Descrição de chapéu Flip

'Política é teatro, pode perguntar a Lula ou a Trump', diz biógrafo de Stálin na Flip

Para Simon Sebag Montefiore, ditador soviético 'foi mestre das fake news' e seria tuiteiro assíduo

Guilherme Magalhães
Paraty

O poder absoluto fascina o escritor e historiador Simon Sebag Montefiore, autor de quatro biografias que lançaram novas luzes sobre as vidas do ditador soviético Josef Stálin (1878-1953), dos czares Románov e de quatro séculos da vida política da Rússia.
 
"Política é teatro, pode perguntar a Lula ou a Trump", disse o britânico, que participou da mesa O Poder na Alcova, neste sábado (28), na Flip, em Paraty.
 
O comentário foi feito quando Montefiore evocava as festas em que o czar Pedro, o Grande (1672-1725) reunia gigantes e anões em "uma mistura de Game of Thrones e Led Zeppelin".
 
Para ele, o estudo dos monarcas russos e do mais poderoso líder da ex-União Soviética é relevante para entender não apenas a Rússia de hoje, mas um mundo em que "a autocracia está crescendo e as pessoas sentem medo das fraquezas democráticas".

"Stálin foi o mestre das fake news, entendia como espalhar boatos, como criar mentiras que funcionavam bem", disse o biógrafo, para quem "Stálin ia certamente escrever muitos tuítes se ainda estivesse vivo".
 
Até o presidente americano, Donald Trump, pode ser analisado sob a luz dos Románov. "Ele quer ser o primeiro czar americano, e pode ter êxito nisso", afirmou o escritor.
 
E, obviamente, o presidente russo, Vladimir Putin, no poder há 28 anos.
 
"Eles [Trump e Putin] compartilham uma desconfiança das regras, não dão a mínima pra democracia. Os dois querem fazer seus países grandes de novo."
 
Montefiore, o primeiro ocidental a ter acesso aos documentos privados de Stálin, contou o que encontrou nas caixas de papéis —além do gato que pulou em sua cabeça quando entrou pela primeira vez nos subterrâneos dos arquivos russos.
 
“Era uma matança generalizada. Muitas anotações diziam mate essa pessoa, prensa essa pessoa, tudo com a letra dele e ainda cheirando ao cachimbo dele. Mas em outro arquivo havia suas cartas com a filha Svetlana, que tinha sete anos de idade e gostava de fazer de conta que ela era a ditadora”, disse.
 
Em uma delas, Svetlana escreveu: “Eu ordeno que todo o dever de casa será abolido na União Soviética. Assinado Svetlana”.
 
Uma das preocupações de Montefiore em “Stálin: A Corte do Czar Vermelho” foi humanizar a figura do comunista, algo que as biografias publicadas anteriormente não se pretendiam a fazer.
 
Para escrever “O Jovem Stálin”, o escritor foi até a Geórgia, onde nasceu o ditador, e encontrou as memórias da mãe do responsável pelos gulags, que ficaram arquivadas no “lugar errado” depois que ela insistiu em escrevê-las ainda que seu filho tenha proibido que ela concedesse entrevistas.
 
Agora, a biografia que deu início ao seu trabalho de pesquisador é editada pela primeira vez no Brasil.
 
“Catarina, a Grande, & Potemkin”, da Companhia das Letras, foi publicada originalmente em 2001 e será adaptada para o cinema com Angelina Jolie no papel da poderosa czarina que expandiu o Império Russo no século 18 e foi uma das expoentes do despotismo esclarecido.
 
A obra foi largamente baseada nas cartas trocadas entre a governante e seu amante, ministro-chefe e líder da Marinha. “Muitas das cartas deles eram sexualmente explícitas, eram como sexting”, disse Montefiore, referindo-se ao hábito de trocar mensagens de texto picantes via celular com um parceiro.
 
Os temas eram os mais variados. “Eles falavam sobre política, sobre arte, jardinagem, hemorroida, todo mundo falava de hemorroida no século 18”, afirmou, seguido de risadas generalizadas.

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