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Livros

Le Carré se afasta da ficção e se debruça sobre memórias de episódios notáveis

Curiosidades não faltam em 'Túnel de Pombos', no qual autor escreve em texto elegante que o consagrou

Thales de Menezes

O Túnel de Pombos: Histórias da Minha Vida

  • Preço R$ 54,90 (322 págs.)
  • Autor John le Carré
  • Editora Record
  • Tradução Alessandra Bonrruquer


Alguns escritores, até mesmo os geniais, podem acabar presos a uma determinada obra, saudada como seu grande momento criativo. 

O britânico John le Carré, 86, um dos maiores nomes dos romances de espionagem, deve estar cansado de ser tratado como o autor de “O Espião que Saiu do Frio”.

A excelência narrativa desse livro de 1963, sobre um agente britânico enviado para a Alemanha Oriental como falso desertor, acabou se tornando uma comparação cruel e persistente na carreira de Le Carré.

Embora tenha escrito romances incríveis ao longo de quase seis décadas, sua obra-prima permanece imbatível.

john le carré
O escritor britânico John Le Carré em sua casa, em Londres - Kirsty Wigglesworth - 28.ago.2008/Associated Press

Em seu novo livro, “O Túnel de Pombos: Histórias da Minha Vida”, o escritor pode finalmente deixar de se preocupar com essa sombra nas análises da crítica. 

Pela primeira vez, Le Carré se afasta da ficção e se debruça em fragmentos de memórias, em capítulos curtos que contam casos divertidos.

O volume não é nada didático. Quem espera por um painel completo e cronológico da vida do escritor ficará decepcionado. O que as páginas oferecem são pequenos relatos de encontros notáveis e episódios curiosos, o que não falta na trajetória de Le Carré. Tudo no texto elegante, fluido e sagaz que o consagrou.

Sua carreira foi impulsionada pelo conhecimento real do mundo da espionagem. Seu primeiro romance, “O Morto ao Telefone”, foi lançado em 1961, quando ele ainda trabalhava no MI6, o serviço de inteligência britânico.

Embora tenha iniciado suas publicações na mesma época em que James Bond ganhava as plateias dos cinemas, sua prosa sempre foi encaminhada para outro lado do cotidiano dos agentes secretos. A vida dos espiões não foi sempre o universo de glamour das aventuras de 007, e Le Carré tratou de deixar isso bem claro.

Seus personagens podem ser covardes com breves momentos de coragem, profissionais atrapalhados ajudados pela sorte ou pessoas de caráter questionável. Esses retratos despertaram a ira de muitos de seus colegas espiões, prontos a criticá-lo e, em situações extremas, a dar um murro na cara do escritor.

Essa reação raivosa dá origem a muitos trechos de “O Túnel de Pombos”, entre festas em embaixadas e cerimônias do governo em que Le Carré é obrigado a praticar esgrima verbal com convidados ressentidos. São exemplos bem-acabados da celebrada ironia dos ingleses.

Há outros momentos curiosos. O leitor ficará sabendo, por exemplo, como o venerado ator inglês Alec Guinness (1914-2000) foi influência fundamental para a criação de George Smiley, personagem mais famoso de Le Carré.

As observações sarcásticas do escritor não se restringem a ex-colegas. Sobram farpas para a imprensa, principalmente em relatos de conversas com o magnata da mídia Rupert Murdoch, e para o mundo do cinema, do qual Le Carré se aproximou bastante ao ter uma dezena de romances adaptados para as telas.

Le Carré teve uma vida tão fascinante que essa autobiografia informal acaba sendo bem mais interessante que os romances que lançou nesta década, “Uma Verdade Delicada” (2013) e “Um Legado de Espiões” (2017).

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