Escalada da violência no Rio ganha registros com múltiplos ângulos

Documentários dão voz a policiais, traficantes e às diversas vítimas deixadas no combate ao tráfico

Cena do documentário "Auto de Resistência"
Cena do documentário "Auto de Resistência" - Reprodução
Gustavo Fioratti
São Paulo

Plataformas digitais, cinema e TV abriram espaço para documentários e vídeos que retratam a violência no Rio de Janeiro.

A multiplicidade de formatos e de tipos de registro formam um mosaico de versões sobre a violência, em que se posicionam desde agentes da polícia, frequentemente criticada pela violência contra os mais pobres, até traficantes, que criam regras específicas onde o poder público se faz ausente.

Segundo fontes oficiais, 6.731 pessoas foram mortas em 2017 no estado do Rio de Janeiro; veja aqui algumas vozes destacadas no debate:


7,4%
foi o crescimento do índice de letalidade violenta no estado do Rio entre 2016 e 2017; indicador considera casos de homicídio doloso, latrocínio, morte por intervenção policial e lesão seguida de morte
1.124
é o número de mortes provocadas por policiais em 2017, crescimento de 21,5% em relação a 2016, quando a polícia foi responsável por 925 mortes, também no estado 
134
policiais foram mortos no Rio, no mesmo período ​


Quem conta a história?
A narrativa que coloca inimigos, ou um lado versus o outro, constrói a legitimação de processos sociais de uma política de segurança pública pautada em uma lógica do confronto. Não estamos vivendo uma guerra do tráfico versus a polícia com alguns inocentes no meio. Essa narrativa é rasa. E ela é moldada a partir da repetição de discursos oficiais em que boa parte da mídia se coloca. O que há são múltiplos conflitos. É preciso desconstruir a lógica binária da favela versus o asfalto, da polícia versus o bandido. [...]Existem conflitos narrativos e existem desconstruções das versões. Quando você lê um inquérito sobre o que aconteceu, são versões sobre o que aconteceu, assim como filmes são recortes, são representações. As versões policiais são construções. O que está nos autos não está no mundo.

Natasha Neri, antropóloga e cineasta, que dirigiu o documentário “Auto da Resistência” com Lula Carvalho

 

Não é vingança
Estou aqui na escola José de Castro, onde minha mãe foi assassinada. Um bandido tirou a vida da minha mãe. Minha família foi destruída por causa disso. Mas minha ideia não é me vingar. É evitar que outras pessoas passem pelo que passei.

Flávia Louzada, cabo da PMERJ, em vídeo postado no YouTube em outubro de 2016

 

Não nasci bandido
Ninguém nasce bandido. Eu jogava bola como qualquer outro colega. Foi isso que eu escolhi para mim? Foi. Não adianta me arrepender. Paz eu pedia antes de ser traficante. Quando trabalhava. E quando eu queria deitar e tinha que acordar às cinco da manhã para ir trabalhar, não conseguia porque a polícia estava na favela. Tinha que sair para trabalhar, me paravam lá embaixo e falavam que não era marmita que eu estava carregando na mochila.

Traficante no Complexo do Alemão, em vídeo publicado no YouTube em 2012

 

Guerra às vítimas
Com relação a essa política que se diz de guerra às drogas, é preciso atentar, como diz a professora Maria Lúcia Karam [juíza aposentada e ex-juíza auditora da Justiça Militar Federal], que guerra não se faz contra coisas ou substâncias. Guerra se faz contra pessoas. E as pessoas que se fazem contra essas guerras são essas mesmas que são vítimas da letalidade policial, majoritariamente a juventude negra, pobre e periférica.

Daniel Lozoya, defensor público do núcleo de direitos humanos, no filme “Auto de Resistência”

 

PM tem alvo certo
A seletividade do alvo da polícia já está definida na sociedade. Quando você pega o alvo do homicídio doloso, você vai encontrar homem, jovem até os 29 anos, pobre, morador da periferia, negro. Então já está definido quem vai ser preso e quem vai morrer. Só que tem um detalhe: não foi a polícia que selecionou isso.

Ubiratan de Oliveira Ângelo, ex-comandante geral da PM do Rio de Janeiro em depoimento ao filme “Rio do Medo”

 

Efeito colateral
Quando vi que eram os policiais, levantei a mão e disse ‘sou mãe, eles são morador, não é bandido’. Aí começaram, ‘volta, porra, volta, filha da puta, volta, vou atirar’. Eu disse, ‘não vou voltar, sou a mãe deles, aí só tem jovem dentro do carro, não são bandidos’. Vi que eles não ia deixar, aí desesperei. Falei ‘moço, pelo amor de Deus, eles estão vivos, pelo amor de Deus, a UPP é ali perto. Ele não deixou. Deixou eles ficar agonizando lá dentro, até morrer.

Márcia Oliveira, mãe de vítimas da chacina de Costa Barros, em registro do filme “Auto de Resistência”

 

Quem manda?
Muitas vezes, quando nós entramos em uma favela, eles estão vestidos de preto, organizados, eles andam em patrulhas, eles têm um chefe. Estamos em uma guerrilha urbana. Eles usam técnicas de guerrilha. Você pode reparar que, muitas vezes, um garoto de 16 anos tem muito adestramento com o armamento que usa, e eles acertam o policial.

Vinicius Cavalieri, fundador do Núcleo da Companhia de Operações Especiais, em depoimento ao filme “Rio do Medo”

 

Quem é punido?
Até que ponto essas ações continuarão sem qualquer culpabilidade, do secretário, do chefe da polícia. Se não houver uma punição a essas pessoas que são mais vilões do que os próprios policiais que apertam o gatilho, vão continuar as mortes, vai continuar havendo inúmeros casos como os que estão nesta CPI e tantos outros que nós sequer temos conhecimento.

