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Onipresente, Godard não aparece em Cannes e manda alô pelo celular

O recluso cineasta surpreende ao aparecer para a coletiva de imprensa via facetime

Diretor Jean-Luc Godard participa de entrevista por videoconferência no Festival de Cannes
Diretor Jean-Luc Godard participa de entrevista por videoconferência no Festival de Cannes - Regis Duvignau/Reuters
Guilherme Genestreti
Cannes (França)

Assim como Bob Dylan no filme "Não Estou Lá", o diretor franco-suíço Jean-Luc Godard também não está presente, mas sua efígie se espalha por todo o Festival de Cannes deste ano. 
 
Vem de um longa seu, "O Demônio das Onze Horas" (1965), a imagem que ilustra o pôster desta edição: um beijo entre Jean-Paul Belmondo e Anna Karina. E no mês em que se completam os 50 anos do Maio de 1968, é a sua figura que é invocada quando se fala do grupo de cineastas que boicotaram o festival daquele ano, em apoio aos protestos.

Seguindo sua tradição de não aparecer no Festival de Cannes, o cineasta franco-suíço esteve ausente na exibição de seu filme "Le Livre d'Image" na sexta-feira (11). Mas a reviravolta veio neste sábado, quando o francês de 87 anos resolveu aparecer na coletiva de imprensa... via facetime.

Em videoconferência via smartphone de um dos produtores, Godard apareceu na tela de cabelo branco desgrenhado --portando seus característicos óculos de armação escura-- e respondeu perguntas que foram de geopolítica e o futuro do cinema. 

Alguns repórteres aproveitaram para o saudar como "lenda viva" do cinema; outros usaram a oportunidade para buscar pistas que ajudassem a decifrar seu longa-metragem exibido na véspera. O diretor foi provocativo como sempre: "O cinema não deve ser sobre o que está acontecendo, aquilo que você vê todo dia no Facebook, mas aquilo que não está acontecendo e aquilo que você nunca verá no Facebook".

​Espécie de colagem de trechos de filmes e imagens, o filme causou a estranheza habitual nos espectadores com uma narração e uma trilha sonora muitas vezes conflitante e diálogos que parecem abordar ideias filosóficas ou políticas que são interrompidas subitamente. 

Sem atores, a obra compila citações soltas na tela (várias delas narradas pelo próprio cineasta), cenas de filmes que vão de Steven Spielberg a Michael Bay, imagens do Estado Islâmico feitas com o celular, desenhos de Cézanne e Gauguin e sons que saem de diferentes canais.

"Le Livre d’Image", de fato, sepulta linearidade com uma estrutura toda fragmentada. Comparado ao seu filme anterior, "Adeus à Linguagem", soa como mais radical. É difícil resumir o que liga tudo. O filme está mais para uma instalação cinematográfica, uma colagem que perpassa questões como natureza da imagem, linguagem, orientalismo, violência política. 

As críticas estrangeiras patinaram para resumir o longa no espaço de seus textos. "Só os mais ingênuos se perguntariam o que tudo aquilo significa", escreveu Jonathan Romney, na revista Screen. Para Eric Kohn, da Indie Wire, "qualquer tentativa de interpretar o novo filme de Godard, em especial depois de ter visto apenas uma vez, não fará justiça à sua abordagem em fluxo de consciência".

A revista Variety chamou de "um modo de colagem de som e imagem por associação livre que sugere um cruzamento da MTV com "Revolução 9", dos Beatles. [Godard] não é mais um contador de histórias quebrado, ele é um poeta audiovisual".

Tendo feito nome ao romper com as regras cinematográficas nos anos 1960 graças a uma edição incomum e personagens que se dirigem à câmera, Godard continua buscando originalidade. Questionado sobre sua visão de longa data sobre filmes não deverem seguir uma narrativa convencional, respondeu:

"Se eu disse essa frase lá atrás, há bastante tempo, foi de modo a contrapor os Spielbergs e essa turma que dizia que a história precisava ter começo, meio e fim. E, então, como piada, eu disse: 'não nessa ordem'."

Ainda que tenha voltado a sumir depois da breve aparição virtual, o diretor continua em toda parte nesta edição do festival: uma imagem de "O Demônio das Onze Horas", seu clássico da nouvelle vague, decora o pôster oficial, e o seu longa disputa a Palma de Ouro --maior prêmio de Cannes, que Godard nunca conquistou em seus quase 60 anos de carreira.

FILME DE GÂNGSTER É METÁFORA DO CRESCIMENTO CHINÊS

Ainda na competição, o chinês Jia Zhang-ke, apresentou seu novo "Ash Is Purest White", a produção mais cara da carreira desse cineasta que é um dos medalhões dos festivais europeus.
 
Em sua nova obra, a história acompanha o turbulento envolvimento amoroso entre a namorada de um gângster e seu amado no período que vai de 2001 a 2018. Os 17 anos servem não só para que o cineasta faça uma reflexão sobre o que se perde com o tempo como o permite tratar das mudanças sociais em seu país. Jia é provavelmente o mais conhecido cronista das transformações da China contemporânea.
 
Enquanto Qiao (Zhao Tao) sai da cadeia e vaga em direção ao sul em busca do ex-namorado, Bin (Fan Liao), ela passa por lugares que estão acabando sob o crescimento exponencial do país. Ali, o povo dança ao som de "YMCA", do Village People, rendendo-se à abertura ao Ocidente.
 
À certa altura, a ex-presidiária cruza com a gigantesca barragem das Três Gargantas, talvez o maior símbolo da voracidade pantagruélica chinesa, já mostrada em "Em Busca da Vida", de Jia. No final, como se verá, até mesmo a velha criminalidade que grassava, não sem certo romantismo, está mudada para sempre. 

O jornalista se hospeda a convite do festival

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