Curso para jovens atletas combate violência sexual com didatismo

Ação do COB dá ferramentas de autoproteção para adolescentes e ajuda a derrubar mitos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Curitiba

Diante da necessidade de abordar o sensível tema do combate ao abuso e assédio no ambiente esportivo, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) passou a promover, desde a última semana, um curso online e gratuito voltado à autoproteção de jovens atletas de 12 a 17 anos.

Nos últimos anos, seguindo uma tendência da sociedade em geral, o esporte passou a se deparar cada vez mais com esse assunto, historicamente subnotificado.

Denúncias de vítimas que foram silenciadas por anos enfim foram reverberadas no Brasil e no mundo, tornando o silêncio sobre a violência sexual uma opção cada vez mais insustentável para todos que orbitam esse meio.

De acordo com Caroline Arcari, mestra em educação sexual e consultora em projetos da área, a estimativa no Brasil é de que até 27% dos meninos e 36% das meninas com até 12 anos de idade já passaram, estão passando ou passarão por algum tipo de violência sexual.

Arcari participou da construção do curso junto com o IOB (Instituto Olímpico Brasileiro), braço de educação do COB. Há poucos dados específicos disponíveis sobre a questão na esfera esportiva.

“O curso chega nesse momento em que a sociedade está vendo a necessidade dele. Muitos atletas passaram a denunciar situações de quando eram crianças e estavam nas escolinhas de base, no começo de suas carreiras. Tudo isso está vindo à tona porque a gente começou a falar de violência sexual. É um processo muito recente”, afirma a consultora à Folha.

O curso, chamado “Abuso e Assédio Fora de Jogo”, foi montado a partir de uma preocupação com a linguagem para conversar com os jovens que serão impactados pelo seu conteúdo. Ele está organizado em três temas principais: “aprendendo sobre abuso e assédio”; “reconhecendo os sinais”; e “buscando ajuda”.

Num contexto em que esse assunto acaba muitas vezes negligenciado dentro de casa e nas escolas, a preocupação é esclarecer questões sobre partes íntimas; consentimento; o que é violência sexual; as diferenças entre um toque abusivo e e um toque protetivo; para quem pedir ajuda; o que é uma relação saudável entre adultos e jovens etc.

“Muitas vezes isso não é falado de forma didática, com o objetivo de proteger, e as crianças ficam vulneráveis”, afirma Arcari.

Apesar da complexidade do tema, a solução defendida pela especialista na área é ser o mais elucidativa possível, com exemplos de situações reais que aconteceram no esporte e depoimentos de atletas vítimas de violência para contar como vivenciaram aquilo até encontrarem força e segurança para denunciar.

Para dirimir dúvidas sobre nuances de toques ou tratamentos, por exemplo, a estratégia foi desenhar os problemas, literalmente.

“Situações baseadas em casos reais, que aparecem no curso, estão ilustradas. Seja de uma treinadora que passou do ponto e cometeu assédio moral, de um técnico que ultrapassou os limites elogiando de forma enfática o corpo da menina, dando presentes. Tudo isso está desenhado para que fique bastante explícito e o adolescente faça conexão se aquilo já aconteceu com ele, se alguém o trata com um tom malicioso ou tem um toque desnecessário”, diz Arcari.

Caroline Arcari, mestra em educação sexual e consultora em projetos de enfrentamento a violência sexual
Caroline Arcari, mestra em educação sexual e consultora em projetos de enfrentamento a violência sexual - Arquivo pessoal

Ela destaca ainda que é necessário quebrar o mito de que vítimas em geral, principalmente crianças e adolescentes, mentem com frequência sobre terem sofrido violência sexual.

“Existem vários estudos que mostram que é muito raro que elas mintam, e que é muito fácil para uma pessoa que tenha boa formação e esteja envolvida nessa rede de proteção perceber se aquilo é uma mentira, uma memória construída. Esses casos acontecem, mas refletem menos de 3% de todas as situações”, relata.

Portanto, não devem servir como desculpa para pessoas e entidades deixarem de tomar providências básicas ao receberem uma denúncia.

“A primeira postura precisa ser de acreditar, porque a maior parte dessas situações, quando um adolescente revela, realmente aconteceu. Precisa superar esse mito e acolher. A função das instituições que recebem a denúncia não é decidir se houve violência ou não, mas encaminhar os casos suspeitos, porque a verificação vai ser feita pelas instituições responsáveis por isso”, afirma Arcari.

Antes do material voltado aos jovens, o COB criou o Curso de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e Abuso no Esporte para adultos, que já teve a participação de mais de 8.000 atletas, treinadores e membros de organizações esportivas.

No ano passado, o Conselho de Ética do comitê suspendeu o ex-presidente da Confederação Brasileira de Handebol Ricardo Souza por dois anos, após ele ter sido acusado de assédio moral e sexual por uma funcionária da entidade. O dirigente afirma que só responde sobre o assunto na Justiça. O COB também possui um canal de comunicação para o recebimento de denúncias.

Cinco mãos seguram uma barra usada nas competições de ginástica
Treino de ginástica em instituição dos Estados Unidos; o esporte é um dos que mais sofrem com denúncias de abuso - Idris Solomon - 9.dez.19/Reuters

Na última semana, John Geddert, ex-técnico da seleção feminina de ginástica artística dos EUA, cometeu suicídio após virem a público acusações formais contra ele de abusos e tráfico de pessoas.

Geddert tinha ligações com o médico Larry Nassar, que também fez carreira na ginástica e de 2017 a 2018 acabou condenado três vezes por abusos e pornografia infantil. Centenas de mulheres, entre elas várias atletas, o acusaram de violência sexual.

O caso de Nassar é o mais emblemático dentro do esporte e virou tema de pelo menos dois documentários recentes (“Atleta A”, disponível na Netflix, e “No Coração do Ouro”, da HBO), mas está longe de ser o único e infelizmente não será o último. Torna-se necessário, então, munir os jovens atletas de ferramentas de autoproteção.

“Ações voltadas à prevenção do assédio e abuso devem promover um ambiente seguro, acolhedor e respeitador para todos. Avançamos nesse processo de trazer informação e conhecimento para que os atletas possam ter um ambiente saudável e prazeroso”, diz Rogério Sampaio, diretor-geral do COB e campeão olímpico de judô.

As inscrições para o curso podem ser feitas sem prazo definido, clicando aqui.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.