Deputado Wanderson Nogueira, integrante de CPI que investigou a violência policiais no Rio, em depoimento registrado pelo filme “Auto de Resistência”

 

Quem sobrevive?
Estava muito quente, estava calor, a gente ficou na porta de casa brincando, gravando vídeo. O Alan fez uma brincadeira comigo, ele botava a câmera de luz no meu rosto e falava: ‘camuflagem, camuflagem’. Fui correr atrás dele e ouvi os disparos.

Chauan Jambre, que foi preso pelos policiais autores de assassinato na favela de Palmeirinha; Jambre não foi incriminado porque Alan estava filmando a brincadeira e o vídeo serviu de prova a seu favor e contra os policiais.

Ethos do Traficante
“Se roubar na favela, morre, se estuprar, morre”

Homem com rosto coberto, sobre quem infringe leis estabelecidas pelo tráfico, no documentário “Guerra do Tráfico”, transmitido pelo programa Repórter Record no ano passado e disponível no YouTube

 

Sem efeito
Não adianta eu dar um comando, ou o comandante do batalhão dar um comando e dizer: ‘não matem mais’. O que você tem que fazer é a criação de uma política que reverta esse quadro. E foi isso que a gente fez. A criação de um índice de letalidade violenta, e esse índice é medido, e se você atingir um bom índice você recebe por isso.

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança entre 2007 e 2016, no filme “Auto de Resistência”, sobre índice a partir de dados sobre homicídio doloso, homicídio causado por latrocínio, auto de resistência e lesão seguida de morte

 

Ossos do ofício
O policial militar é um profissional adoecido por conta do seu trabalho, as condições de trabalho levam ao adoecimento. O sofrimento físico e psicológico. A polícia hoje tem um efetivo em torno de 47 mil homens. Dezessete mil estão afastados por problemas médicos.

Paulo ​Storani, antropólogo, pesquisador na área de segurança pública, capitão veterano da PM do Rio, em depoimento para “Rio do Medo”

 

Tiro pela culatra
Se não vem esse vídeo, que o policial resolveu por algum motivo colocar na mídia, possivelmente esse episódio da favela do Rola já tinha sido arquivado. Os elementos que são coletados pela polícia eles já vem coletados de uma forma que não tem alternativa. Quem são as testemunhas ouvidas nesse processo? São os policiais que participaram da operação.

Fábio Uchôa, desembargador, no filme “Auto de Resistência”, sobre vídeo gravado por um policial

 

Mansões e carrões
Só não vende para criança. [As drogas] sustentam até família de gente alta, que está no controle, policiais. O sobrevívio (sic) deles é do tráfico, pô. Pessoa grande lá em cima? As mansões que eles têm? Carrões? O tráfico é que banca.

Juarez Mendes da Silva, o Spiderman, traficante, em vídeo publicado no YouTube em 2010

 

Tão longe, tão perto
PM é igual criança: longe, dá saudade; perto, incomoda.

Vinicius Cavalieri, em depoimento ao documentário “Rio do Medo”

 

Peito aberto
Não tem colete do tamanho dele na Polícia Militar. Ele vai para o enfrentamento sem colete. Sai de casa todo dia, deixa mulher e três filhos sem saber se vai voltar. Direitos humanos só se preocupa com o pobre, o preto. Infelizmente, ele errou, deu os tiros, quando saltou da viatura viu que não eram bandidos. Se fossem bandidos talvez ele não tivesse aqui. Olha o tamanho do alvo. Para acertar é fácil. Traficante é magrinho.

Advogada de policial, registro do filme “Auto de Resistência”; defesa durante julgamento do réu, que foi autor de chacina no Rio de Janeiro 

 

Correr ou dar porrada?
Esse coeficiente profissional [a polícia] cujos representantes tentei radiografar tem características vocacionais que não podem ser comparadas às características de um ativista do Greenpeace. Estou dando um exemplo absurdo aqui. Há diferenças humanas vocacionais. O que você faz em uma esquina quando vê um assalto? Tem gente que sai correndo, tem gente que vai para a porrada. E ir para a porrada pode salvar uma vida. Ir para a porrada não é necessariamente algo pejorativo. Você precisa de alguém que vá para a porrada para defender uma criança agredida. 

Ernesto Rodrigues,  diretor do documentário “Rio do Medo”

 

Tapa na cara
Na instrução de defesa pessoal há um exercício em que você coloca  um aluno de frente para o outro, e um começa a dar no outro. Você naturaliza uma coisa que para os outros pode ser humilhação. Depois de duas semanas, o tapa na cara se torna uma maneira de cumprimentar o outro. Perder a vida em combate é pior que o tapa na cara. Um inocente vir a óbito em uma operação da qual você participou? Muito pior que tapa na cara.

Paulo Storani, em depoimento para o documentário “Rio do Medo”

 

Ódio e dor
Atirou algumas vezes, meu filho chegou a correr pelo menos uns dez metros, acertou nas costas, e ele ainda correu uns metros e caiu. As pessoas acham que sou forte. É horrível o que eu vou dizer, mas tem dia que eu acho que o ódio é mais forte que a minha dor.

Nívia do Carmo Raposo, mãe de jovem que, segundo o filme "Nossos Mortos Têm Voz", foi assassinado por integrantes de milícia em Nova Iguaçu (RJ)
 

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