Colecionador nega ter comprado obras de ladrão

Ruy Souza e Silva acusa Laéssio Rodrigues de Oliveira de tentativa de extorsão 

IVAN FINOTTI
São Paulo
Obras de Emil Bauch
Catálogo da coleção Brasiliana mostra as gravuras do Itaú Cultural - Reprodução

Responsável pela venda das oito gravuras de Emil Bauch para o Itaú Cultural em 2005, o colecionador Ruy Souza e Silva afirma que as adquiriu de uma loja londrina no ano anterior, e não do ladrão Laéssio Rodrigues de Oliveira, como este diz em carta enviada à Folha há duas semanas.

Souza e Silva, ex-marido de Neca Setubal e ex-genro do banqueiro Olavo Setubal (1923-2008), e Laéssiohaviam se cruzado algumas vezes anteriormente.

Em 2007, em uma investigação da Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal, Souza e Silva espontaneamente devolveu uma série de obras que instituições listaram como tendo sido roubadas.

O então procurador da República Carlos Aguiar diz que chegou a quebrar seu sigilo bancário, mas que não houve denúncia por entender que houve boa-fé na devolução.

Souza e Silva diz que, recentemente, Laéssio, ao sair de um de seus períodos de prisão, teria tentado extorquir recursos dele. Por e-mail, o colecionador deu entrevista ao jornal.

 

Folha - Recebemos carta de Laéssio Rodrigues de Oliveira sobre o roubo de gravuras de Emil Bauch da Biblioteca Nacional do Rio em 2004. Ali, ele descreve detalhes não conhecidos do público, os quais chequei com a Biblioteca e foram comprovados. Na carta, ele diz que vendeu as gravuras ao senhor. Isso é possível?

Ruy Souza e Silva - Isso não ocorreu. Não comprei essas gravuras de Laéssio. As gravuras foram adquiridas em Londres na centenária loja Maggs Bros. Além disso não se trata de obras únicas. São obras múltiplas. Há várias gravuras idênticas a essas em instituições e em coleções particulares no Brasil.

O Itaú Cultural forneceu documento da Maggs Bros, que diz que o sr. adquiriu um "album of engravings of Brazil" em 9 de novembro de 2004. O recibo não especifica se são de Bauch. O sr. se lembra se são?

Sim. O recibo diz respeito às gravuras de Bauch, que foram por mim adquiridas em 2004 junto à Maggs. Como não são assinadas nem reproduzidas nos livros de referência que a loja possuía, para a Maggs as gravuras eram anônimas. Daí o motivo de tê-las descrito na fatura simplesmente como "Álbum de gravuras do Brasil". Eu sabia que eram de Bauch, por isso as adquiri.

Em 2007, o sr. se apresentou voluntariamente e devolveu obras que havia comprado de Laéssio. Por quê?

Nenhum colecionador sério tolera a ideia de ter obras roubadas em seu acervo. É como se lhe queimassem as mãos. Tão logo soube da coincidência entre certas peças que as instituições listaram como roubadas e algumas peças que eu havia adquirido recentemente em leilões no Brasil, pela simples desconfiança de que pudessem se tratar das mesmas, resolvi devolvê-las imediatamente, sem buscar qualquer reparação.

Laéssio tentou extorquir recursos do sr.? Como isso está?

Sim. É verdade, estou movendo uma queixa-crime por calúnia contra Laéssio. Recebi várias cartas manuscritas dele ameaçando me chantagear, dizendo que vai revelar à imprensa que peças que ele furtou fazem agora parte de importantes acervos.

O processo que movo contra Laéssio aguarda julgamento em primeira instância. Nesse ínterim (em 2017), Laéssio foi pego (filmado pelas câmeras de segurança) roubando duas bibliotecas públicas (FAU e Faculdade de Direito, ambas da USP) e, no momento, encontra-se preso preventivamente na penitenciária de Japeri, condenado a 10 anos e 7 meses pelo roubo perpetrado em 2004 no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foi também condenado pelo roubo no Palácio do Itamaraty a pena de reclusão de 5 anos em regime fechado e ao pagamento de reparação de danos de R$ 1.455. É bom que fique preso por longo tempo, pois não perde oportunidade de gabar-se de que, se for solto, voltará a cometer crimes semelhantes às dezenas que já praticou.


SAIBA MAIS

Está em cartaz no Espaço Itaú Frei Caneca (hoje às 14h) o documentário “Cartas para um Ladrão de Livros”, de Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini, que traz a história de Laéssio.

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