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Time busca vaga na Premier League com matemática e dono apostador

Brentford disputa jogo de R$ 1,1 bilhão contra o Fulham nesta terça-feira (4)

São Paulo

Matthew Benham, 52, acredita que o futebol deve se guiar por modelos matemáticos. "Quando há uma dúvida, eu confio nos números. Porque eles não mentem jamais", afirma.

A recompensa para Benham, dono do Brentford, pode chegar nesta terça-feira (4). Se derrotar o Fulham, às 15h45 (com transmissão da ESPN Brasil), na final dos playoffs da Championship, a segunda divisão inglesa, a equipe chegará à Premier League pela primeira vez na história.

Em números, isso significa cerca de 170 milhões de libras (R$ 1,1 bilhão) em direitos de televisionamento, premiações e receita de bilheteria (se os torcedores puderem voltar aos estádios) na próxima temporada. O jogo é conhecido como "o mais valioso do futebol" por isso.

Fundado em 1889, o Brentford não atua na elite do país desde que foi rebaixado, em 1947. O possível acesso possibilitará jogar a primeira divisão no seu novo estádio a ser inaugurado, o Brentford Community Stadium, com capacidade para 18 mil espectadores.

No seu jogo mais importante nos últimos 73 anos, o time colocará em campo a visão do dono, que fez fortuna como apostador profissional. Em 2012, com o clube na quarta divisão e correndo risco de falência, o empresário doou 500 mil libras (R$ 3,25 milhões pela cotação atual). Meses depois, o comprou.

Desde então, investiu cerca de 90 milhões de libras (R$ 585 milhões) na agremiação. Benham é dono de uma empresa que calcula modelos esportivos de resultados e tendências para apostadores. Do escritório da companhia em Londres, analistas enviam dados sobre a partida em andamento para o celular do técnico, o dinamarquês Thomas Frank.

Além do treinador, o elenco tem seis jogadores da Dinamarca, resultado de outra experiência bem-sucedida de Benham. Em 2014, ele comprou o FC Midtjylland, que estava na segunda divisão do país. A equipe ascendeu e foi campeã nacional três vezes desde então.

 Pontus Jansson, do Brentford (à esq.) disputa bola durante a semifinal dos playoffs da segunda divisão
Pontus Jansson, do Brentford (à esq.) disputa bola durante a semifinal dos playoffs da segunda divisão - John Sibley-26.jul.20/Reuters

O credo implantado no Midtjylland e no Brentford é que quem souber explorar as brechas do futebol terá sucesso mesmo sem o dinheiro dos concorrentes.

O time inglês terminou em terceiro na fase de pontos corridos da Championship deste ano com a quinta menor folha de pagamento entre os 22 participantes. Os dois primeiros colocados, Leeds United e West Bromwich Albion, subiram automaticamente. As equipes que terminam do terceiro ao sexto disputam os playoffs.

Para superar os rivais mais endinheirados, a política do Brentford é usar números e estatísticas no futebol de maneira exaustiva, tentando olhar os dados com ângulos diferentes.

O modelo foi chamado de "moneyball", expressão popularizada pelo livro do mesmo nome, escrito pelo jornalista Michael Lewis, e depois transformado em filme, em que é descrita a estratégia esportiva do Oakland A's na Major League Baseball.

Com menos recursos que os rivais, o A's rotineiramente chega aos playoffs graças a uma estratégia de recrutamento de jogadores que usa tabelas matemáticas em direções opostas ao senso comum do esporte.

Matthew Brenhan não gosta da comparação. "Quem leu o livro ou viu o filme pode ter a impressão errada do que fazemos. Não é a mesma coisa. Não fazemos Moneyball porque levamos em conta também modelos tradicionais. Tentamos mesclar novas visões com coisas tradicionais", afirma.

Como muitos outros times, o Brentford tem observadores que percorrem o Reino Unido e outros países atrás de possíveis reforços. Mas o objetivo, é achar o talento bruto, que será lapidado para depois ser vendido com lucro. Isso significa que o avaliador precisa notar características que nem sempre podem ser vistas por olhos menos treinados.

O Brentford tem uma equipe de profissionais que levantam informações do passado pessoal e profissional do possível reforço: como ele se comportou nas categorias de base, que problemas criou, como se relaciona com a família e outros jogadores.

Sem dinheiro para grandes astros, a força do Brentford tem sido o conjunto, que não pode ser comprometido por atletas talentosos, mas de ego inflado.

As estatísticas são compartimentadas em grupos que levam em conta a posição, os números nas partidas e o que o atleta cobiçado faz em cada faixa do campo. Isso tudo para imaginar se ele se encaixa na maneira de jogar do Brentford.

O uso original e exaustivo de estatisticas fez com que o clube popularizasse no dicionário de jornalistas esportivos britânicos e nerds do futebol as variáveis xG e xA. As siglas representam expectativa de gols e de assistências. São as estatísticas do que o jogador deveria ter produzido na partida, mas não conseguiu.

A filosofia foi espalhada para outros clubes, mas o Brentford realmente a leva a ferro e fogo. A crença é que xG e xA traduzem mais fielmente o desempenho do atleta naqueles 90 minutos do que apenas gols marcados e assistências feitas. Naquele dia, o chute que não entrou ou o passe não aproveitado não deram certo por alguma razão. Mas, se mantidos de forma consistente, darão.

Um exemplo de como o Brentford leva a um patamar superior (ou exagerado) dados estatísticos que estão à disposição dos outros clubes é a análise da região do campo onde costumam sair os gols. O clube montou um modelo próprio para determinar, pelo estilo de jogo que adota, quais são esses espaços. Assim, contrata jogadores que se adaptam a ele.

Nos treinos, há espaços com marcas de "não chute" desenhados no gramado, para forçar que a conclusão da jogada aconteça na área em que a probabilidade de gol é maior.

A comissão técnica tem especialistas em cobranças de faltas e escanteios, pela constatação de que cada vez mais partidas são decididas nessas jogadas.

O Brentford extinguiu suas categorias de base em 2016. O raciocínio de Benham é que o clube investia em atletas jovens, os moldava e, quando eles estavam próximos dos 17 anos e assinariam contrato profissional, eram levados por valores simbólicos.

Em vez disso, ele criou um time B com jogadores dispensados por grandes clubes e que, na opinião dos analistas da agremiação, deveriam receber uma segunda chance. A versão alternativa disputa amistosos no decorrer da temporada, e quem se destaca ali vai para o time principal.

A fama de descobridor de talentos da agremiação faz com que ela consiga vender alguns deles, com lucro. Sob a administração de Benham, o saldo entre contratações e venda é positivo em 70 milhões de libras (R$ 455 milhões).

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