Descrição de chapéu The New York Times

Com grego, esloveno e camaroneses, elite da NBA agora é global

Liga tem hoje número inédito de atletas estrangeiros jogando no mais alto nível

Marc Stein
The New York Times

Foi no Jogo das Estrelas de 2018, em Los Angeles, que perguntei a Steve Nash, um dos atletas importados mais bem-sucedidos na história da NBA, se a liga estaria preparada um dia para que esse evento fosse entre um time dos Estados Unidos e um time com atletas do resto do mundo.

“Estamos chegando lá”, disse Nash.

Nash indicou que 2022 talvez fosse “o momento de tentar”, como um tributo de 30º aniversário ao Dream Team americano original, que assombrou o mundo na Olimpíada de Barcelona. Essa previsão parece cada dia mais inteligente.

Um item que compreensivelmente não recebeu destaque na última semana, em meio à tristeza causada pela morte de David Stern, antigo comissário da NBA, foi um anúncio da liga detalhando os primeiros resultados da votação dos torcedores para o Jogo das Estrelas do mês que vem, em Chicago.

O atleta que recebeu mais votos na conferência leste foi Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, que é grego. No oeste, o jogador mais votado foi Luka Doncic, do Dallas Mavericks, que é esloveno.

As votações dos torcedores sempre causam indignação, por um motivo ou outro. Tacko Fall, do Boston Celtics, um jogador pouco usado, ficou em sexto lugar entre os alas e pivôs do leste, e Alex Caruso, do Los Angeles Lakers, que ficou em oitavo entre os armadores do oeste, são as causas primordiais de reclamação, na rodada inicial de votação.

Mas quase ninguém contestou o fato de que LeBron James ficou abaixo de Giannis e Luka, embora tenha conduzido o Lakers a um começo de temporada com 30 vitórias e apenas sete derrotas, com a ajuda de Anthony Davis.

Giannis Antetokounmpo (de preto), grego do Milwaukee Bucks, e Joel Embiid, camaronês do Philadelphia 76ers
Giannis Antetokounmpo (de preto), grego do Milwaukee Bucks, e Joel Embiid, camaronês do Philadelphia 76ers - Sarah Stier - 25.dez.19/AFP

Antetokounmpo foi eleito o melhor jogador (MVP) da NBA no ano passado e vem jogando ainda melhor na atual temporada.

Doncic ainda não participou de jogos de playoff na liga, mas se estabeleceu como consenso entre os 10 melhores da NBA, com ridículas médias de 29,6 pontos, 9,7 rebotes e 9 assistências por partida em sua segunda temporada conduzindo o Mavericks, um azarão, a um surpreendente início de 23 vitórias e 14 derrotas.

Diferentemente da era de Nash, quando a liga incluía muitos jogadores estrangeiros de sucesso, mas apenas alguns poucos que eram vistos como parte da elite, hoje existem diversos atletas internacionais jogando nesse nível, além de Antetokounmpo e Doncic.

A dupla camaronesa Joel Embiid, do Philadelphia 76ers, e Pascal Siakam, do Toronto Raptors, vem registrando números espantosos, que garantem vaga para os dois no Jogo das Estrelas.

Nikola Jokic, da Sérvia, que joga pelo Denver Nuggets, a despeito de números um pouco piores que os da temporada passada, continua a ser a peça central inquestionável de um time com o segundo maior número de vitórias no oeste.

Rudy Gobert, francês, do Utah Jazz, talvez não chegue ao seu primeiro Jogo das Estrelas no mês que vem, porque uma reputação como excelente defensor, a exemplo da sua, historicamente não ajuda muito na campanha por vagas no jogo das estrelas.

Mas ele teve tamanho impacto no desempenho do Jazz que seu nome pode ser encontrado na lista de candidatos ao MVP do site Basketball Reference, em 10º lugar.

Karl-Anthony Towns, do Minnesota Timberwolves, nascido em Nova Jersey mas jogador da seleção da República Dominicana, jogou os dois últimos Jogo das Estrelas e teria uma terceira participação garantida não fosse uma recente lesão no joelho e a queda do desempenho do Timberwolves, que começou a temporada com 10 vitórias e 8 derrotas, mas agora tem 14 vitórias e 22 derrotas.

