Descrição de chapéu Copa Libertadores 2020

Argentino Eduardo Coudet testa paixão e loucura à frente do Inter

Técnico busca pôr time gaúcho na fase de grupos da Libertadores a partir desta terça

São Paulo e Santos

Eduardo Coudet, 45, é uma unanimidade. Não pelo seu trabalho como treinador, passível de discordâncias entre torcedores e atletas dirigidos por ele, mas por duas características sempre ressaltadas de sua personalidade.

Chacho, como o argentino é conhecido, é um apaixonado por futebol. E também completamente louco.

Coudet comanda nesta terça-feira (4) o Internacional na estreia da equipe gaúcha na Copa Libertadores, contra a Universidad de Chile, às 18h, em Santiago (Fox Sports transmite), pela segunda fase eliminatória do torneio continental.

Pôr o Inter na fase de grupos da competição certamente o ajudará a ganhar o carinho do torcedor colorado, da mesma forma que ele conquistou, como jogador e técnico, o apreço de diferentes torcidas na Argentina.

 

​Chacho, apelido que ganhou de um amigo na infância que gostava de Chacho Cabrera, um ex-atleta do Vélez Sarsfield, começou sua carreira nas categorias de base do Platense.

Por causa do comportamento difícil na escola, seus pais decidiram mandá-lo para um psicólogo que, segundo o próprio Coudet, ficou sempre esperando. Isso porque seu consultório era muito próximo do Platense, para onde o garoto fugia em busca de bater uma bola. Foi fugindo de uma consulta que ele fez um teste e conseguiu entrar no clube.

"Era incrível a personalidade que ele já tinha de jovem. Um dos meus colaboradores me falou de um garoto muito atrevido na base. Nós o chamamos, ele começou a treinar com o time principal e, num jogo contra o Boca de [César Luis] Menotti, estreou", conta à Folha Ricardo Rezza, o técnico que deu a Coudet sua primeira chance no futebol profissional.

Eduardo Coudet, técnico do Internacional, em treino da equipe no Parque Gigante, em Porto Alegre
Eduardo Coudet, técnico do Internacional, em treino da equipe no Parque Gigante, em Porto Alegre - Ricardo Duarte/Internacional

O atrevimento não era mostrado apenas dentro de campo. Certa vez, o atleta decidiu sair dirigindo o ônibus do clube e, após não conseguir fazer uma curva em uma rua apertada próxima ao estádio, desceu do veículo e o deixou estacionado no meio da via.

"Gostava de travessuras", diz dando risada o ex-treinador Rezza. "Em algum momento, tive que lhe dizer 'cuidado', para não exagerar. Depois ele foi se controlando."

Volante pela direita, o jogador, na época com cabelos longos, se transferiu ao Rosario Central, onde caiu nas graças dos torcedores. Aguerrido, mas também técnico, desenvolveu uma relação de amor com o clube. E uma de ódio com o Newell's, maior rival do Central.

"Um torcedor do Newell's a menos no mundo", disse Chacho, em entrevista à Revista El Gráfico, quando questionado sobre aceitar na família um genro torcedor do adversário.

Campeão da Copa Conmebol no Central, ele passou ainda pelo San Lorenzo, onde também conquistou a torcida, antes de seu grande salto na carreira, no River Plate.

Coudet celebra gol contra o Boca na Bombonera e é acompanhado por D'Alessandro (deitado) e Cavenaghi (camisa 30)
Coudet celebra gol contra o Boca na Bombonera e é acompanhado por D'Alessandro (deitado) e Cavenaghi (camisa 30) - Enrique Marcarian/Reuters

Na infância, por influência do pai, que era dentista do Boca Juniors, frequentou a Bombonera em jogos do time na década de 1980. Mas foi no Monumental de Nuñez que Coudet encontrou o seu lugar no futebol.

Na equipe de Buenos Aires, onde estreou o cabelo platinado e conquistou cinco títulos do Argentino, também aprontou das suas. Durante uma concentração, pegou um extintor e disparou para cima. O pó bateu no teto e foi direto nos olhos de Esteban Fuertes, seu colega de clube.

Apesar das brincadeiras, era visto como um bom companheiro e importante para o aprendizado dos atletas mais novos. No River, viu surgir Andrés D'Alessandro, hoje seu comandado no Inter.

"Sempre foi uma pessoa que me orientava, tanto dentro como fora. Eu jogava próximo dele, então o escutava bastante. Era insuportável! Mas no bom sentido. Ajudava muito em nossa organização [no jogo]", lembra Alejandro Domínguez, que jogou com Coudet no River.

Além da Argentina, o volante jogou também na Espanha, no México e nos Estados Unidos. Aos 37 anos, pendurou as chuteiras no futebol norte-americano.

A primeira oportunidade como técnico só veio em 2015, quando o Rosario Central abriu as portas para a estreia de Eduardo Coudet no comando. Quem trabalhou com ele diz que Chacho tem muita facilidade no trato com os jogadores. Uma história envolvendo o zagueiro Javier Pinola ilustra esse perfil.

Torcedor fanático do River Plate na infância, Pinola estava há seis meses em Rosario quando recebeu convite tentador do técnico Marcelo Gallardo para jogar no time do coração. Pinola, contudo, recusou a oferta, comunicando a Gallardo que havia se comprometido com Coudet. Depois de mais seis meses, o defensor enfim se transferiu ao River.

 

No Racing, clube para o qual se transferiu em 2017, Coudet também conseguiu convencer os atletas com o seu modelo de jogo intenso e ofensivo, levando a equipe à conquista da Superliga 2018/2019.

"Chacho tem uma maneira de trabalhar que é 100% exigente, buscando a perfeição. Deixou um legado muito grande no Racing com um estilo de pressão que suas equipes impunham. Seu trabalho era pressionar, pressionar e recuperar a bola muito rápido", diz Fernando Gayoso, preparador de goleiros do Racing na época.

Gayoso também corrobora a visão do técnico como um bom gestor de elencos. "Em um momento, houve um atraso sobre o acordo da premiação pelo campeonato. Ele conversou com o capitão, com o grupo, e se pôs à disposição para intermediar isso com dirigentes para acelerar o pagamento. Estava como a cabeça do grupo."

Mariano Dalla Libera, amigo de Coudet e seu companheiro nos tempos de Platense, conta que ele se envolve tanto com suas equipes a ponto de, em seu aniversário de 44 anos, ter encomendado um bolo no formato do Cilindro, o estádio do Racing.

Agora, no Internacional, o argentino tenta implementar sua forma de ver o futebol, apaixonada e intensa, dentro e fora de campo. Quem convive com o treinador no dia a dia conta que nenhum detalhe passa despercebido, desde o corte da grama do CT até os horários de viagem.

A ver se os colorados, nas arquibancadas do Beira-Rio, embarcarão na sua loucura.

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