'Descobridor' de Messi lamenta, mas entende desejo de saída do Barcelona

Minguella foi um dos responsáveis pela chegada do argentino ao clube há 20 anos

São Paulo

"É sobre Messi [que você quer falar], não é?", pergunta Josep María Minguella, 79. Ele é um dos barcelonistas mais serenos na confusão em que se transformou o clube desde terça-feira (25), quando chegou a mensagem eletrônica em que Lionel Messi comunicava a vontade de deixar o Camp Nou.

Vários ex-presidentes do Barcelona passaram a ser procurados pela imprensa para dar opiniões sobre a situação e o que é possível fazer para manter o atacante argentino na Catalunha.

Minguella nunca foi presidente, apenas candidato ao cargo. Mesmo assim, é figura-chave na história da equipe nos últimos 40 anos. Pulando de galho em galho entre o trabalho de agente de futebol e cargos diretivos no clube, ele participou das negociações que terminaram nas contratações de Rivaldo e Romário.

É creditado como o espanhol que levou Maradona para a Catalunha em 1982 e "descobridor" de Lionel Messi.

Ele e Carles Rexach, ex-jogador e técnico do Barcelona, foram responsáveis pela viagem inicial de Messi aos 13 anos para Barcelona, em 17 de setembro de 2000. O menino estava acompanhado pelo pai, Jorge.

"É uma situação delicada. Estou triste, claro. Se Lionel realmente sair [do Barcelona], vai haver uma revolta muito grande contra os dirigentes. Eles são os culpados por contratações equivocadas e pela ausência de um plano a longo prazo. A sensação que passa é que o time em campo não vai a lugar nenhum. Messi tem 33 anos. Ele quer vencer nos anos que lhe restam na carreira. Mas se ele quiser ir mesmo, o que podemos fazer? É a vida", resume.

"O Barcelona já superou grandes reveses e foi adiante. Esse será mais um, se acontecer. Será difícil. Mas o clube vai sobreviver", completa.

Minguella já ouviu até pedidos para conversar com Messi e sondá-lo sobre a possibilidade de ficar. Ele afirma que há muito tempo não vê ou fala com o argentino pessoalmente.

"Claro que é um choque que um jogador como Messi queira deixar o Barcelona, mas ele não teve uma reunião com o [técnico Ronald] Koeman e disse que estava mais fora do que dentro do clube? Ele não acredita no projeto esportivo e não acredita nos dirigentes. Ainda gostaria que ele mudasse de ideia e ficasse, mas não vejo as coisas assim", finaliza.

O veterano dirigente entende os pedidos de entrevista porque a história do jogador seis vezes eleito melhor do mundo e reconhecido com o maior da história do Barcelona está ligada à dele.

Acompanhado por Rexach, Minguella recebeu o garoto e o pai no aeroporto e os colocou no hotel Plaza, no bairro de Sants, em um quarto com vista para a plaza de España, um dos pontos mais importantes da cidade.

Minguella é personagem central também em outro episódio dos mais lembrados na vida do então garoto Messi: o contrato escrito no guardanapo.

"O pai dele estava nervoso porque Leo treinava havia algumas semanas e nada acontecia. Ninguém dizia nada ou lhes dava um documento para assinar. Jorge havia largado seu emprego na Argentina e Leo deixado a família. Sentimos que algo tinha de ser feito", relembra.

Minguella levou Jorge Messi para um almoço no Club Tenis Pompeia (em que era presidente). À mesa, ele e Rexach pegaram o pedaço de papel, rabiscaram um contrato e deram para o pai de Lionel assinar. Ele o fez. Não tinha valor legal algum, mas dava-lhes tempo para convencer a cartolagem do Barcelona. Porque havia mais de um que não acreditava no jogador. Achavam que o futuro craque era pequeno e magro demais.

Foi quando o agente lançou mão de outro expediente. Escreveu um relatório para o presidente Joan Gaspart em que comparava a criança com Maradona. Contou com a ajuda de Tito Villanova, então técnico das categorias de base e que anos depois comandaria Messi no profissional. Deu certo.

Minguella ainda acha que o pior momento da sua vida de barcelonista foi quando Maradona acabou vendido ao Napoli, em 1984. Na época, o jogador tinha 24 anos e ainda estava por viver o ápice na carreira.

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