Presidente do PSG e ex-secretário da Fifa são acusados de corrupção

Para procuradores suíços, Nasser al-Khelaifi incitou Jérôme Valcke a cometer crime

Tariq Panja
Londres | The New York Times

Procuradores públicos suíços acusaram nesta quinta-feira (20) Nasser al-Khelaifi, um empresário do Qatar que é uma das figuras mais proeminentes do futebol, de incitar um antigo secretário-geral da Fifa a violar a lei, e o dirigente em questão, Jérôme Valcke, de aceitar propinas e de impropriedades administrativas criminosas.

As acusações surgiram mais de dois anos depois que as autoridades suíças anunciaram ter iniciado uma investigação sobre os lucrativos contratos de direitos de transmissão televisiva da Copa do Mundo conquistados pela BeIN, uma rede de televisão sediada no Qatar e dirigida por Khelaifi. A rede vem sendo um dos maiores compradores mundiais de conteúdo esportivo por boa parte da última década.

No período, a importância e o destaque de Khelaifi no futebol cresceram, fazendo dele uma das figuras mais importantes do setor. Ele preside não só a BeIN mas também o Paris Saint-Germain, o mais poderoso clube de futebol da França, e é membro do conselho da Uefa, a organização que comanda o futebol europeu, e do conselho de uma aliança dos principais clubes do continente, a Associação de Clubes Europeus.

Valcke, ex-secretário-geral da Fifa, e Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG
Valcke, ex-secretário-geral da Fifa, e Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG - Fabrice Coffrini - 11.out.17/AFP e Karim Jaafar - 15.jan.19/AFP

Uma acusação mais séria de suborno foi abandonada depois que Khelaifi chegou a um acordo extrajudicial com a Fifa, a organização que comanda o futebol mundial.

No comunicado sobre a acusação distribuído pela Procuradoria-Geral da justiça suíça, Khelaifi e um outro homem, cujo nome não foi citado, são acusados de incitar Valcke a cometer “impropriedades administrativas” com agravantes, ao lhe oferecer “vantagens indevidas”.

De acordo com o indiciamento, as acusações contra Khelaifi parecem derivar da compra de uma casa de luxo na ilha italiana da Sardenha, cujo uso ele ofereceu a Valcke no período em que este administrava a Fifa. O tribunal estimou que o valor do uso da casa por 18 meses sem pagamento de aluguel equivalia a 1,8 milhão de euros (R$ 8,53 milhões).

Valcke, que como administrador da Fifa era responsável pela Copa do Mundo, enfrenta acusações muito mais sérias. O francês, que não foi mais visto em público desde que caiu em desgraça e deixou a Fifa, em 2015, também é acusado de aceitar propinas e de falsificar documentos.

As acusações de suborno contra Valcke e o outro homem mencionado se relacionam à cessão de direitos de transmissão sobre a Copa do Mundo e outros torneios da Fifa na Itália e Grécia, até 2030, de acordo com o indiciamento.

Valcke, que está excluído de qualquer função no futebol internacional por 10 anos, por diversas violações de ética, não respondeu de imediato a um email solicitando comentários.

O caso de Khelaifi vem sendo um grande embaraço para a Uefa, que vem sendo questionada regularmente sobre a manutenção do empresário como membro de seu conselho ainda que esteja sendo investigado criminalmente. Khelaifi foi acusado pelas autoridades francesas em um caso separado de suborno.

A Uefa não respondeu de imediato a um pedido de comentário. Mas seu presidente, Aleksander Ceferin, e Andrea Agnelli, o presidente da associação de clubes europeus, expressaram apoio a Khelaifi anteriormente.

O indiciamento também aponta que a Fifa, que realizará a Copa do Mundo de 2022 no Qatar, havia chegado a um “acordo amigável” não especificado com Khelaifi, e que havia abandonado uma queixa relacionada a acusações de suborno no processo de concessão de contratos de transmissão à BeIN para as Copas do Mundo de 2026 e 2030, que foram conquistados pela companhia qatariana no mesmo momento em que Valcke recebeu o direito de uso da casa na Sardenha.

A Procuradoria-Geral suíça afirmou que as leis do país só permitem que subornos sejam investigados caso haja queixa. “A retirada da queixa significou que um dos requisitos processuais para ação contra os responsáveis por esses delitos já não estava sendo cumprido”, segundo a procuradoria.
A Fifa não comentou o acordo.

Em comunicado, Khelaifi disse que, “depois de uma investigação exaustiva de três anos de duração, para a qual colaborei plena e abertamente com a Procuradoria-Geral da Suíça, fico feliz por as acusações de suborno referentes às Copas do Mundo de 2026 e 2030 terem sido retiradas”.

“As acusações não têm –e jamais tiveram– qualquer base legal ou factual”, acrescentou.

A declaração também aponta que ele solicitou que as autoridades suíças realizem um inquérito “sobre a conduta da investigação”, devido aos “vazamentos constantes”.

Tradução de Paulo Migliacci

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