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The New York Times

História do tênis contraria ideia de pôr um asterisco no US Open

Sem espectadores e com menos estrelas, Grand Slam ainda terá campeões coroados

Christopher Clarey
The New York Times

O US Open, que começou em Nova York nesta segunda-feira (31), tem quadros longe de completos, extraordinariamente longe, mas será que devemos acrescentar um asterisco ao nome do torneio deste ano?

Até o começo da noite do domingo, 24 das 100 líderes do ranking feminino estavam ausentes, entre as quais 6 das 8 primeiras colocadas e 3 das 4 detentoras atuais dos títulos de Grand Slam: Ashleigh Barty, Simona Halep e Bianca Andreescu.

Ainda que Serena Williams e Naomi Osaka estejam presentes, o torneio deste ano tem o menor número de jogadoras Top 10 –quatro– de todos os US Open disputados desde que surgiu o ranking da Associação de Tênis Feminino (WTA, na sigla em inglês), em 1975.

Do lado masculino, só 12 dos 100 líderes do ranking estavam ausentes, na noite de domingo, mas este será o primeiro torneio de Grand Slam do século 21 a não contar tanto com Roger Federer quanto com Rafael Nadal. Stan Wawrinka, que venceu três grandes torneios de simples, também estará de fora.

As ausências são causadas primariamente pela preocupação quanto a viagens e jogos em meio à pandemia do coronavírus. Alguns astros estão se recuperando de lesões. Federer, o superastro suíço, passou por duas cirurgias nos joelhos este ano. Andreescu está enfrentando dificuldades para se manter em forma desde que venceu o US Open, no ano passado.

O resumo é que o torneio deste ano está diminuído, mas, se vamos começar a acrescentar asteriscos aos torneios de Grand Slam com quadros de competidores reduzidos, a caixa de asteriscos precisa ser bem grande.

“É difícil, é complicado”, disse Steve Flink, um historiador americano do tênis. “Há muitas coisas a levar em consideração ao longo dos anos”.

Para começar, temos a era amadora, que durou até 1968 e proibia profissionais de tomar parte nos quatro grandes torneios: o Campeonato Australiano, o Campeonato Francês, Wimbledon e o Campeonato dos Estados Unidos. Esses torneios só se tornaram Abertos quando os profissionais foram enfim autorizados a participar.

Até 1968, os principais jogadores do tênis masculino –como Jack Kramer, Ken Rosewall e Rod Laver– costumavam se profissionalizar depois de deixar sua marca no tênis amador, o que significava que os grandes torneios da era raramente incluíam todos os melhores jogadores de tênis masculino, apenas os melhores entre os “amadores”, alguns dos quais recebiam pagamentos por baixo da mesa para ajudá-los a continuar formalmente amadores.

A hipocrisia ajudou a causar mudança, mas também distorceu o registro histórico. Laver, que venceu os quatro grandes torneios em 1962 e 1969, ficou inelegível para participar deles por cinco temporadas, entre essas duas datas.

Rosewall foi inelegível por 11 temporadas. Pancho Gonzalez, o carismático tenista americano que conquistou títulos consecutivos no Campeonato Americano em 1948 e 1949, ficou de fora dos maiores torneios por 18 temporadas, antes de retornar, aos 40 anos, em 1968, e chegar às semifinais de Roland Garros.

“Continuavam a existir muitos grandes tenistas amadores, mas o público sabia quem estava faltando, naqueles anos todos”, disse Flink. “As pessoas imaginavam o que teria acontecido caso Gonzalez tivesse podido jogar. Ou Laver, ou Rosewall. Eles eram os gigantes ausentes das quadras."

Essa questão não afetava o tênis feminino, que não tinha circuito profissional.

“No tênis feminino, não deveria haver distinção entre a era amadora e a era dos Abertos, porque todo mundo jogava”, disse Martina Navratilova, que se tornou uma das maiores campeãs da era ao vencer 167 títulos de simples da WTA, entre os quais 18 de Grand Slam, e 177 títulos de duplas.

Mas as mulheres líderes do tênis, no passado, às vezes interrompiam ou abandonavam suas carreiras no tênis de competição para cuidar de suas famílias, o que removia algumas das estrelas dos torneios.

