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'Tenho um pacto com a palavra', diz Ruy Castro na Flip

Em mesa na Casa Folha, cronista falou sobre sua relação com o escritor Carlos Heitor Cony

Ruy Castro participa de mesa da Casa Folha com mediação de Sérgio Dávila, em Paraty
Ruy Castro participa de mesa da Casa Folha com mediação de Sérgio Dávila, em Paraty - Keiny Andrade/Folhapress
Guilherme Magalhães
Paraty

Tal qual o personagem principal do clássico filme de Ingmar Bergman “O Sétimo Selo”, Ruy Castro vem enganando a morte desde 2005. Mas, no caso do cronista, seu pacto é diferente.

“Tenho um pacto com a palavra, com a informação, com a opinião”, disse Castro na primeira mesa desta sexta-feira (27) na Casa Folha em Paraty, durante a Flip.

O colunista da Folha lembrou que até 2005 passou "sem dar um espirro”. Desde então, “a bruxa resolveu me achar e me contemplou com dois cânceres, um infarto e uma encefalite viral”.

“Só não fui embora nessas vezes todas porque eu tinha que entregar um livro, como se a palavra tivesse me salvado”, contou o autor de premiadas biografias de Carmen Miranda, Garrincha, e também da bossa nova e do samba canção.


Em uma conversa com o editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, Ruy falou sobre sua convivência de quase cinco décadas com o escritor Carlos Heitor Cony, também colunista do jornal, morto em janeiro deste ano, aos 91 anos.

Durante a Flip, a Três Estrelas ---selo editorial do Grupo Folha--- lança “Quase Antologia”, reunião de crônicas de Cony publicadas na Folha e organizada pelo jornalista e escritor Bernardo Ajzenberg.

“O Cony tinha uma visão absolutamente cética de tudo. Dá pra perceber na primeira crônica. Na segunda você ia confirmar e na terceira você ia se empolgar”, disse Ruy, que leu uma crônica de Cony pela primeira vez em 1962, no jornal carioca Correio da Manhã.

“Se você tem 14 anos de idade e se deixa impregnar por esse tipo de sentimento, isso me marcou pelo resto da vida. Continuei cético até hoje, graças a Deus, quer dizer, graças a Carlos Heitor Cony.”

Lembrado pelo costume de dizer que não era de esquerda, nem de direita, muito menos de centro, “mas se houver uma revolução, sei para qual lado atirar”, Cony, destacou Ruy, foi o primeiro cronista de peso a fazer oposição ao golpe militar de 1964.

“O Cony, que diziam que era o cronista alienado politicamente, foi o que tomou posição e começou a disparar coisas violentíssimas contra os militares.”

O cronista passou então a ser ameaçado de violência física, disse Ruy. “Ele teve a sorte de ser processado pelo Costa e Silva [então ministro da Guerra]. Isso foi bom porque se houvesse alguma coisa contra ele, saberiam que tinha sido o Costa e Silva.”

Depois de trabalharem juntos em diversas Redações, Cony e Ruy passaram a compartilhar também um espaço na página 2 da Folha, a coluna Rio de Janeiro.

“De repente passei a dividir com o Cony um espaço de irmãos, ele me considerava uma espécie de irmão mais novo. Ele foi diminuindo a produção dele, eu fui tomando o espaço dele, injustamente.”

Biógrafo reconhecido, Ruy não deixou de lembrar, sob risos da plateia, sua fórmula para o “biografado ideal”: “Teria de ser um homem solteirão, estéril, virgem, filho único e broxa. É a única maneira de não ter herdeiro de lado nenhum”.

Fascinado pelo Rio de Janeiro, Ruy, que é mineiro de Caratinga, disse que trabalha agora em um livro sobre o Rio moderno dos anos 1920.

“Cobre tudo o que aconteceu a partir do Carnaval de 1919, o maior até então, porque sucedeu o fim da Primeira Guerra e a gripe espanhola que matou 15 mil pessoas em 15 dias. Quem não morreu saiu às ruas porque podia ser o último Carnaval da vida delas. E vai até a Revolução de 1930”, revelou o escritor.

Segundo ele, o período é muito pouco explorado na historiografia do Rio. “É um território praticamente virgem. Deixaram 11 anos ali só pra mim, monumentais na história do Brasil.”

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