Governos usam pandemia para acelerar a guerra contra a Terra, diz ambientalista indiana

Para Vandana Shiva, gigantes da tecnologia promovem ideia de que natureza precisa ser derrotada

Lígia Mesquita
S√£o Paulo

Há uma nova colonização em andamento realizada pela chamada Big Tech (Amazon, Apple, Google, Facebook), movida pelo combustível da coleta de dados, rezando a um deus chamado tecnologia para fincar suas bandeiras num território chamado mente humana.

Para a indiana Vandana Shiva, 67, doutora em f√≠sica qu√Ęntica e uma das ambientalistas mais conhecidas do mundo, essa "coloniza√ß√£o da mente" pelo modelo de neg√≥cio das gigantes de tecnologia perpetua uma vis√£o de mundo que enxerga a natureza como algo a ser derrotado e conquistado. Shiva enxerga a pandemia de coronav√≠rus como um problema ecol√≥gico e diz que a nossa sa√ļde est√° ligada √† da natureza.

Uma das vozes atuais mais cr√≠ticas da economia digital, a qual define como um modelo do ‚Äúcapitalismo de vigil√Ęncia‚ÄĚ, Shiva combate, h√° anos, a agricultura industrializada e o ‚Äúcartel do veneno‚ÄĚ, formado pelas multinacionais de agrot√≥xicos.

Ativista indiana Vandana Shiva, durante passagem pelo Brasil em 2012 para encontro sobre temas da Rio+20
Ativista indiana Vandana Shiva, durante passagem pelo Brasil em 2012 para encontro sobre temas da Rio+20 - Fabio Braga/Folhapress

Expoente do movimento antiglobalização e precursora do ecofeminismo, que vê uma associação entre a degradação da natureza e a marginalização das mulheres, Shiva foi conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento, cujo tema de 2020 é "Reinvenção do humano".

A ambientalista j√° esteve muitas vezes no Brasil e chegou a visitar a Amaz√īnia com a ent√£o ministra do Ambiente Marina Silva. V√™ com preocupa√ß√£o a gest√£o ambiental do governo Jair Bolsonaro. Segundo ela, pol√≠ticas que promovem a destrui√ß√£o do ambiente s√£o uma opera√ß√£o militar, uma guerra, e n√£o algo cultural.

A pandemia pode ser um ponto de inflexão para a urgência de políticas pró-sustentabilidade? Nossa relação com a natureza mudará?

√Č incerto se nossa rela√ß√£o com o mundo natural mudar√°, ou se a vis√£o de mundo cartesiana, baconiana, baseada na separa√ß√£o e conquista da natureza, se intensificar√° e nos levar√° ao precip√≠cio. Por um lado, voc√™ tem uma maior consci√™ncia de que a pandemia √© um problema ecol√≥gico. Corona, zika, ebola, Sars e boa parte das novas epidemias de doen√ßas infecciosas s√£o resultado da invas√£o de ecossistemas florestais. Os riscos de mortalidade aumentam, porque o mesmo modelo de agroneg√≥cio de agricultura industrializada e globalizada que est√° levando √†s queimadas da Amaz√īnia para a planta√ß√£o de soja transg√™nica tamb√©m cria doen√ßas cr√īnicas. E o mesmo modelo √© respons√°vel por 50% das emiss√Ķes de gases de efeito estufa. Ver essas m√ļltiplas crises como interrelacionadas tamb√©m cria um imperativo para reconhecer que fazemos parte da natureza e que a viol√™ncia contra ela retorna como um dano √† humanidade na forma de pandemias e mudan√ßas clim√°ticas.

Por outro lado, as Big Tech [Amazon, Apple, Facebook e Google] se baseiam na vis√£o de mundo de que devemos derrotar e conquistar a natureza. E est√£o pressionando para a agricultura digital, o que significa mais soja transg√™nica, mais queimadas na Amaz√īnia, mais pandemias, mais pessoas doentes. Nossa sa√ļde est√° ligada √† sa√ļde do planeta.

Você já disse que a nova etapa colonial é a da "colonização da nossa mente". Poderia explicar?

Na primeira coloniza√ß√£o das Am√©ricas, o cristianismo foi definido como a miss√£o civilizadora para justificar a apropria√ß√£o dos recursos. No colonialismo brit√Ęnico, o com√©rcio e o mercado foram transformados em religi√£o, o que justificou toda a viol√™ncia em nome de se ganhar dinheiro. Hoje, as ferramentas das Big Tech s√£o para a coloniza√ß√£o. A imposi√ß√£o delas √† sociedade feita sem avalia√ß√£o, debate e escolha democr√°tica se justifica com o tratamento de nova religi√£o dado √† tecnologia, que pode destruir as economias e nossa humanidade e liberdade.

