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Livros

Reverenciado pela cultura pop, Aleister Crowley tem trajetória resgatada

Além de nova edição de 'O Livro da Lei', ocultista britânico é objeto de biografia em quadrinhos

Thales de Menezes
São Paulo

O Livro da Lei

  • Preço R$ 49,90 (210 págs.)
  • Autor Aleister Crowley
  • Editora Chave
  • Tradução Marina Della Valle

Aleister Crowley

  • Preço R$ 59,80 (160 págs.)
  • Autor Martin Hayes e R.H. Stewart
  • Editora Chave/Veneta
  • Tradução Marina Della Valle

Quando lançou a música "Sociedade Alternativa", em 1974, Raul Seixas ganhou as paradas do país com o refrão "Faz o que tu queres pois é tudo da lei". A lei, nesse caso, foi criada pelo inglês Aleister Crowley (1875-1947).

Ou, talvez, pelo deus Hórus. Mais precisamente, por Aiwass, um mensageiro dessa divindade que, durante três dias seguidos em 1904, teria ditado a Crowley o texto depois publicado em "O Livro da Lei".

A obra, cultuada por décadas e levada à condição de manual espiritual pela contracultura dos anos 1960, ganha nova edição no Brasil.

Na verdade, é um pequeno "pacote Crowley", parceria do selo Chave com a editora Veneta. Além de "O Livro da Lei", chega às livrarias a HQ "Aleister Crowley", biografia com texto de Martin Hayes e ilustrações de R.H. Stewart. Somados, os dois volumes oferecem um retrato amplo de sua vida e de sua obra.

Aleister Crowley na Inglaterra, em 1912, com trajes cerimoniais  - Underwood Archives/Getty Images

A tarefa não é simples, como deixa claro a lista de atribuições dadas a Crowley: mago, escritor, poeta, ocultista, filósofo, iogue, montanhista e enxadrista, para ficar nas classificações mais objetivas. Muitos podem acrescentar a elas os rótulos de hedonista, pansexual, defensor do consumo de drogas, espião (britânico? alemão?) e satanista.

Talvez mago seja a mais perfeita tradução de sua trajetória. Crowley foi integrante e criador de diversas entidades esotéricas. "O Livro da Lei" serviu para estabelecer a doutrina filosófica conhecida como Thelema. Ela professa a ideia da Verdadeira Vontade do indivíduo, o propósito de alcançar a realização por esforço pessoal, sem ajuda de Deus.

Nascido de uma família abastada de fanáticos religiosos, Crowley atravessou infância e adolescência de sofrimentos físicos e espirituais. Encontrou um novo caminho com a prática da magia e seu talento para escrever.

Sua busca pelo autoconhecimento incluiu episódios escandalosos, de declarações iconoclastas e comportamento sexual libertino, que levaram a imprensa britânica do início do século passado a classificá-lo de "o homem mais perverso do mundo". Já Crowley preferia ser chamado por um apelido: Grande Besta 666.

"O Livro da Lei", base de seu pensamento subversivo, teve origem numa experiência mística vivida por ele e uma de suas mulheres, Rose Kelly, no Cairo. Nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, entre 12h e 13h, Aiwass teria ditado ao mago os três capítulos do livro.

A compreensão está longe de ser fácil. Crowley sempre recomendou uma leitura lenta e individual. Fez várias anotações sobre o texto, mas não criou um guia para seu entendimento. Cada leitor deve buscar suas lições no jorro de ideias contido na escritura, de tom libertário.

A nova edição brasileira, bilíngue, é recheada de material de apoio. A tradução da jornalista Marina Della Valle é primorosa. Há extremo rigor na manutenção das estranhezas do original, que traz uma enxurrada de nomes de entidades místicas com grafias díspares, letras maiúsculas inseridas no meio de frases, mudanças abruptas nas pessoas verbais e construções gramaticais intrincadas.

Há também a reprodução de todas as páginas do manuscrito de Crowley, suas anotações sobre o livro e o ato de escrevê-lo, notas introdutórias da tradutora e algumas páginas saborosas dedicadas à relação de Crowley com Fernando Pessoa (1888-1935).

