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Ulysses Cruz dirige Leopoldo Pacheco e Regina Duarte em metáfora do poder

Montagem de O Leão no Inverno, peça do americano James Goldman, estreia hoje em São Paulo

MLB
São Paulo

O Natal da família real britânica de 1183 pode não ter sido tão doce quanto parecem os anúncios de fim de ano da rainha Elisabeth 2ª.

Em "O Leão no Inverno", peça do americano James Goldman que agora ganha montagem brasileira, com estreia nesta sexta-feira (18) em São Paulo, as festividades natalinas surgem bem pouco açucaradas. Servem, na realidade, para revelar desavenças familiares e conflitos pelo poder.

O encontro (aqui passado na propriedade real em Chinon, na França) nunca aconteceu de fato, mas Goldman pinça com bastante precisão alguns relatos históricos na construção de seus personagens.

O rei inglês Henry 2º (papel de Leopoldo Pacheco) liberta por aquele noite sua esposa, Eleanor (Regina Duarte), que aprisionou há anos após ela confabular contra ele.

O casal diverge sobre a sucessão do trono. Eleanor defende que Richard (Caio Paduan), o filho mais velho, assuma a coroa. Mas Henry prefere Johnny (Filipe Bragança), o mimado caçula. Entre eles, Geoffrey (Michel Waisman), o filho do meio, busca sem sucesso a atenção dos pais.

É um conflito particular, mas serve de espelho das ambições e dos jogos de poder humanos, diz Ulysses Cruz, que dirige a montagem brasileira.

"É muito legal ver os poderosos, em torno de uma árvore de Natal, praticamente se matando, falando barbaridades uns para os outros e revelando a esquizofrenia total e absoluta do poder, que é o que nós estamos vivendo hoje."

O texto de Goldman estreou em 1966 na Broadway e teve duas versões cinematográficas —em 1968, com Peter O'Toole, Katharine Hepburn e Anthony Hopkins, e em 2003, com Glenn Close e Andrew Howard. Ficou conhecido, em especial, pelos diálogos de impacto (nesta montagem traduzidos por Marcos Daud).

Katharine Hepburn and Peter O'Toole no filme "O Leão no Inverno" (1968)
Katharine Hepburn and Peter O'Toole no filme "O Leão no Inverno" (1968) - Divulgação

Henry, desgostoso da esposa envelhecida, diz a ela que "o tempo não fez nada além de enrugar você". A um jovem rei francês (Sidney Santiago), que tenta fazer valer seu poder de monarca, ironiza: "Um rei porque senta a sua bunda numa cadeira cor-de-rosa?".

Já Eleanor, após discussões que revelam traições e conspirações, ameniza: "Qual família não tem seus altos e baixos?".

As conversas são pontuadas pela direção musical de John Boudler, Gilberto Rodrigues e Nelton Essi, que levam à cena uma trilha sonora percussiva, quase toda tocada em uma bateria sobre o palco. Dali, saem sonorizações (como o som de uma porta se abrindo) e ritmos do jazz ao maracatu.

Visualmente, a montagem brasileira deixa de lado o aspecto pomposo da realeza. Tudo é feito em tom de ensaio: de início, os atores usam roupas despojadas. Chegam a ler o texto do papel, como se estivessem numa mesa de leitura.

No decorrer da cenas, experimentam um ou outro traje, como fazem os atores durante a criação de seus personagens. Mas o figurino final nunca chega. O tom inacabado se repete no cenário de Lucas Isawa, composto de móveis embrulhados por papel craft.

A estética nasceu de uma falta de verba, afirma o diretor. O projeto, autorizado a captar R$ 1,4 milhão via Lei Rouanet, arrecadou até agora R$ 650 mil (da Porto Seguro, que recebe a montagem em seu teatro).

Para Ulysses, a linguagem acabou por reforçar essa visita aos bastidores de uma família real, assunto que costuma atiçar a curiosidade alheia.

"Estamos às vésperas de um casamento real [no sábado (19), entre o príncipe Herry e a americana Meghan Markle], estou me preparando para acordar às 6h", diz o diretor.

"Eu sei tudo da família real, sei que é uma inutilidade, mas não tem gente que coleciona álbum de figurinha da Copa? Eu coleciono fofocas da família real britânica", brinca.

O Leão no Inverno

  • Quando Sex. e sáb., 21h, e dom., 19h. Até 29/7
  • Onde Teatro Porto Seguro, al. Barão de Piracicaba, 740, São Paulo
  • Preço Ingr.: R$ 50 a R$ 80 (www.tudus.com.br)
  • Classificação 12 anos
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