Como isso se d√°?

A coloniza√ß√£o em andamento √© a coloniza√ß√£o de nossas mentes em tr√™s n√≠veis. Nossas mentes est√£o sendo colonizadas para deixar de ver a tecnologia como uma ferramenta e passar a enxerg√°-la como uma nova religi√£o, que nos torna ‚Äúcivilizados‚ÄĚ. Em segundo lugar, a mat√©ria-prima para a revolu√ß√£o digital √© o Big Data, o novo ‚Äúpetr√≥leo‚ÄĚ. Esses dados s√£o extra√≠dos de nossos corpos e mentes como a pr√≥xima mat√©ria-prima. Os Googles, Microsoft, Facebooks, Apples e Amazons s√£o exploradores e mineradores de dados. Eles s√£o os ‚ÄúBar√Ķes Ladr√Ķes‚ÄĚ de hoje, como Rockefeller [o americano bar√£o do petr√≥leo John. D. Rockefeller] e sua Standard Oil eram h√° cem anos. Finalmente, a coloniza√ß√£o da mente inclui a manipula√ß√£o de nossos pensamentos e comportamento para fins comerciais e pol√≠ticos. A economia est√° se tornando uma economia de "capitalismo de vigil√Ęncia".

Há economistas defendendo que programas de investimento sustentável podem recuperar a economia pós-pandemia e combater a mudança climática. Como derrubar a crença de que desenvolvimento sustentável não é bom para a economia?

Precisamos de um novo Acordo Verde. A primeira coisa que precisamos √© parar as invas√Ķes em nossas terras e comunidades e reconhecer que a economia global impulsionada pelas corpora√ß√Ķes √© a recoloniza√ß√£o baseada no ecoc√≠dio e no genoc√≠dio. Isso deve ser reconhecido como crime e contido. E parte dessa mudan√ßa inclui o reconhecimento de que ganhar dinheiro n√£o √© "economia". A economia √© derivada da Oikos [em grego, ‚Äėoikos‚Äô (eco) significa casa; a jun√ß√£o com o sufixo ‚Äėnomos‚Äô (nomia), que significa lei/ordem, fez surgir a palavra economia] e significa o gerenciamento e cuidado de nossa casa, incluindo o planeta como nossa casa comum. Devemos voltar para casa, para a Terra e repensar a maneira como organizamos nossas economias.

Como analisa a afirma√ß√£o do presidente brasileiro de que o desmatamento e as queimadas ‚Äúnunca terminar√£o‚ÄĚ porque s√£o algo cultural?

Destrui√ß√£o da natureza e desmatamento n√£o s√£o uma ‚Äúcultura‚ÄĚ. √Č uma guerra, uma opera√ß√£o militar. E a maioria dos governos est√° usando a pandemia para acelerar a guerra contra a Terra para criar oportunidades para seus amigos corporativos financiarem suas elei√ß√Ķes e ajud√°-los a permanecer no poder. √Č por isso que a globaliza√ß√£o foi usada para criar estados corporativos que durante a pandemia est√£o se transformando em estados de vigil√Ęncia corporativa.

Como reinventar nossa relação com o planeta?

A mentalidade de estar separado da natureza tem apenas algumas centenas de anos, √© parte do colonialismo. A reimagina√ß√£o de que precisamos √© reconhecer que somos parte da Terra, uma vis√£o de mundo que os povos ind√≠genas sustentam e que pode levar a uma reimagina√ß√£o da humanidade. Os seres humanos est√£o sendo definidos como uma "tecnologia n√£o aprimorada‚ÄĚ, que precisa de um ‚Äúupgrade‚ÄĚ por meio de ‚Äúnanopart√≠culas e intelig√™ncia artificial‚ÄĚ. A humanidade tem que escolher o que ser humano significa em um mundo p√≥s-pand√™mico. Dessa escolha depende o futuro de nossa esp√©cie.


Vandana Shiva

Nasceu na √ćndia em 5 de novembro de 1952. Graduou-se em f√≠sica na Universidade Panjab, em Chandigarh, e tem Ph.D. em filosofia pela Universidade de Western Ontario, Canad√°. Tornou-se conhecida pelo ativismo antiglobaliza√ß√£o e ambiental, tendo fundado a ONG Navdanya, que promove a biodiversidade de sementes, as planta√ß√Ķes org√Ęnicas e os direitos de agricultores. Recebeu em 1993 o Right Livelihood Award, conhecido como "Nobel alternativo". Foi conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2012.

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