Sarcasmo marca texto e trajetória de Barbara Gancia

Jornalista lembra com saudades da coluna em que respondia a leitores

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Buenos Aires

O primeiro contato de Barbara Gancia, 63, com a Folha foi por meio do dinossauro Horácio, personagem criado por Mauricio de Sousa, que, nos anos 1960, era publicado no suplemento Folhinha. "Eu me divertia com aquela tirinha, mas quem imaginaria que começaria aí uma relação com a Folha que marcou para sempre a minha vida?", conta Barbara. "Hoje estou aposentada, faz mais de sete anos que saí do jornal, mas as pessoas ainda acham que eu estou na Folha, a minha imagem ficou colada com a do jornal e acho isso ótimo".

Muita coisa aconteceu desde as leituras das aventuras daquele filhote de Tiranossauro Rex até hoje. Barbara escreveu textos e colunas para Ilustrada, Esporte, Cotidiano e Revista da Folha, sempre com a marca da irreverência, da provocação e da perspicácia que a transformaram numa verdadeira marca do jornal. O diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, a define como "nossa Fran Lebowitz tapuia, só que mais engraçada, com texto inteligente e sarcástico ao mesmo tempo".

A experiência de mais sucesso dentro da Folha, segundo a própria Barbara, foi a da coluna em que respondia a cartas de leitores, na Revista, de modo politicamente incorreto e cômico. "Tenho lembranças ótimas de várias delas. Tinha gente que escrevia para tentar 'me pegar', mas nunca conseguiram. Na verdade, me pegaram, sim, uma vez", conta. E foi quando lhe perguntaram por que o urso polar não podia comer o pinguim. "Eu não sabia que um era do polo norte e outro do polo sul".

mulher jovem está sentada em uma escrivaninha. ela apoia o rosto em uma das mãos e sorri para a câmera
A jornalista e colunista Barbara Gancia - Frederic Jean - 1993 /Folhapress

Hoje estou aposentada, faz mais de sete anos que saí do jornal, mas as pessoas ainda acham que eu estou na Folha, a minha imagem ficou colada com a do jornal e acho isso ótimo

Barbara Gancia

jornalista

Apesar de achar, hoje, que não poderia ser outra coisa que não jornalista, o ofício acabou surgindo na vida dela de modo casual. Filha do piloto de automóveis Piero Gancia e de Lulla Gancia, foi educada fora do Brasil.

"Uma vez foram me entrevistar, em Nova York, para a revista Gallery Around. O jornalista era o Antonio Bivar. Eu disse, muito bem, vou ali escrever as perguntas e as respostas e já venho", rompendo qualquer manual de jornalismo. Quem gostou de seu estilo logo de cara foi Ruy Castro, que mostrou textos dela para o então secretário de Redação da Folha Caio Tulio Costa. Este, por sua vez, a convidou para ser colunista do jornal.

"Tive várias fases, coisas que também não deram certo. Uma vez, o Matinas (Suzuki Jr., ex-editor-executivo da Folha) cismou que eu tinha de fazer uma coluna chamada Estilo e Prazer, só que eu não tinha estilo, porque não escrevia português direito, e a coluna também não tinha nenhum prazer, não deu certo".

Foi seu gesto debochado que acabou dando forma às colunas e às reportagens que fazia. E que também lhe renderam várias dores de cabeça. "Fui processada pelo Maluf, pela Heloísa Helena, pelo (legista) Badan Palhares", conta.

Mas o episódio mais marcante em sua relação com personalidades públicas foi mesmo quando, num evento, ela tentou conversar com o então prefeito Mário Covas, mas ele não lhe deu bola. "Chegou uma hora em que eu pensei: ‘Tô cagando pra essa merda aqui’. Peguei uma caneta Bic, coloquei bem dentro do ouvido do prefeito, levantei e fui embora".

Na segunda-feira seguinte, ao chegar ao trabalho, foi chamada pelo então diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho (1957-2018). “Ele me perguntou: ‘Onde você esteve no sábado?’. Mas eu não lembrava. Conforme ele foi falando, eu fui me recordando aos poucos. Aí ele disse: ‘De hoje em diante, quando você for convidada para alguma coisa pública, você estará indo pela Folha. Então, nunca mais faça isso’.”

Barbara chegou a sair do jornal, na época do Plano Collor, para morar na Europa. Mas, ao voltar, procurou de novo a Folha e voltou a escrever para o jornal. "Eu adoro a Folha, já saí em propaganda, já comprei briga, se não fosse a Folha, eu não seria jornalista. Acho que, se não fosse a Folha, eu seria uma heroinômana", diz, rindo.

mulher amassa jornal com as mãos sorrindo
Retrato da jornalista Barbara Gancia para o especial de 95 anos da Folha - Marcus Leoni - 26.fev.2016/Folhapress

Apesar de não se considerar uma pessoa diplomática, foi colocada para receber estrangeiros no jornal pelo então publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007). "Ele me colocava para falar com os estrangeiros porque eu falava idiomas e porque era uma pessoa leal. Isso é verdade, mas mal sabia ele o que eu podia causar para a imagem do jornal com meu jeito", conta, rindo.

Em sua trajetória, também passou por outros meios de comunicação, como o canal GNT, em que foi uma das apresentadoras do programa Saia Justa, e a BandNews. Colaborou, ainda, para publicações como Vogue, Senhor e outras.

"O engraçado foi ter tido toda essa carreira no jornalismo sem nunca ter dado um furo em toda a minha vida", ri.

Em 2018, lançou pela editora Planeta o livro "A Saideira", em que descreveu sua trajetória de 30 anos bebendo e como conseguiu se livrar da dependência.

Sobre o jornalismo atual, Barbara crê que vive um momento difícil, pois as fake news e a desinformação não apenas estão disseminados como "não há argumentos para desmontar essas fabricações e conspirações. Se Churchill estivesse vivo, não ia conseguir lutar contra a lacração".

Porém, se diz otimista. "É um momento difícil agora mas eu acho que isso não dura muito tempo, porque a mentira tem perna curta e o pêndulo logo vai virar para o lado da verdade. O jornalismo está em crise e acho que vai ficar assim um tempo. Mas vai ressurgir das cinzas, estamos em grande desvantagem nesse momento, mas, a longo prazo, tenho certeza de que vamos ganhar".

O engraçado foi ter tido toda essa carreira no jornalismo sem nunca ter dado um furo em toda a minha vida

Barbara Gancia

jornalista

Barbara Gancia, 63

Jornalista paulistana, Barbara Gancia foi colunista da Folha até 2014. Em sua passagem no jornal, atuou em diversas editorias. Também integrou a bancada de apresentadoras do Saia Justa, na GNT, além de ter colaborado com publicações como Vogue, Status, Elle, entre outras. Em 2018, lançou o livro "A Saideira" (ed. Planeta), em que narra sua batalha contra o alcoolismo.

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