Descrição de chapéu The New York Times

Atletas negros lutam por espaço e reconhecimento na patinação artística

Única integrante negra da equipe nacional dos EUA atraiu atenção de Michelle Obama

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Patrice Peck
The New York Times

Starr Andrews se recorda dos olhares que encontrava nos vestiários, em suas primeiras competições de patinação artística. Ela se lembra dos pedidos de colegas que queriam tocar seus cabelos crespos.

“A primeira coisa que me ocorria é que isso acontecia porque sou negra”, disse Andrews, 19, em uma entrevista recente. "E eu não queria que aquela fosse a primeira coisa que me surgia na cabeça, mas não conseguia evitar pensar daquele jeito."

Andrews, a única integrante negra da equipe nacional de patinação artística dos Estados Unidos, às vezes ainda registra a mesma sensação indesejada, no rinque e fora dele: a de que talvez seja vista como diferente de seus pares em um esporte que ama desde que era pequena e assistia às aulas de patinação da mãe.

Starr Andrews se apresenta em evento de patinação artística nos EUA
Starr Andrews se apresenta em evento de patinação artística nos EUA - Orlando Ramirez - 17.jan.21/USA TODAY Sports

Mas o gelo veio a se tornar o espaço em que Andrews celebraria a diferença.

Ela o fez de maneira especialmente enfática no ano passado, em um período em que muitos atletas estavam sendo pressionados a “calar a boca e jogar”, depois de abandonarem quadras e campos em apoio ao movimento Black Lives Matter. Para Andrews, porém, competir era a melhor maneira de se pronunciar.

Em um torneio virtual em julho, ela patinou ao som de “Black Like Me”, de Mickey Guyton, uma canção country sobre a desigualdade racial que foi lançada depois que a polícia matou George Floyd. Andrews encerrou sua apresentação com um sorriso e o punho erguido na saudação Black Panther.

Vídeos de sua apresentação foram assistidos mais de 200 mil vezes online. Seus fãs incluem Guyton e Michelle Obama, que compartilhou um dos vídeos e escreveu: “A todos os garotos negros que batalham pela excelência diante daqueles que duvidam deles: continuem na luta”.

Andrews com certeza pretende continuar batalhando. E o mesmo vale para outros patinadores negros que estenderam seu alcance criativo, conquistando apoio e reconhecimento em um esporte do qual se sentiam excluídos.

Um exemplo é Elladj Baldé, 30, um patinador canadense que estava em turnê pelo mundo com espetáculos de patinação até que a pandemia o forçou a voltar para casa. Ele não demorou a criar uma fundação para ajudar a diversificar o esporte, e se se tornou grande astro da mídia social, depois de postar vídeos que o mostram patinando alegremente ao ar livre, usando roupas casuais e fazendo manobras que pouco se assemelham ao seu programa olímpico.

E há também Joel Savary, 34, treinador radicado em Washington que criou uma fundação para promover a diversidade e lançou um livro independente intitulado “Why Black and Brown Kids Don’t Ice Skate”.

Uma das alunas de Savary é Kaitlyn Saunders, que trocou seus patins de gelo por um par de patins com rodas, por um breve período no ano passado, e se apresentou na Black Lives Matter Plaza em Washington ao som de “Rise Up”, de Andra Day, uma canção de 2015 que fala sobre perseverança. Kaitlyn, 10, repetiu a apresentação como parte da cerimônia de posse do presidente Joe Biden, desta vez acompanhada ao vivo por Day.

Esses esforços foram muito elogiados, mas determinar se o esporte vai se tornar mais inclusivo depende de sua capacidade para promover mudanças concretas. Nas verbas. No treinamento e seleção de jurados. (Baldé, Savary e Andrews dizem que não se recordam de ver qualquer pessoa negra avaliando suas apresentações.) E, por fim, no cerne do que significa ser um patinador artístico.

Um avanço e um baque

Em 1986, Debi Thomas, dos Estados Unidos, se tornou a primeira patinadora negra a vencer o campeonato mundial de patinação artística solo. Isso aconteceu sete anos depois que Tai Babilonia, cuja mãe era negra e cujo pai tinha origens filipinas e indígenas, venceu um título mundial de duplas, com Randy Gardner.

Na Olimpíada de Inverno de Calgary, em 1988, Thomas terminou em terceiro lugar e conquistou a primeira medalha olímpica de um atleta negro nos Jogos.

De lá para cá, porém, apenas um outro patinador com ascendência negra —Robin Szolkowy, da Alemanha, bronze nas duplas em 2010 e 2014— conquistou medalhas.

Dominado por patinadores brancos europeus e norte-americanos durante décadas, o esporte, em seu nível mais elevado, se diversificou primordialmente com a chegada de patinadores do leste da Ásia ou americanos com origens asiáticas.

Na olimpíada de 2018, metade dos atletas na equipe americana de patinação artística tinha ascendentes asiáticos. No campeonato mundial de Estocolmo, semana passada, os principais candidatos ao título masculino eram Nathan Chen, dos Estados Unidos, cujos pais emigraram da China, e Yuzuru Hanyu, do Japão, medalhista de ouro nas duas últimas Olimpíadas de inverno.

