'O Touro Ferdinando' é forte e fofo, mas talvez bovino demais

CHICO FELITTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O TOURO FERDINANDO (bom)
(Ferdinand)
DIREÇÃO Carlos Saldanha
ELENCO Thalita Carauta, Maisa Silva, Otaviano Costa (dubladores)
PRODUÇÃO EUA, 2017, livre
QUANDO estreia nesta quinta (11)
Veja salas e horários de exibição

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"O Touro Ferdinando" é uma história para boi ficar bem acordado. E aprender. A nova animação do estúdio Blue Sky, que fez "A Era do Gelo", é um conto de aceitação das diferenças.

O Ferdinando do título é um boizinho preto que mora num curral no interior da Espanha. Enquanto os outros bezerros sonham em ganhar arrobas e chifres para lutar melhor, Ferdinando está mais preocupado em cheirar flores.

Até que seu pai é escolhido para enfrentar o toureiro, a glória máxima que pode cair sobre um animal daquele rancho. E já dá para prever quem leva a melhor no embate da natureza contra a cultura.

Ferdinando se vê sozinho. Depois do revés maior, ele consegue fugir e, num golpe de sorte, encontra uma chácara onde se plantam flores e ele pode crescer feliz.

A história terminaria aí, mas uma série de trapalhadas acaba levando Ferdinando, adulto e com quase uma tonelada de músculos e chifres, de volta ao estábulo da infância –e às touradas de Madri.

Graficamente, o longa é um estouro da boiada. A animação é linda e de uma riqueza de detalhes que parece insuperável –até que no ano que vem outro estúdio lance uma ainda mais insuperável.

O roteiro flui com 101 cenas de ação, e a trilha sonora de pop chiclete, com músicas de gente como o rapper Pitbull, também cai como uma sela sob medida numa produção desse tipo.

A dublagem em português, com as vozes de Maísa Silva, Thalita Carauta e Otaviano Costa, é precisa e consegue adaptar bem piadas americanas que não funcionariam para o Brasil.

ÉPICO INOCENTE

Mas "Ferdinando", como um conto, parece ter ficado para trás. Por mais que a animação seja vistosa e cheia de profundidade, os personagens principais são planos. Ferdinando é só bondade. Os touros Guapo e Valente são só ambição. A menina que cria Ferdinando é só amor.

Tudo é ingênuo demais, até para um filme infantil –"Frozen" e "Moana" estão aí para mostrar que cabe complexidade em animações para as massinhas.

A narrativa do órfão que é criado num ambiente completamente distinto do seu e que retorna como o herói da mudança vem dos poemas épicos gregos para cá e já foi bem usada no universo infantil. É uma espécie de "Rei Leão" lançado 20 anos depois do desenho da Disney, só que ainda mais inocente.

O filme é baseado num conto de Munro Leaf da década de 1930. Walt Disney inclusive produziu um desenho de oito minutos em cima do mesmo conto, que ganhou o Oscar de curta em 1939.

O "elenco de apoio", uma cabra hiperativa, uma gangue de porcos-espinho larápios e um plantel de cavalos narcisistas com sotaque alemão é de uma graça fora do comum. Esses personagens, que não constavam no conto original, mostram até onde o filme poderia ir. Mas não foi.

"Ferdinando", o filme, é forte e é fofo, assim como o personagem que lhe dá nome. Mas talvez seja bovino demais para crianças nascidas no século 21.

Veja o trailer de "O Touro Ferdinando"

Veja o trailer de "O Touro Ferdinando"

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