Descrição de chapéu Maradona (1960-2020)

Maradona sintetiza Argentina e morre como maior mito do país

Como jogador e mesmo após aposentadoria, ele mobilizou o imaginário de uma nação

São Paulo

Há uma lenda na Argentina de que ainda hoje existem casas em que não há campainha na porta.

Nelas, qualquer visitante deve gritar “viva Perón!” para ser atendido. Mas o presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) tem detratores. O peronismo, movimento político batizado em homenagem a ele, voltou ao poder com Alberto Fernández no ano passado e enfrenta oposição.

O mesmo não acontece com Diego Armando Maradona. O 25 de novembro, dia de sua morte, o ergueu ao patamar de maior mito do país.

“Hoje é o dia mais triste da história da Argentina”, resumiu o jornalista e narrador Sebastián Vignolo, um dos rostos mais conhecidos da TV nacional.

Minutos após a confirmação da morte, os portenhos se dirigiram aos lugares mais identificados com a história do ex-jogador. O Obelisco, no centro de Buenos Aires, local da festa do título mundial de 1986. O estádio de La Bombonera, do Boca Juniors, o time do coração do ídolo. O campo do Argentinos Juniors, onde ele se profissionalizou, e que hoje leva seu nome. E o do Gimnasia y La Plata, onde era o técnico.

“Eu são sou sociólogo, mas Diego foi um sujeito que captou a essência do que é ser argentino. Ele está na psique do seu povo. Pelo fato de ter sido quem foi, a aposentadoria e os problemas que teve o fizeram ser ainda mais amado. Diego sempre teve a capacidade de se fazer querido. Mas para os argentinos, ele é muito mais do que ser idolatrado”, define Fernando Signorini, preparador físico pessoal de Maradona durante mais de uma década.

Virou lendária, quase cena de filmes de Rocky Balboa, a preparação que fez para entrar em forma antes da Copa de 1994. Isolado com Signorini e o pai, don Diego, em uma fazenda longe de tudo, com água para apenas três banhos quentes por dia, sem TV ou equipamentos especiais de musculação, ele entrou em forma para o Mundial nos Estados Unidos, o último da sua carreira.

Como se sabe, tudo acabou mal. Maradona foi flagrado no exame antidoping com efedrina, ingerido graças a um suplemento chamado Ripped Fuel, então vendido livremente em farmácias, sem prescrição médica. Os momentos mais dramáticos foram os da crise de abstinência que teve durante os quase 40 dias de isolamento.

“Foi impressionante descobrir o que ele era capaz de fazer, a força de vontade que tinha quando colocava algo na cabeça”, completa Signorini.

A mística de Maradona se tornou mais forte ainda depois da aposentadoria como jogador, em 1997. Na sua despedida, no estádio do Boca Juniors, diante do microfone, disse a frase que virou uma metáfora da sua história. A do ídolo que poderia errar fora de campo, mas dentro das quatro linhas era irretocável: “La pelota no se mancha” (A bola não fica suja).

Foi um pensamento usado depois em livros, músicas, comerciais de TV e que deu nome a programas na mídia do país.

É o mesmo Diego que captou o humor argentino à perfeição para definir o governo do presidente Eduardo Duhalde, não conhecido pela agilidade (2002-2003): “Se escapó la tortuga, maestro” (A tartaruga fugiu, professor).

Tudo o que Maradona dizia ou fazia era notícia, mobilizava e tinha a capacidade de dominar o imaginário da nação por dias. É uma ironia que o último ano de sua vida tenha sido uma peregrinação de estádio em estádio da primeira divisão argentina como técnico do Gimnasia, equipe pequena e sem títulos de expressão.

A cada partida havia uma romaria de torcedores que queriam vê-lo. Diego foi homenageado em todos os locais e uma poltrona, como espécie de trono, era colocada à beira do gramado. Em Rosário (290 km de Buenos Aires), a torcida do Newell's Old Boys fez um bandeiraço (uma aglomeração) na véspera da partida com o Gimnasia.

Reuniu milhares de torcedores. Maradona teve de ir à sacada do hotel para agradecer. Em 1993 ele atuou pelo time, mas apenas cinco vezes. Isso pouco importou.

Pai e filha em Buenos Aires em homenagem a Diego Maradona nesta quarta (25)
Pai e filha em Buenos Aires em homenagem a Diego Maradona nesta quarta (25) - Ronaldo Schemidt/AFP

Na última vez em que esteve em La Bombonera, teve de tomar remédios, porque os médicos temeram que passasse mal de emoção.

Ele caminhou pelo gramado parecendo estar grogue, agarrado pelo braço por um funcionário do clube de La Plata. Passou a mão no gramado e o beijou em seguida. As quase 60 mil pessoas passaram boa parte dos 90 minutos gritando seu nome. Para completar, o Boca Juniors foi campeão argentino.

Entra para a mitologia de Maradona que ele chegou ao Gimnasia jurando que o time, em situação desesperadora na tabela, não seria rebaixado. Em campo, a queda aconteceu.

Mas a AFA (associação de futebol do país) mudou o formato da liga e cancelou os descensos. Fora de campo, mesmo sem interferir diretamente, Diego conseguiu o que prometeu. Uma versão menor do tapa na bola contra os ingleses em 1986, "la mano de Dios" (a mão de Deus).

Foram 12 meses em que recebeu todas as homenagens que poderia. Ainda viu Mauricio Macri, presidente argentino de quem não gostava, sair da Casa Rosada para dar lugar à volta do kirchenismo, movimento político do qual dizia ser partidário.

“As pessoas identificam Diego com Perón, o que é um erro. Diego não é nem [Carlos] Gardel. Diego é mais que Gardel. É mais que o Papa Francisco. Quando Maradona ganhava, a gente ganhava. Quando ele caía, caíamos todos. Maradona é a Argentina”, definiu Sergio Goycochea, o goleiro que ao lado de Maradona levou a Argentina à final da Copa de 1990.

Um Mundial que é lembrado com carinho pelos torcedores, apesar da derrota na final para a Alemanha.

Isso porque o camisa 10, já viciado em cocaína, com o tornozelo direito o tempo inteiro inchado e em uma equipe envelhecida, foi à final. Perdeu (com polêmica), mas ao ouvir o público no estádio Olímpico de Roma a vaiar o hino argentino, ele esperou as câmeras de TV o focalizarem e com, cara de fúria, se referiu aos italianos, para o mundo todo ler os seus lábios:

“Hijos de puta!”. E isso é Argentina.

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