Descrição de chapéu Maradona (1960-2020)

Companheiros de seleção lamentam terem sofrido 'bloqueio' da vida de Maradona

Campeões pela Argentina com o craque relatam mensagens ignoradas e interferências

Buenos Aires

Héctor Enrique, 58, assegura não ser com tristeza que relembra a história de quando voltou a encontrar Diego Maradona depois de muito tempo. Foi num evento há alguns anos, embora o ex-companheiro não saiba precisar quando.

"Ele veio e me abraçou. Eu perguntei por que ele havia bloqueado meu número de celular", afirma o jogador, colega do camisa 10 na seleção argentina campeã de 1986, no México, e morto na última quarta-feira (25).

"Como posso ter bloqueado se nem sei como fazer isso?", teria sido a resposta do astro.

Foi o momento em que Enrique percebeu que todas as mensagens sem resposta e as ligações para a casa de Maradona com o retorno de que ele não estava eram formas de restringir o convívio entre os antigos companheiros.

O volante que passou por River Plate e Lanús não sabe dizer quem tomou essa decisão, mas presume terem sido as pessoas que estavam ao redor de Maradona nos últimos anos de sua vida.

"Quando alguém me dava um número novo dele e conseguia fazer com que atendesse, um minuto depois [outra pessoa] fazia com que desligasse", completa.

Enrique até hoje brinca ter sido o jogador que "deu o passe" para o gol do século: o segundo marcado contra os ingleses na Copa de 1986. Diego partiu do campo de defesa com a bola dominada e só parou quando a empurrou para a rede.

"Eu sempre dizia a ele que, com um passe daquele, não tinha como errar", diz com sorriso, sobre um toque de cerca de dois metros para a lateral do campo.

A queixa de Enrique não é a única. Outros jogadores também ouvidos pela Folha e que atuaram com Maradona pela seleção de 1982 e 1994 têm histórias parecidas.

"Houve um dia em que tentei falar com Diego e atendeu uma pessoa que prefiro não falar o nome. Não importa mais. Respondeu-me que Maradona não estava em casa, mas eu ouvia a voz dele ao fundo", diz Julio Olarticoechea, que jogou com o camisa 10 os Mundiais de 1982, 1986 e 1990.

A coleção de histórias lança mais uma nuvem sobre os últimos anos do craque, morto por insuficiência cardíaca crônica. Ele estava afastado do convívio diário com as duas filhas mais velhas, Dalma, 33, e Gianinna, 31, e brigava na Justiça com a ex-mulher Claudia Villafañe, 60.

As três assumiram o controle da organização do funeral e afastaram o que é chamado de "entorno" de Maradona. São as pessoas que estavam mais próximas a ele nos últimos tempos, por exemplo o advogado Matías Morla.

O volante Sergio Batista, campeão de 1986, afirma ter enviado mensagens para o celular do craque e algumas vezes recebido respostas. Mas pelo jeito de escrever e pelas palavras, considerou improvável que o próprio Diego tenha sido o responsável por elas.

Em abril do ano passado, sete integrantes da equipe vencedora do Mundial no México organizaram um almoço na casa de Carlos Bilardo, o treinador daquela seleção.

Era uma maneira de homenagear o "doutor", apelido do ex-técnico, que já atravessava problemas de saúde. Ele sofre da síndrome de Hakim-Adams, condição neurológica que tem a demência como uma das consequências. Maradona não esteve presente.

Parte dos elencos das Copas de 1986 e 1990 esteve na Casa Rosada antes da abertura do velório para o público. Tiveram uma cerimônia particular para se despedir do antigo companheiro.

Do grupo campeão mundial, Maradona foi o terceiro a morrer. O zagueiro José Luis Cuciuffo atirou em si mesmo em um acidente em 2004. Jose Luis Brown morreu no ano passado, em consequência do Alzheimer.

Os ex-companheiros de Diego concordam com a visão de que ele não tinha vida independente, como consequência de ser quem era e da fama.

Oscar Ruggeri e Maradona se abraçam durante partida da seleção argentina na Copa do Mundo de 1990
Oscar Ruggeri e Maradona se abraçam durante partida da seleção argentina na Copa do Mundo de 1990 - Patrick Hertzog - 30.jul.90/AFP

"Na seleção, em excursões pelo exterior, andávamos livremente pelas ruas. Fazíamos o que queríamos. Mas Maradona ficava trancado no quarto porque não podia sair. Ele não tinha própria vida fora de campo, e nós podemos apenas imaginar como isso tudo deve ter sido difícil", afirma o zagueiro Oscar Ruggeri.

Em participação nesta sexta-feira (27) em um programa da ESPN Argentina, canal do qual é comentarista, ele chorou ao relembrar histórias com o camisa 10.

"Eu não sei porque os gênios morrem sós. Não sei porque têm de ser assim. Por quê? Ele tinha uma família linda, não teria de ser assim", lamentou.

O isolamento que chegou a atingir os próprios familiares de Maradona também afetou os antigos amigos da seleção argentina. Mas eles preferem guardas as boas lembranças.

"Eu não quero reclamar de nada. Felizmente, em uma das últimas vezes que encontrei com Diego, lhe agradeci por tudo o que me deu na vida. Pelo menos isso eu fiz", diz Enrique.

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