Mulheres são o futuro da humanidade, diz médico vencedor do Nobel

Congolês Denis Mukwege fundou hospital que cuida de vítimas de violência sexual

Luciana Thomé
Porto Alegre

Um pronunciamento contundente e grave sobre o uso do estupro como arma de guerra. Denis Mukwege é um médico ginecologista mundialmente reconhecido por seu trabalho humanitário feito na República Democrática do Congo.

Vencedor do Prêmio Nobel da Paz 2018, honraria que dividiu com a ativista pelos direitos humanos iraquiana Nadia Murad, ele foi o conferencista do quarto evento da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento em São Paulo. Numa fala repleta de alteridade que emocionou a plateia, o congolês resgatou a história do seu nascimento e falou sobre a motivação para cursar medicina e a necessidade de empoderar e assegurar direitos e paz a todas as mulheres do mundo.

Fundador do hospital de Panzi, criado em 1999 na cidade de Bukavu, Mukwege é graduado em medicina pela Universidade de Burundi. E, depois de testemunhar a precariedade no atendimento a mulheres, estudou ginecologia e obstetrícia na Universidade de Angers, na França.

De acordo com ele, seu trabalho principal é atuar a favor da vida. “O homem público que me tornei, apesar de tudo, em circunstâncias que não escolhi, é movido apenas por um único objetivo: ser um defensor da vida, estar a serviço dos vulneráveis, fazer e transmitir o bem em um mundo de inversão de valores tomado de assalto pela banalidade do mal”, declarou, iniciando a sua fala.

O médico relembrou os seus primeiros dias de vida, quando, por uma série de erros durante o parto, quase não sobreviveu em consequência de uma infecção generalizada no corte do cordão umbilical.

Foi uma professora sueca, Majken Bergman, que trabalhava no posto de saúde local, quem salvou a sua vida com injeções de penicilina.

O médico Denis Mukwege em evento em Bogotá, na Colômbia, em 16 de agosto
O médico Denis Mukwege em evento em Bogotá, na Colômbia, em 16 de agosto - Raul Arboleda/AFP

Quando ele recebeu, em 2009, o Prêmio Olof Palme, a mãe de Mukwege fez questão de que a professora estivesse presente na cerimônia e no jantar em Estocolmo. “Ela é uma mulher que deu um sentido à sua vida lutando contra a mortalidade infantil e pela educação. E, se eu estou aqui hoje, é graças a essa mulher corajosa que soube dar a sua vida aos outros. Minha mãe considerava essa mulher —que abandonou tudo na Suécia para viver em um bairro pobre de Bukavu, no leste da República Democrática do Congo, para ajudar e educar as crianças— como símbolo do próprio sentido da vida.” 

A infância do médico também foi marcada pela proximidade com pessoas que procuravam ajudar os outros, como o seu próprio pai, um pastor protestante.

“O coração de meu pai, sua compaixão e seu amor por seus fiéis, e sobretudo pelos doentes —que era o verdadeiro fio condutor da sua vida—, foram uma profunda fonte de inspiração para mim, para ajudar os outros, aqueles que têm mais necessidade. Desde cedo, ocupei-me dos doentes dando-lhes remédios quando meu pai, que não tinha recursos, apenas rezava por eles. Olhando para trás, percebo que foi nesta idade, aos oito anos, que decidi me tornar um ‘muganga’, que na minha língua materna significa 'aquele que salva vidas'.”

Inspirado pela experiência paterna, incitado pela própria infância e indignado com a alta taxa de mortalidade infantil, especializou-se em pediatria e passou a trabalhar em Lemera, cidade localizada a 100 quilômetros de Bukavu.

Participou da construção de unidades de saúde e de uma escola de enfermagem para treinar novos profissionais. Mas logo a alegria deu lugar à frustração: um relatório apresentou dados sobre a alta mortalidade materna em decorrência das péssimas condições de parto.

