Ninhos da bossa nova têm destinos variados

Folha visitou locais no Rio onde o gênero foi gestado, como o bar de onde Tom e Vinicius viram a Garota de Ipanema

Júlia Barbon
Rio de Janeiro

​Quando leu seu primeiro livro, aos 9 anos, Amanda Rodrigues, 36, nunca imaginaria que ele teria relação com o prédio em que ela trabalha hoje como contadora, no centro do Rio de Janeiro.

 
A obra chamava-se “Chega de Saudade” e era inspirada na canção de mesmo nome, escrita por Vinicius de Moraes e Tom Jobim: “Livro e música mudaram minha vida, me fizeram amar literatura e MPB”.

Isso explica por que ela abriu um sorriso de ponta a ponta quando descobriu que seu escritório fica no mesmo lugar onde, 60 anos atrás, João Gilberto gravou a canção, marcando o nascimento da bossa nova: o quarto andar do edifício São Borjas, no centro.

Era lá que funcionava a gravadora Odeon (hoje extinta), ponto de partida de um “tour” feito pela Folha por seis endereços do Rio que contam um pouco da história do gênero.

A 350 metros dali, está a uisqueria com ares dos anos 1950 que abrigava a boemia intelectual da época, a Casa Villarino. 

Na parede, conta a gerente Stela Imai, 60, entre outros escritos pairavam um poema de Pablo Neruda, uma mulata de Di Cavalcanti e as primeiras estrofes de “Aquarela do Brasil”. Mas ela foi pintada e só restou uma foto, ampliada em tamanho real.

Hoje, a fumaça de cigarro que tomava o salão se deslocou para mesinhas na rua, e a clientela é de advogados e executivos do centro que buscam um lugar para almoçar.

A história, porém, segue preservada nos móveis, nas fotos e na placa do lado de fora dizendo que, ali, Vinicius e Tom firmaram sua primeira parceria, no verão de 1956, para o musical “Orfeu da Conceição”.

Os sete meses entre o encontro e o lançamento da peça seriam de inúmeras reuniões entre os dois em outro endereço, mais perto do mar: a casa de Tom, na rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema.

Foi onde o músico morou até 1960, e o imóvel continua sendo da família. Na canção “Carta ao Tom 74”, Vinicius e Toquinho eternizaram o apartamento. “Rua Nascimento Silva, 107/Você ensinando pra Elizete/As canções de canção do amor demais”, cantam.

Dali, Tom costumava andar três quadras até o bar Veloso, batizado de Garota de Ipanema após a música ganhar projeção e se tornar símbolo da bossa nova. Isso porque foi da varanda do bar que ele e Vinicius viram a garota passar.

Apesar de hoje o local ser conhecido por turistas, a inglesa Laetitia Moon, 19, só soube da história porque estava apertada para fazer xixi. “Descobri após ver a placa na parede”, disse, em inglês, antes de assobiar o refrão da canção.

Quem mandou colocar a placa foi o português Manuel Capão, 75, que comprou o Veloso há 43 anos. “Uma vez o telefone tocou e era para o Tom, que sentava ali naquele canto. Ele pegou o telefone e disse: ‘Ainda tô aqui no Veloso’. Mas o bar já chamava Garota de Ipanema”, ele se diverte.

Outra que conheceu uma das estrelas da bossa foi a executiva Fani Besdin, 83. Há mais de 30 anos, ela comprou a escritura de sua casa das mãos da mãe de Nara Leão. “Elas eram gentis, amáveis. Muito gente, sabe?”, diz Fani.

O apartamento espaçoso da família Leão, com enorme janela para o mar de Copacabana, foi um dos berços da bossa nova. Recebia encontros quase diários de grandes nomes da música nos anos 1950.

Entre eles, Vinicius, Tom, o letrista Ronaldo Bôscoli (que virou namorado de Nara) e os violonistas Roberto Menescal, Carlos Lyra e Chico Feitosa.

“Essa parte aqui é onde eles mais ficavam”, conta Fani, apontando para onde hoje é uma sala de jantar. “Quando fez 50 anos da bossa nova, houve uma série de eventos aqui. Foi muito emocionante, porque vivi essa época, né?”

Enquanto ocorriam os encontros, uma outra rua de Copacabana fervilhava. Era o Beco das Garrafas, a um quarteirão do Copacabana Palace, que abrigava quatro boates.

O lugar é ponto em comum da carreira de mais de cem artistas, como Elis Regina e Jorge Ben. Foi a casa do samba-canção e, depois, da bossa, até decair nos anos 1960 e ficar abandonada por décadas.

O dono dos imóveis, Sergio De Martino, e a produtora cultural Amanda Bravo, filha do instrumentista Durval Ferreira, ressuscitaram o local em 2014. Agora são dois bares, que mantêm os nomes antigos: Little Club e Bottle’s Bar.

É o lugar ideal para terminar o “tour”, com decoração que replica a época —incluindo uma partitura do violinista Baden Powell— e shows da nova guarda todas as noites.

Os bares vieram após a livraria e loja de discos Bossa Nova & Companhia, no início da rua, em 2006. “A gente fica surpreso como os estrangeiros conhecem a história. Pena que o brasileiro não dê o mesmo valor”, lamenta Sergio.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.