Neurociência ganha adeptos no esporte, mas efeitos ainda carecem de estudo

Equipes testam equipamentos para monitorar e estimular atividade cerebral nos treinos

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São Paulo

A neurociência tem ganhado terreno como aliada da preparação de atletas no Brasil e no mundo, mesmo que ainda haja incertezas sobre a eficácia de alguns métodos e resistência em parte da comunidade esportiva.

Equipes de futebol, vôlei e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) são exemplos de quem já recorre à ciência que se propõe a estudar o funcionamento do cérebro e o seu papel no comportamento humano.

Na outra ponta, empresas e profissionais autônomos, como neurologistas, psicólogos e educadores físicos, difundem tecnologias que avaliam a performance cognitiva de um atleta, estimando, por exemplo, o seu grau de concentração para tomadas de decisão.

Larissa Zink avalia performance cognitiva do time de vôlei do Campinas/Renata
Larissa Zink avalia performance cognitiva do time de vôlei do Campinas/Renata - Vôlei Renata/Divulgação

O ponteiro Gabriel Vaccari, 24, do Campinas/Renata, uma das principais forças na Superliga Masculina de Vôlei, aprova algumas atividades propostas nos treinamentos do time. Entre elas, se movimentar em quadra com um óculos especial, o senaptec strobes.

Equipado com lentes de cristal líquido, os óculos bloqueiam a visão parcial ou totalmente do atleta, enquanto este realiza fundamentos como recepção e passe.

“Os treinos com óculos estimulam a visão periférica. As informações visuais comprometidas nos ajudam a melhorar a leitura de jogo e a antecipação das jogadas”, diz Vaccari, que vive a expectativa de uma convocação para os Jogos de Tóquio.

O coordenador técnico da equipe de Campinas, André Heller, ex-jogador de vôlei e campeão olímpico nos Jogos de Atenas-2004, é um entusiasta da neurociência. Ele chegou ao time paulista no começo de 2010, em fim de carreira, e conheceu o trabalho de Larissa Zink, educadora física que passou a incorporar tecnologias no dia a dia do clube.

Heller e Zink, com o apoio da neurologista Paula Azevedo, fundaram a empresa Neuroesporte, com treinos e capacitação à distância para quem deseja ministrar as técnicas. “Antes achávamos que o único caminho para buscar a qualidade era treinar até a exaustão. Agora existem recursos que podem nos ajudar a atingir uma alta performance mais rapidamente”, diz Heller.

O Sesi deverá incorporar técnicas de performance e avaliação cognitiva a partir de março, em seu centro de referência em ciência do esporte que atende a 22 modalidades. A prioridade será aplicar tecnologias como a de avaliação de capacidade cognitiva em atletas de alto rendimento.

A psicóloga esportiva do Sesi, Mariana Penteado Gusson, em treinamento com os equipamentos de realidade virtual
A psicóloga esportiva do Sesi, Mariana Penteado Gusson, em treinamento com os equipamentos de realidade virtual - Bruno Santos/Folhapress

Treinadores e psicólogos do clube estão em fase de capacitação para manusear equipamentos elaborados pela Sensorial Sports, uma startup de Ribeirão Preto. Um deles é capaz de monitorar níveis de tomada de decisão, atenção, tempo de reação e visão periférica com a ajuda de um óculos de realidade virtual.

“Acreditamos que a questão cognitiva seja um diferencial para obter melhores resultados, por conta do equilíbrio entre as modalidades. Há uma equiparação dos modelos de preparação física, treinos técnicos e táticos”, afirma Fabiano Teixeira, supervisor do centro de referência em ciências do esporte do Sesi.

Um grupo de pesquisadores, liderados pelo professor Alexandre Moreira, professor da escola de educação física da Universidade de São Paulo (EEFF-USP), acaba de concluir estudos sobre consequências do uso de estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC).

A técnica, utilizada com 12 jogadores do time sub-20 de futebol do Red Bull, consiste em conectar dois eletrodos no couro cabeludo do atleta. Eles transmitem corrente elétrica de baixa intensidade, remodulando áreas do cérebro responsáveis por sensações de bem-estar, controle da respiração e frequência cardíaca.

Segundo Moreira, a ETCC pode ser uma ferramenta promissora para acelerar o processo de recuperação de atletas após o esforço em treinos ou competições. “Esses resultados ilustram como a ciência do esporte, pode ser incorporada no dia a dia dos atletas de uma forma mais sistematizada e regular”, afirmou o professor da USP.

Não houve relato de efeitos colaterais graves entre os 12 jogadores. Três deles relataram que as sessões de estimulação melhoraram o seu desempenho em campo.

No Corinthians, a médica Taline Santos da Costa estudou a técnica ao aplicá-la em atletas do futebol feminino depois das partidas e também no dia seguinte. “O objetivo é reduzir o efeito da fadiga pós-jogo e propiciar uma recuperação mais rápida, influenciando positivamente no desempenho esportivo”, afirma.

Por enquanto, Red Bull e Corinthians não tem pretensão de incorporar a ETCC sistematicamente em sua rotina. “O futebol não tem uma ciência exata. Em campo, são características bem heterogêneas, que permitem, por exemplo, que o mais fraco tenha a chance de vencer”, diz Sandro Orlandelli, coordenador de futebol do Red Bull. “Primamos por obedecer a ciência, não mecanismos baseados em resultados de uma forma muito simples.”

Para Aline Wolff, psicóloga do COB (Comitê Olímpico do Brasil), a neurociência tem sido oferecida “como a salvação da lavoura”. Ela aponta que há escassez de evidências científicas em alguns métodos, principalmente entre os atletas de alto rendimento.

“A tecnologia pode contribuir com detalhes, como na tomada de decisão. Existem treinos importantes realizados, como os de neurofeedback, mas não são para todos, porque cada atleta tem a sua individualidade”, afirma Wolff.

O neurofeedback ficou conhecido após o brasileiro Felipe Wu ganhar medalha de prata no tiro esportivo nos Jogos do Rio-2016, modalidade que requer altíssimo nível de concentração. A técnica consiste em conectar um aparelho de eletroencefalografia na testa do atleta e, com a ajuda de um software, mapear as suas reações cerebrais.

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