Também aconteceram muitos torneios, de 1968 para cá, em que a participação de tenistas, homens e mulheres, foi truncada.

O primeiro torneio de Grand Slam –Roland Garros de 1968– foi prejudicado por protestos e greves no país e quase cancelado. Alguns dos maiores tenistas escolheram não participar, entre os quais Arthur Ashe, John Newcombe e Margaret Court, a australiana que detém o recorde de títulos de Grand Slam no tênis feminino, com 24.

Outros jogadores tiveram dificuldade para chegar a Paris. Na primeira rodada do masculino, 30 partidas terminaram por WO, e 5 dos 16 cabeças de chave nas simples desistiram do torneio.

Na década de 1970, Roland Garros em muitas edições tinha quadros fracos devido aos compromissos dos tenistas com a World Team Tennis, a liga fundada por Billie Jean King, que estava florescendo nos Estados Unidos.

Navratilova perdeu a final de Roland Garros de 1975, para Chris Evert, e só voltou a participar do torneio em 1981.

“Eu não participava por causa da World Team Tennis, e porque o torneio não parecia valer a pena”, disse Navratilova. “O dinheiro era pouco, e éramos tratados como cidadãos de segunda classe. Para que perder tempo, sabe?”.

Em 1974, Jimmy Connors conquistou 3 dos 4 títulos de Grand Slam, mas não jogou em Paris.

Evert, que conquistou o título de simples de Roland Garros sete vezes e que se destacava no saibro, não jogou o torneio em 1976, 1977 e 1978.

Sue Barker, do Reino Unido, venceu em 1976; Mima Jausovec, da Iugoslávia, em 1977; e Virginia Ruzici, da Romênia, em 1978. Nenhuma delas voltaria a vencer qualquer grande título de simples.

Isso justificaria asteriscos? Talvez, mas nesse caso eles seriam mais apropriados para o Australian Open na década de 1970, quando a escassez de dinheiro para prêmios, a localização remota e as datas inconvenientes, próximas do feriado de Natal, resultavam em quadros fracos de competidores e em alguns campeões improváveis.

Em 1976, o australiano Mark Edmondson venceu o torneio de simples masculino apesar de ocupar a 212ª posição no ranking mundial. Em 1978, a australiana Chris O’Neil venceu o título feminino quando ocupava a 111ª posição no ranking.

Bjorn Borg, o grande tenista sueco que venceu seis vezes Roland Garros e cinco títulos consecutivos em Wimbledon, só foi uma vez ao Australian Open: em 1974, aos 17 anos, e foi eliminado na terceira rodada. John McEnroe, o maior rival de Borg, só jogou pela primeira vez na Austrália em 1983.

Evert disputou o Australian Open apenas uma vez de 1971 a 1980, chegando à final em 1974. Navratilova jogou lá uma vez na década de 1970, antes de se tornar participante frequente nos anos 1980.

“Você também precisa lembrar que os grandes títulos, e o número de vitórias nesses torneios, não eram tão importantes naquela época”, disse Navratilova em entrevista na quinta-feira.

“Eu nem sabia quantos títulos tinha. O que importava era apoiar nosso circuito, a coisa mais importante para nós. Wimbledon era a joia da coroa, claro, e o mesmo valia para o US Open, mas o terceiro maior torneio do ano era o campeonato que encerrava a temporada, o campeonato Virginia Slims. Esse era considerado o terceiro grande torneio”.

As mulheres, porém, jamais tiveram um quadro tão reduzido quanto o deste ano em Nova York.

“Creio que o ano todo merece um asterisco”, disse Williams em entrevista recente. “Porque foi um ano especial, um momento na história que nunca tínhamos visto no mundo, para ser honesta –não nesta geração e não em toda a minha vida."

Seria possível argumentar que a simples realização de um US Open em 2020 é uma vitória.

Não haverá espectadores, e menos astros e estrelas, mas, salvo em caso de circunstâncias inesperadas, campeões ainda serão coroados, os mais recentes em uma longa linhagem de tenistas que conquistaram títulos de Grand Slam em circunstâncias menos que perfeitas.

Tradução de Paulo Migliacci

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