Um verdadeiro paradoxo, pois não poderia cuidar das crianças sem antes atender as mães. “Para mim, naquele momento, ficou evidente que eu deveria me especializar em ginecologia e obstetrícia. Após a minha especialização na França, apesar de uma carreira confortável que se abria a mim, decidi retornar ao meu compromisso inicial: lutar contra a mortalidade materna e infantil nas zonas rurais. Foi o dia mais importante da minha vida depois do dia do meu nascimento. Como o escritor Mark Twain dizia tão bem, naquele dia, a minha vocação me foi ditada: dedicar minha vida à saúde e aos direitos das mulheres. Durante mais de 25 anos eu me esforcei para que na província de Kivu do Sul, de onde eu venho, as mulheres pudessem dar à luz em um hospital ou uma clínica e salvar tantas vidas humanas.”

Mas a sua segunda luta contra a mortalidade materna logo sofreu um revés, com a invasão do Zaire e o genocídio de Ruanda. O Hospital de Lemera foi atacado, causando a morte de pacientes e funcionários.

“A invasão de Lemera foi o primeiro sinal de dois dos conflitos mais letais da África. O balanço desse massacre esquecido, em que o estupro foi usado como arma de guerra, é inapelável. Mais de seis milhões de congoleses —homens, mulheres e crianças— morreram sem enterro após execuções, assassinatos, estupros sistemáticos, êxodos forçados, massacres, torturas, milhares de crianças obrigadas a ir para o exílio ou a pegar em armas contra o seu povo. Muitos não tiveram a chance de escapar da tormenta deste enésimo massacre do século 21.”

Mukwege destacou que, mais de duas décadas se passaram e esse crime nunca foi reconhecido ou julgado, mesmo depois que a ONU produziu relatórios listando os 617 crimes contra a humanidade autenticados pelos peritos legais.

“A voz das instituições regionais e internacionais nunca foi tão silenciosa, e a epopeia dos mártires congoleses nunca foi cantada por nenhum Homero da África, da Europa ou de outro lugar. Diante desse cinismo, é preciso se resignar num contexto de conflito bárbaro? Certamente que não.” Três anos depois, um novo centro médico foi erguido para seguir a luta contra as mortalidades infantil e materna —o hospital de Panzi, que completa 20 anos de existência em 2019.

No entanto, a primeira paciente de Panzi não foi até lá para dar à luz. Vítima de um estupro de extrema violência, Mukwege e sua equipe pensaram estar lidando com um caso isolado. Porém, até hoje, os casos continuam.

“Os corpos das mulheres tornaram-se um campo de batalha, e foi com terror que nós descobrimos uma nova arma terrível, barata, mas muito eficaz: o estupro cometido com extrema violência, usado como arma de guerra e método sistemático. Esses estupros estão longe de ser uma necessidade para satisfazer os desejos sexuais. Eles são o resultado de um planejamento de cada grupo armado engajado no conflito. Cada grupo armado tem seu próprio modo de operação de tortura psicológica e física. Para humilhar e destruir o tecido social de uma comunidade, as mulheres são estupradas coletivamente, com o risco elevado de contaminação pelo vírus da Aids e de doenças sexualmente transmissíveis.”

A estratégia de guerra pós-moderna, de acordo com o médico, consiste em destruir todas as gerações —presentes e futuras—, além de traumatizar comunidades inteiras, que abandonam suas terras para o benefício dos predadores de minerais.

Mukwege resumiu que, desde 1999, mais de cem mil pacientes foram atendidos no hospital de Panzi, incluindo as quase 55 mil sobreviventes de violência sexual e as mais de 40 mil pacientes que sofrem de patologias ginecológicas graves e que necessitaram, além do apoio médico, de ajuda econômica e psicológica.

“Os estupros não poupam ninguém, nem pessoas idosas nem os bebês. O horror atingiu o seu auge com os casos da operação de uma senhora idosa com mais de 80 anos e de uma menina de apenas seis meses. Imagine alguém que chegue a estuprar uma menina de seis meses. É a perda de toda a humanidade. A lembrança mais terrível foi a noite da véspera de ano-novo, que se transformou em traumática quando todas as mulheres e jovens de um vilarejo foram submetidas a atos indescritíveis diante de seus maridos e filhos.”

Diariamente, em média, dez mulheres vítimas de violência sexual são atendidas no hospital de Panzi. E o médico congolês se perguntou: ainda partilhamos da mesma humanidade?