A recepção a uma nova categoria demográfica nem sempre foi calorosa.

Tiffany Chin, que em 1985 se tornou a primeira patinadora não branca a conquistar um título solo americano na categoria adulta, recordou em uma entrevista ao Huffington Post em 2018 que, no começo de sua carreira, “uma menininha me disse que eu era realmente boa mas nunca seria campeã, porque patinadoras artísticas têm cabelos loiros e olhos azuis, e eu não”.

Depois que Michelle Kwan, nascida na Califórnia e favorita à medalha de ouro na Olimpíada de 1998, terminou derrotada por Tara Lipinski, sua colega na equipe americana, uma manchete digital no MSNBC anunciou: “Americana derrota Kwan”.

Até muito recentemente, os líderes do esporte nos Estados Unidos não monitoravam formalmente a composição racial dos competidores, jurados e dirigentes da patinação. Mas depois que o movimento Black Lives Matter ganhou força, no ano passado, a federação americana de patinação artística começou a recolher esse tipo de dado e estabeleceu grupos de trabalho para tratar de diversidade, equidade e inclusão.

A federação apontou Savary, o treinador e escritor radicado em Washington, para dois desses comitês, por conta de seu livro e de seu trabalho na Diversify Ice, a ONG que ele criou em 2017.

A federação de patinação, disse Savary, parecia especialmente impressionada com a seção de seu livro na qual ele falava sobre visitar bairros e bater às portas de famílias para determinar se havia crianças interessadas no esporte. A liderança da Diversify Ice inclui Pooja Kalyan, única patinadora de ascendência indiana na equipe dos Estados Unidos, e Eliot Halverson, que conquistou títulos nacionais na categoria júnior e como iniciante, e se identifica como “latinx” e trans não binário.

“Quando eu estava trabalhando em campo todos os dias com essas questões, por meio da Diversify Ice, outras pessoas não viam valor em tornar a patinação artística mais equitativa para os patinadores não brancos”, disse Savary. “Foi uma reviravolta completa."

Uma recomendação dos grupos de trabalho envolvia estabelecer um fundo para bancar concorrentes promissores, em memória de Mabel Fairbanks, uma patinadora de ascendência negra e indígena que se tornou treinadora conhecida, depois que a discriminação a levou a ser impedida de competir, na década de 1930.

Seus protegidos incluem Babilonia e Gardner, nos anos iniciais de suas carreiras, e Atoy Wilson, cuja vitória em 1966 na divisão de iniciantes o tornou o primeiro patinador negro a conquistar um título nacional americano.

A primeira dotação oferecida pelo fundo, em valor de US$ 25 mil, foi conferida a Andrews em janeiro.

Os custos da patinação artística –Savary estima que algumas pessoas gastem mais de US$ 50 mil ao ano para tentar chegar à elite do esporte– e o acesso limitado aos rinques impedem muita gente, de qualquer que seja a raça, de ingressar nas categorias competitivas do esporte.

Savary fez da acessibilidade de custo uma parte importante da missão da Diversify Ice, na esperança de que mais participação crie uma zona de conforto para os patinadores não brancos, que muitas vezes se sentem isolados.

Mas ele e Baldé afirmam que a cultura rígida do esporte desestimula a participação negra tanto quanto os custos o fazem. A gama estreita de música preferencial, os tipos físicos, as fantasias e os passos de dança criam uma sensação de claustrofobia.

Os elementos subjetivos do sistema de classificação, que incluem notas baseadas na interpretação pessoal da música e na tradução emocional da coreografia, criam dificuldades delicadas para os patinadores artísticos negros. Muitos dizem que se sentem compelidos a buscar se adequar ao molde tradicional dos astros de um esporte que não representa sua identidade ou sua cultura.

Baldé, campeão nacional juvenil canadense em 2008, se apresentava principalmente acompanhado por música clássica, o que é comum no esporte. Mas em seus cinco anos finais de competição, ele começou a incorporar mais funk e hip-hop de artistas negros e latinos —como James Brown, Bruno Mars e T-Pain– às suas apresentações.

Apoiando a próxima geração

Como Kaitlyn, Starr Andrews conquistou muitos fãs aos nove anos de idade, quando ela se apresentou com uma coreografia criada por sua mãe, ao som de “Whip My Hair”, de Willow Smith, um hino do “girl power”. Um vídeo da apresentação no YouTube foi visto mais de 56 milhões de vezes, e continuava a ser o momento mais celebrado de Andrews nos rinques até o ano passado.

Mas a apresentação ao som de “Black Like Me” se tornou sua favorita.

Pouco importa que, ao fazê-la em competição, ela tinha ficado em 13º entre 17 participantes.

“As notas decepcionaram, mas não era esse o motivo do programa”, disse Andrews. ‘O objetivo do programa era divulgar que é difícil estar no esporte sendo uma das poucas pessoas negras”.

Tradução de Paulo Migliacci

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