Descrição de chapéu Análise

Anthony Bourdain revelou as entranhas da cozinha americana com verve e bom humor

Em suas viagens pelo mundo, passou pelo Brasil algumas vezes, incluindo o Mercadão de SP

Anthony Bourdain exibe um sanduíche de mortadela no Mercadão, em São Paulo
Anthony Bourdain exibe um sanduíche de mortadela no Mercadão, em São Paulo - Discovery Travel & Living/Divulgação
Josimar Melo

Anthony Bourdain, apresentador de TV, escritor e chef de cozinha americano, morreu aos 61 anos, de acordo com a CNN, onde ele apresentava a série Parts Unknown.

Segundo o comunicado, a causa da morte foi suicídio. Ele estava gravando um episódio do programa na França, onde foi encontrado em seu quarto de hotel pelo chef francês (radicado em Nova York, dono do restaurante Le Bernardin) Eric Ripert.

Bourdain estava no auge. Cozinheiro desconhecido, ele ganhou fama ao publicar, em 1999, um artigo seminal na revista The New Yorker, chamado “Não Coma Antes de Ler Isto”—no qual, em plena era de glamorização dos chefs, ele relatava sua experiência na cozinha, mostrando um submundo de horrores (sujeira, produtos maquiados, drogas) invisíveis aos clientes. 

“Ser chef é muito como ser um controlador de tráfego aéreo: você está constantemente lidando com a ameaça de desastre. Tem que ser mamãe e papai, sargento, detetive, psiquiatra e padre para uma equipe de hooligans oportunistas e mercenários, que você deve proteger das estratégias nefastas e muitas vezes tolas dos proprietários.”

O conteúdo —que no ano seguinte, ampliado, virou o best-seller “Cozinha Confidencial”— era impactante, apesar dos muitos e óbvios exageros, que mais tarde ele confessaria. Mas o texto tinha incrível verve e bom humor. E não deixava de estar, digamos, inspirado em fatos reais.

Foi o começo da sua passagem de chef sem brilho no restaurante Les Halles, de Nova York, para o estrelato como escritor e apresentador. Ele publicou, entre outros, “Em Busca do Prato Perfeito” e “Ao Ponto” (lançados também no Brasil), e começou os programas de TV viajando pelo mundo com grande irreverência.Primeiro, A Cook’s Tour, na Food Network; depois Anthony Bourdain: No Reservations no Travel Channel (que ganhou dois Emmy, o Oscar da televisão) e, desde 2013, Parts Unknown na CNN —a 11ª temporada estreou em maio.

A relevância dos programas estava em não se limitar ao mundo dos grandes chefs (que abordava), mas principalmente ao de manifestações de cozinha popular, com botecos, mercados e quiosques de rua normalmente fora dos holofotes mesmo em seus países.

“As melhores refeições da minha vida aconteceram em lugares pequenos que cobraram quase nada”, disse em entrevista à *Folha* em 2000.

Com o tempo foi acrescentando às pautas temas mais amplos —a série atual da CNN é mais sobre viagens e a cultura do que só sobre comida.

O exemplo extremo de conexão com temas locais aconteceu em 2006, quando ele gravava No Reservations em Beirute e eclodiram combates de uma guerra civil que deixou a equipe ilhada num hotel observando mísseis pela janela.

O episódio mostra que, antes de serem evacuados por militares americanos, Bourdain prepara improvisadamente um jantar na cozinha do hotel às escuras, saída espirituosa para a atração.

Bourdain gravou episódios no Brasil —em São Paulo, Rio, Pará, Bahia e Minas Gerais. Em sua última passagem por SP demonstrava certo tédio e fadiga pelo trabalho, um distanciamento que relegava o grosso das atividades para a enorme equipe que o acompanhava. Mas os resultados, na tela, sempre eram saborosos.

Com a língua solta e ferina, virou um personagem sempre pronto a fazer declarações debochadas e impactantes. Não poupava nem a si mesmo, ao abordar, por exemplo, seus problemas com drogas. Há pouco fez declarações explosivas contra chefs como Mario Batali, acusados de assédio sexual (sua namorada, a atriz Asia Argento, esteve na linha de frente das acusações contra Harvey Weinstein).

O lado mais pitoresco de meus encontros com ele foi a humilhante diferença de altura que nos separava. Em sua primeira vinda ao Brasil fomos fotografados tomando cerveja no Mercadão (onde eu tentava, em vão, mostrar-lhe que aquele sanduíche com um palmo de mortadela e queijo quente era uma aberração) —e, na foto, eu parecia um anão.

A vingança veio anos depois, no restaurante El Kano em San Sebastian: ao ver que nos fotografavam, subi na cadeira mais próxima e o humilhei com minha nova "altura". Era normalmente meio azedo e mal-humorado —mas desta vez, embora meio constrangido, até riu. Guardo as duas fotos como lembrança dele, que era um chef sem brilho, mas um escritor ferino e, sobretudo, um grande e original divulgador da gastronomia. 

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