“Não temos outra escolha a não ser responder com amor, cuidado médico, psicológico, assistência legal, econômica e reinserção socioeconômica das vítimas. Mas estamos longe de nos limitar a essa assistência. Também é preciso romper os tabus, as normas sociais, sair dos complexos de vitimização para que as mulheres se tornem atrizes de pleno direito na sociedade. Assim, além de todos esses cuidados, o empoderamento e a liderança das mulheres continuam sendo as únicas armas para transformar sua vitimização em vitória e seu sofrimento em força e em poder, para reencontrar o caminho da dignidade ultrajada por essas atrocidades.”

Salvar a vida das mulheres, por meio de sua vocação médica, é para o médico um dos sentidos de sua trajetória. Mas a sua luta é menor, quando comparada a outra.

“A minha luta é menor em relação à coragem e à resiliência das mulheres que renascem de suas cinzas para continuar este longo caminho da liberdade, da justiça e da dignidade.”

Para ele, um dos recentes momentos de choque foi quando constatou que o hospital já estava atendendo a segunda geração de vítimas. Ou seja, já havia atendido a mãe, e, agora, a filha também era vítima de violência sexual. Uma situação de gravidade extrema que, para ele, já está longe de ser classificada como crise humanitária e é, de forma mais dolorosa, uma crise da nossa própria humanidade.

“Portanto, avaliamos que os cuidados e a assistência holística fornecidos em Panzi deveriam ser reconhecidos como um padrão de direitos humanos para a reabilitação de todas as vítimas e que fossem integrados nos sistemas nacionais de saúde. Mas nossa defesa vai além do direito aos cuidados e à atenção holística. A paz, a justiça e a igualdade de gênero são as palavras-chave para um Congo e um mundo sem violência, onde as mulheres possam viver livres do medo de serem violadas.”

Ele sinalizou que um precedente encorajador é a recente condenação pelo Tribunal Penal Internacional do senhor da guerra Bosco Ntaganda por vários crimes de violência sexual reconhecidos como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Mas também afirmou que o fato ainda é uma gota de água no mar em relação a todos os danos causados pelo uso do estupro como arma de guerra em zonas de conflitos. Mukwege anunciou que, ainda neste ano, será criado o Fundo Global para Sobreviventes, para atender mulheres em necessidades específicas, apoiar a recuperação das comunidades afetadas e preencher as lacunas atuais na justiça doméstica e internacional. Ou seja, prover reparações em países que negam suas responsabilidades ou precisam de apoio para assumi-las.

Na parte final da conferência, o médico fez um chamado a todos os homens, para arregaçarem as mangas e entrarem na arena lutando ao lado das mulheres.

“A mulher é a nossa metade, ela sente o perigo ali onde não percebemos. Ela administra melhor as riquezas do que nós acreditamos e valoriza mais a vida, enquanto nós só pensamos no poder, no dinheiro e no sexo. A mulher não é uma coisa, ela está diante de nós, é o nosso alter ego. Não podemos, sozinhos, enfrentar os desafios da humanidade sem a plena participação das mulheres, seja na luta contra a pobreza, na prevenção e na resolução de conflitos ou na mudança climática. Em todos esses casos, temos a necessidade da participação ativa da mulher.”

Para Mukwege, é urgente repensar os modelos de gestão da sociedade, especialmente o modelo patriarcal, que mostrou os seus próprios limites e carrega sementes da sua própria destruição.

Ele afirmou que as mulheres são o futuro da humanidade e que um mundo melhor e mais justo é possível e está ao nosso alcance, pois campanhas como #MeToo, #BrisonsLeSilence, #NiUnaMAs foram bem-sucedidas.

“Nascer mulher não é uma maldição, pelo contrário, é uma riqueza. Vamos nos colocar ao lado delas para curar o nosso mundo ferido por causa da alienação e da dominação de 50% da humanidade. Existem escolhas que podemos fazer hoje que salvarão nossas próprias vidas amanhã. Essa escolha é a escolha da reparação, é a escolha da justiça, é a escolha da masculinidade positiva. Um mundo sem violência é possível. Um mundo sem violência sexual e de gê nero, sem discriminação racial e religiosa está ao nosso alcance. Comprometamo-nos com essa luta e, assim, daremos um sentido à nossa vida”, finalizou. 

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