso dos técnicos. A declaração foi rebatida pelo treinador do clube rubro-negro dias depois.

“Jesualdo tem uma personalidade totalmente distinta da de Jorge Jesus”, afirma Toni. “Conversamos muito. Há momentos em que a questão financeira não é o mais importante. Não é isso que o traz ao Brasil. Sei que é a paixão que tem que o leva a esse desafio.”

Ele deverá ser apresentado pelo clube no dia 6 de janeiro.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.