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Quando o teatro vai mal, o país vai mal, diz Fernanda Montenegro

Aos 88, atriz lança na Flip fotobiografia sobre sua vida e carreira

A atriz Fernanda Montenegro em sua casa, no bairro da Lagoa, na zona sul do Rio Zô Guimarães/Folhapress

MLB
São Paulo

Foi aos 16 anos que Fernanda Montenegro deu os primeiros passos da carreira de atriz. Bateu à porta da Rádio Ministério da Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, onde estreou na peça radiofônica "Sinhá Moça Chorou", de Ernani Fornari.

"Lá em casa se ouvia essa rádio. Um dia eu fui lá e... não sei o que te leva a ir a um lugar. Você saberia explicar por que foi parar no jornalismo?", pergunta a atriz à reportagem, em conversa por telefone. "Eu também não sei [por que virei atriz]. É um empoderado que leva a gente. Mais tarde a gente vê que caiu no lugar certo por puro trabalho do acaso."

Hoje, aos 88 anos, ela se divide entre os palcos, a TV e o cinema, como o filme que roda com Karim Aïnouz, e revisita a carreira em "Fernanda Montenegro - Itinerário Fotobiográfico" (Edições Sesc), que será lançado na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, em 27/7.

A publicação reúne "o que sobrou de 70 anos de uma vida pública", nas palavras da atriz. É um apanhado de fotos, de seu arquivo pessoal, e textos sobre sua vida e sua carreira.

Estão ali as origens da família, como o avô italiano, um dos pedreiros a erguerem o Theatro Municipal carioca —onde Fernanda estrearia "O Mambembe", em 1959—, e a infância de Arlette Pinheiro da Silva, seu nome de batismo, na zona norte do Rio.

Também percorre a carreira na televisão e no cinema, mas se dedica em especial ao trabalho no teatro, sua formação.

"O teatro é a essência de um país. Quando os palcos de um país vão mal, o país vai mal", diz. "Aqui, você vai aos palcos e vê o quê? Uma sobrevivência de devotos. Antes, vivia-se de teatro. Hoje, [o artista teatral] sempre tem que fazer uma pontinha em outro lugar."

Fernanda lembra, por exemplo, da companhia que formou no fim dos anos 1950 com o diretor Gianni Ratto e os atores Fernando Torres, marido da atriz, Sergio Britto e Ítalo Rossi. O Teatro dos Sete deu força à dramaturgia brasileira e montou hoje clássicos como "O Beijo no Asfalto", escrito por Nelson Rodrigues a pedido de Fernanda, depois de a atriz insistir por oito meses.

Foi uma coletânea de crônicas do dramaturgo que deu origem a "Nelson Rodrigues por ele Mesmo", leitura cênica que Fernanda tem apresentado nos últimos três anos, por vezes seguida de bate-papo.

"A gente deveria sempre conversar com o público, ter um diálogo com o espectador, fosse o retorno que fosse", comenta a atriz. "Acho que isso traz o desmonte de uma fantasia. De ambas as partes."

"Itinerário Fotobiográfico" dedica ainda uma seção, intitulada "Não sou ativista, sou atuante", à atuação política da atriz. Ali está a defesa que fez no ao Teatro Oficina sobre o imbróglio entre a companhia e o Grupo Silvio Santos, que pretende construir torres no terreno vizinho ao teatro, cuja arquitetura é tombada.

"Se a gente não grita, não vai sobrar nada", diz Fernanda. "Não há visão cultural para este país já há muitos anos, em muitos governos. Nós [artistas] estamos nas catacumbas. Mas não morremos!"

Fernanda Montenegro - Itinerário Fotobiográfico

  • Preço não informado
  • Editora Edições Sesc, 500 págs.
  • Lançamentos 27/7 no Casarão do Sesc Paraty, na Flip; 10/8 no Sesc Consolação; 11/8 na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

 

3 x Fernanda Montenegro

Rádio e televisão

Começou a carreira de atriz aos 16 anos na Rádio Ministério da Educação e Cultura (Rio). Era uma jovem enamorada de Garibaldi na peça radiofônica 'Sinhá Moça Chorou', de Ernani Fornari. Na TV, participou já nos anos 1950 de teleteatros da TV Tupi, como 'Retrospectiva do Teatro Universal'. Na Globo, fez mais de 30 trabalhos, entre minisséries, especiais e novelas, como 'O Outro Lado do Paraíso' (2017).

Teatro

Não à toa é conhecida como a primeira-dama do teatro. Ao lado de nomes como Gianni Ratto e Sergio Britto, fundou em 1959 o Teatro dos Sete, responsável por dar força à dramaturgia brasileira —de Artur Azevedo a Nelson Rodrigues, que escreveu 'O Beijo no Asfalto' a pedido da atriz. Foi dirigida por nomes como Zbigniew Ziembinski, Adolfo Celi, Gerald Thomas e Celso Nunes, com quem fez 'As Lágrimas Amargas de Petra von Kant', em 1982.

Cinema

Com mais de 30 longas, ela teve em 'A Falecida' (1965) seu primeiro grande filme. A atriz repetiria a parceria com o diretor Leon Hirszman em 'Eles Não Usam Black-Tie' (1981). Seu principal papel foi como a ex-professora Dora, que parte numa viagem pelo país com 'Central do Brasil' (1998), de Walter Salles. O filme lhe valeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Seu papel mais recente é como a viúva Eurídice, de 'A Vida Invisível', de Karim Aïnouz.

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