Um texto do escritor português David Soares fala sobre a relação entre os dois autores, em especial um período curto de convivência no ano de 1930, em Portugal. A amizade teve episódios como supostos rituais esotéricos de Pessoa e a ajuda deste para que Crowley simulasse um suicídio, com intenção de escapar de amantes que o perseguiam. A edição de "O Livro da Lei" é concluída com um poema do inglês, "Hino a Pã", na tradução do amigo português.

É compreensível a forma como a revolução comportamental dos anos 1960 adotou Crowley. Sua influência ultrapassou as práticas do ocultismo. Ele antecipou o sexo livre, a ioga e o consumo de drogas como bandeiras de uma nova sociedade. É muito fácil encontrar referências a ele na arte produzida nos últimos 50 anos, em especial no rock britânico (leia ao lado).

Assim, a biografia "Aleister Crowley" ter o formato de "graphic novel" é bastante natural. O mago já é figura conhecida por quem acompanha as publicações dos mais renomados nomes da HQ britânica, como Neil Gaiman, Grant Morrison e Alan Moore.

As inúmeras citações a Crowley na obra de Gaiman podem ser melhor representadas por um personagem das histórias de "Sandman": o mago Roderick Burgess, desenhado com inspiração na figura real do ocultista.

Já Morrison incluiu o ídolo em sua HQ mais famosa, "Batman: Asilo Arkham". Ele inventou um encontro entre o mago e o fundador do tenebroso asilo de Gotham City, Amadeus Arkham.

Mas é o cultuado Alan Moore aquele que mais espalhou a presença de Crowley em suas obras, como as consagradas "V de Vingança", "Promethea" e "Do Inferno". Nesta última, desenhou um Crowley ainda garoto, numa participação especial.

Fica evidente que os autores da biografia não chegam perto da excelência gráfica desses admiradores. O desenho de R.H. Stewart, em preto e branco, não impressiona. No entanto, Martin Hayes incluiu no volume mais 35 páginas de texto, com notas explicativas de dezenas de desenhos da novela gráfica, detalhando pessoas, lugares e acontecimentos. Essas informações complementares dão corpo ao trabalho e servem como acréscimos pontuais e divertidos à biografia de Crowley.

Com esses dois livros, a introdução ao pensamento do mago mais badalado do século 20 está disponível. Deve entusiasmar muitos leitores, mesmo que esses não cheguem à empolgação de Raul Seixas e Paulo Coelho, que pensaram em criar uma sociedade alternativa a um mundo que sempre temeu pessoas como Aleister Crowley.


6 conexões musicais com Mr. Crowley

Raul Seixas

Com Paulo Coelho, propôs a Sociedade Alternativa, baseada nos ensinamentos d''O Livro da Lei'. A influência de Crowley é intensa nos álbuns 'Krig-ha Bandolo!' (1973), 'Gita' (1974) e 'Novo Aeon' (1975)

Beatles

Crowley aparece na capa do álbum 'Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band' (1967). Ele é o segundo rosto da fila mais alta, a partir da esquerda

Ozzy Osbourne

Gravou a música 'Mr. Crowley' em seu primeiro álbum solo, em 1980, e dedicou a Crowley seu disco seguinte, 'Diary of a Madman' (1981)

Bruce Dickinson

O vocalista do Iron Maiden é um fã de carteirinha de Crowley. 'Powerslave', 'Revelations', 'The Alchemist', 'Starblind' e 'Moonchild' citam o ocultista ou suas ideias

Led Zeppelin

O guitarrista Jimmy Page comprou a mansão Boleskine House, que foi endereço de Crowley às margens do lago Ness. O líder do Led Zeppelin teria feito ali rituais de ocultismo

David Bowie

Em 'Quicksand', do álbum 'Hunky Dory' (1972), Bowie se diz vestindo roupas de Crowley num sonho delirante

Erramos: o texto foi alterado

A canção “Quicksand”, de David Bowie, é do álbum “Hunky Dory” (1971), não do álbum “The Man Who Sold the World”, como foi informado inicialmente.

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