Se somarmos a isso candidatos importantes a vagas no Jogo das Estrelas, como Ben Simmons, da Austrália e do Philadelphia 76ers, e o lituano Domantas Sabonis, do Indiana Pacers, além de participantes dos últimos anos, como Nikola Vucevic (Montenegro), do Orlando Magic; Al Horford (República Dominicana), do 76ers; Marc Gasol (Espanha), do Toronto Raptors; Goran Dragic (Eslovênia), do Miami Heat; e o letão Kristaps Porzingis, do Mavericks, o argumento fica ainda mais claro.

Talvez não existam 12 jogadores internacionais com nível incontestável de Jogo das Estrelas no momento, mas é cada vez mais lícito perguntar se, como previu Nash, estamos muito longe disso.

O esloveno Luka Doncic, do Dallas Mavericks, é um dos candidatos ao prêmio de MVP
O esloveno Luka Doncic, do Dallas Mavericks, é um dos candidatos ao prêmio de MVP - Tom Pennington/AFP

Porzingis está se recuperando de uma lesão que levou a uma parada prolongada. Dois dos jovens colegas canadenses de Nash –Shai Gilgeous Alexander, do Oklahoma City Thunder, e Jamal Murray, do Nuggets–também mostraram potencial para o evento.

Entre as cinco escolhas mais altas em drafts (recrutamento) recentes para a NBA estavam Deandre Ayton, das Bahamas, selecionado pelo Phoenix Suns, e o canadense RJ Barrett, do New York Knicks.

Do jeito que as coisas estão indo, parece que a justiça matemática é o único obstáculo a que o comissário Adam Silver tente um formato Estados Unidos contra resto do mundo no Jogo das Estrelas.

Na noite de abertura desta temporada, havia 108 jogadores nascidos fora dos Estados Unidos nos elencos dos 30 times da NBA, o que significa que mais de 300 dos jogadores da liga são americanos. Não seria justo que dois grupos de tamanhos tão diferentes batalhassem cada qual por 12 vagas no Jogo das Estrelas.

Mas tampouco acredito que a liga esteja determinada a manter o sistema adotado dois anos atrás, sob o qual os dois jogadores mais votados se tornam capitães e escolhem seus times sem respeitar as distinções entre conferências.

Apesar de toda a empolgação e debate que uma escolha feita para a televisão, como essa, despertou por um jogo que vinha perdendo interesse para os espectadores, o entusiasmo quanto ao primeiro jogo no novo formato, em 2018, não se repetiu na edição de 2019, em Charlotte.

Não se esqueça de que Silver, ao propor inicialmente a introdução de um torneio jogado dentro da temporada, a partir da temporada 2020-2021, imaginava que as semifinais dessa competição pudessem substituir de vez o Jogo das Estrelas.

A liga recuou quanto a essa proposta depois que os times e o sindicato dos jogadores expressaram resistência a um torneio realizado depois de dezembro, mas a ideia original de Silver indica que a NBA continua preocupada com o baixo interesse pelo evento.

Afinal, na conferência MIT Sloan Sports Analytics, realizada em março de 2019 em Boston, Silver declarou que o Jogo das Estrelas “não funcionava” e admitiu que as mais recentes mudanças equivaliam a “colocar um brinco em um porco”.

Talvez os astros internacionais que sucederam a Nash, Dirk Nowitzki, Pau Gasol, Tony Parker e todos os grandes jogadores estrangeiros da década passada jamais venham a ter a oportunidade de encarar os americanos no Jogo das Estrelas.

Talvez restringir esse formato ao Rising Stars Game, que opõe jogadores em seu primeiro e segundo anos na liga, como a NBA vem fazendo nas últimas temporadas, seja a melhor solução.

Mas o simples fato de que o debate não para de crescer pode representar o tributo mais adequado que podemos fazer a Stern –porque internacionalizar a NBA, antes de qualquer outro esporte americano e em grau tão maior, é parte muito importante de seu legado.

Tradução de Paulo Migliacci

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