Em crônica de 1952, Lygia Fagundes Telles mostra que única certeza é o imprevisível

Escritora paulistana colaborou com a Folha nas décadas de 1940 e 1950

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A romancista e contista Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritoras brasileiras vivas, com mais de 80 anos de produção literária contínua. Sua extensa obra se inicia com a publicação de "Porão e Sobrado" (1938) e reúne clássicos como "Ciranda de Pedra" (1954) e "As Meninas" (1973).

Lygia, que tem 98 anos, foi coladoradora regular da Folha da Manhã e da Folha da Tarde ao longo das décadas de 1940 e 1950. Como parte da série Colunas Eternas, que celebra os 100 anos da Folha recuperando textos de importantes colunistas do jornal, republicamos agora a crônica "Então, adeus!".

O texto narra um encontro ao acaso em uma igreja baiana, que dá à cronista uma certeza: aquele momento jamais irá se repetir. Mas, ao final, descobre que, na estranheza do mundo, é melhor não ter certeza de nada.

retrato em preto e branco de mulher branca sentada em uma poltrona, apoiando a cabeça em uma das mãos. ela olha para a câmera e sorri levemente
A escritora Lygia Fagundes Telles em sua casa, em São Paulo, em 1995 - Juan Esteves - 26.nov.1995/Folhapress

Então, adeus!

8 de junho de 1952

Isto aconteceu na Bahia, numa tarde em que eu visitava a mais antiga e arruinada igreja que encontrei por lá, perdida na última rua do último bairro. Aproximou-se de mim um padre velhinho, mas tão velhinho, tão velhinho que mais parecia feito de cinza, de teia, de bruma, de isopor do que de carne e osso. Aproximou-se e tocou o meu ombro:

—Vejo que aprecia essas imagens antigas —sussurrou-me com sua voz débil. E descerrando os lábios murchos num sorriso amável: —Tenho na sacristia algumas preciosidades. Quer vê-las?

Solícito e trêmulo foi-me mostrando os pequenos tesouros da sua igreja: um mural de cores remotas e tênues como as de um pobre véu esgarçado na distância; uma Nossa Senhora de mãos carunchadas e grandes olhos cheios de lágrimas; dois anjos tocheiros que teriam sido esculpidos por Aleijadinho, pois dele tinha a inconfundível marca nos traços dos rostos severos e nobres, de narizes já carcomidos...

Mostrou-me todas as raridades, tão velhas e tão gastas quanto ele próprio. Em seguida, desvanecido com o interesse que demonstrei por tudo, acompanhou-me cheio de gratidão até a porta.

—Volte sempre —pediu-me.

—Impossível —eu disse —Não moro aqui, mas, em todo caso, quem sabe um dia... —acrescentei sem nenhuma esperança.

—E então, até logo! —ele murmurou descerrando os lábios num sorriso que me pareceu melancólico como o destroço de um naufrágio.

Olhei-o. Sob a luz azulada do crespúsculo, aquela face branca e transparente era de tamanha fragilidade que cheguei a me comover. Até logo? ... "Então, adeus!", ele deveria ter dito. Eu ia embarcar para o Rio no dia seguinte e não tinha nenhuma ideia de voltar tão cedo à Bahia. E mesmo que voltasse, encontraria ainda de pé aquela igrejinha arruinada que achei por acaso em meio das minhas andanças? E mesmo que desse de novo com ela, encontraria vivo aquele ser tão velhinho que mais parecia um antigo morto esquecido de partir?!...

Ouça, leitor: tenho poucas certezas nesta incerta vida, tão poucas que poderia enumerá-las nesta breve linha. Porém, uma certeza eu tive naquele instante, a mais absoluta das certezas: "Jamais o verei". Apertei-lhe a mão, que tinha a mesma frialdade seca da morte.

—Até logo! —eu disse cheia de enternecimento meu seu ingênuo otimismo.

Afastei-me e de longe ainda o vi, imóvel no topo da escaderia. A brisa agitava-lhe os cabelos ralos e murchos como uma chama prestes a extinguir-se. "Então, adeus!", pensei comovida ao acenar-lhe pela última vez. "Adeus".

Nesta mesma noite houve clássico jantar de despedida em casa de um casal amigo. E, em meio de um grupo, eu já me encaminhava para a mesa, quando de repente alguém tocou o meu ombro, um toque muito leve, mais parecia o roçar de uma folha seca.

Voltei-me. Diante de mim, o padre velhinho sorria.

—Boa noite!

Fiquei muda. Ali estava aquele de quem horas antes eu me despedira para sempre.

—Que coincidência... —balbuciei afinal. Foi a única banalidade que me ocorreu dizer. —Eu não esperava vê-lo... Tão cedo.

Ele sorria, sorria sempre. E desta vez achei que aquele sorriso era mais malicioso do que melancólico. Era como se ele tivesse adivinhado meu pensamento quando nos despedidmos na igreja e agora então, de um certo modo desafiante, estivesse a divertir-se com a minha surpresa. "Eu não disse até logo?", os olhinhos enevoados pareciam perguntar com ironia.

Durante o jantar ruidoso e calorente, lembrei-me de Kipling. "Sim, grande e estranho é o mundo. Mas principalmente estranho..."

Meu vizinho da esquerda quis saber entre duas garfadas:

—Então a senhora vai mesmo nos deixar amanhã?

Olhei para a bolsa que tinha no regaço e dentro da qual já estava minha passagem de volta com a data do dia seguinte. E sorri para o velhinho lá na ponta da mesa.

—Ah, não sei... Antes eu sabia, mas agora já não sei.

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